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1984 no ano que não terminou
1984 no ano que não terminou

ão há exemplo histórico que Endosse o fato de que uma classe Ou grupo político que tenha chegado ao poder pela força venha concientemente a preparar o fim do seu predomínio.
(Arnaldo Pedroso  d’Horta – articulista de “O Estado de São Paulo”)

 

biênio da Poli(1º e 2º ano)

Cheguei a Universidade no ano em que não terminou. Em nosso terceiro mês de escola Edson Luiz era assassinado numa manifestação estudantil carioca no restaurante Calabouço e uma onda de revolta varreu toda a comunidade perplexa que se arrepiava perante o ricto da primavera em Paris.
Na busca e construção do aprendizado eu lia muito. Literalmente devorava pilhas de volumes da filosofia até a investigação e tudo que exercitasse o afã de desvendar enigmas como a literatura policial relegada com desprezo pelos xiitas do socialismo moreno.
Era comum que eu andasse sempre portando um livro sob o braço (não eram costume ainda as mochilas). Na ausência da Internet e do celular o tempo solto era preenchido no mergulho da fantasia e da aventura ou então na meditação do pensamento de Erich Fromm, Freud, Marcuse, Russel, Sartre, Simone ou d'O Manifesto. Não escapavam as obras de Jung, Freud e tantos outros. Cuidadosamente por mim e muitos outros certificados nos corredores de entrada das aulas, na cantina do bar do Belo.
Uma sede de conhecimento pairava no ar como se fosse uma calmaria precedendo a uma chuva torrencial. Os politécnicos eram a vanguarda de uma elite intelectual como seus colegas franceses embora jocosamente fossem estigmatizados como bitolados por seus companheiros universitários. Creio que por isto se esforçavam por liderar e constituir a hegemonia de um grupo de transformação do meio.
As obras se constituíam na leitura diária e junto com os diários de Che e Debray eram minuciosamente os assuntos comuns de nosso exercício diário de entendimento do mundo.
G... foi um camarada incrível. Dotado de uma força de vontade para multiplicar suas atividades, era dotado de uma paixão pela leitura e também pela informação. Era a alvorada da sociedade cognitiva cuja Biblia era a "Sociedade Inteligente" do brilhante Marvin Minsky. G... mostrou-me que era interessante ler Lenildo Tabosa Pessoa e o Dr.Plínio. Independente do seu reacionarismo eles são excelentes para se aprender o português dizia ele. Foi assim que passei a integrá-los às minhas crônicas favoritas de Tristão de Athayde e Arnaldo Pedroso d'Horta, articulistas políticos.
A estrutura da lógica dedutiva, a percepção dos detalhes e o charme discreto da elucidação do enigma me envolveram com o romance policial que também fazia parte da vida de G... que me indicou e colocou em mãos os grandes mestres do suspense. Aprendi a absorver as descrições de George Simenon e a profusão de personagens de Edgar Wallace. Também  o humor satírico de Agatha Cristie, o intelectualismo de Ellery Queen e a maestria de Poe tomaram conta de minhas horas divagantes. Talvez como um rebelde de Farenheit 451 tinha respeito e amor por aqueles livros tão caros para mim. Costumavamos G... e eu percorrermos sebos empoeirados e livrarias escondidas pelo centro de São Paulo procurando raridades perdidas e desaparecidas que costumavam estar ao alcance de nossos bolsos e foi assim que fui adquirindo e formando uma razoável coleção daqueles autores num hábito que jamais deixaria.
Aprendizes da Psicopatologia da vida cotidiana e da Liberdade sem medo tínhamos Summerhill como escola de vanguarda, Upsala e Heildelberg como as universidades transformadoras dum mundo a beira da convulsão. Embora nossos textos técnicos fossem da Sorbonne tínhamos plena convicção e consciência que algo maior estava comprometido. Velhinhos com quase oito décadas como Hebert Marcuse e Sir Bertrand Russel já haviam percebido isto e de braços dados com os jovens pediam que a imaginação chegasse ao poder numa fusão de um sonho místico com uma opção irreversível. O terror ainda não se tornara a única coisa aceitável como fator de mudança.
Foi dentro da opressão do poder militarista que nos governava que tomei contato com a obra de Geoge Orwell, porque tudo o que acontecia nele estava escrito. Lembro-me bem quando alguém perguntando o que ele que havia sido preso e perseguido achava da situação atual, Mário Schemberg disse para nós – Não se constrói nada com militarismo. O cientista que pulverizava átomos também pulverizava odes a repressão.
Foi dentro de um clima de opressão que tinha medo de uma crítica, uma piada ou uma simples peça de Arrabal que me senti fascinado por 1984 desde o início. Era uma obra mais-que-perfeita e prendia nossos olhos desde as primeiras palavras. A ditadura se incomodava com o jovem poeta e revolucionário Debray que publicara La revolucion dan la revolucion de dentro de um cárcere latino-americano e fizera vista grossa para o brilhantismo contundente de Orwell. Todas as suas obras eram vendidas livremente em suas barbas.
Passei a carregar o livro por toda à parte e lia trechos sentado pelas escadarias ou deitado na grama sob as arvores da Escola Politécnica. Torcia para que Winston conseguisse sair bem da gigantesca batalha em que entrara.
Numa tarde de primavera o vento soprava forte e as folhas caiam em revoada pelo chão. Sentado nas escadas de cimento aparente em meio ao silêncio que caíra após as últimas aulas do laboratório de Física II, lia o inseparável 1984. Súbito O’Brien descobrira a traição de Winston e a rebeldia de Júlia. Desesperado Winston questiona por Goldstein – E o livro, e a denúncia de toda esta farsa? Foi quando O’Brien respondeu? Goldstein nunca escreveu nada. Fui eu quem escreveu este livro?  Senti como se houvesse levado um soco na boca do estômago...Então tudo estava perdido. Nada era verdade. Vivendo o personagem, fiz a O’Brien a pergunta que ele mesmo lhe faria em seguida: - Mas e a Fraternidade? Ela existe? E O’Brien respondeu: -Tu jamais o saberás.
Sentia-me literalmente arrasado como se de súbito um enorme peso houvesse desabado sobre minhas costas e o chão começasse a desmoronar destruindo nossas esperanças. Fechei o livro, que só terminaria de ler muito tempo depois,  e senti as forças me abandonando e uma raiva impotente por nada poder fazer.
Sem sentir e perceber o que fazia tomei o circular para descer no conjunto residencial. Larguei o livro na escrivaninha comunitária e mecanicamente fui para o Centro de Vivência onde trabalhava como garçom, Dentro de uma hora começaria o horário de jantar e eu teria de servir muitas refeições antes de adquirir o meu ganho que era uma refeição gratuita. Neste momento Winston já amava o grande irmão e tomava gin Vitória, mas eu e muita gente jamais nos conformaríamos com isto naquele ano inacabado.

 

 

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