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A caixa de Lydia
A caixa de Lydia



Poucos como Lydia  amaram Santos
De modo tão intenso e tão pleno de
Generosidade (Gente e coisas da Cidade – Adeus Lydia, Mário Covas).

 

Lydia FedericciLydia era uma articulista que aos nossos olhos estudantis era vista como uma personagem, um figurante de um mundo acima do lugar-comum porque tinha o dom da palavra. Sua pena era o instrumento que podia colocar nos ouvidos e nas bocas o que acontecia pela cidade, ou então silenciar e ocultar um acontecimento para sempre. Creio que representava o poder da palavra por ser uma pessoa muito respeitada e querida. Por mais de uma vez nosso esforço para divulgar a ciência foi merecedor de sua atenção para que a população nos prestigiasse apreciando nossos trabalhos estudantis.  
R... Meirelles  e eu tínhamos uma afinidade desde os primeiros dias em que nos conhecemos na  escola. Nosso gosto comum pela música nos deu iniciativa a integrar as rodas do Posto 3. O apreço pela Musica Popular Brasileira, o Conhecimento dos autores e letras e aquela admiração pelo Vinicius eram traços fortes de sua personalidade, uma vez que a paralisia infantil o afastara precocemente dos esportes e atividades que exigiam muitas movimentações.
A idéia de organizar um clube estudantil que se dedicasse à biologia recolhendo espécies marítmas, insetos e tudo o mais da baixada havia sido dele. Creio, entretanto que não havia somente o entusiasmo pela matéria, mas também um professor querido e dedicado que acenava com uma mudança revolucionária no ensino da ciência, a idéia de organizar uma grande feira e exposição. O garoto intelectual que lia Vinicius discutia Teologia e política sentia falta de amigos que aceitassem sua condição física limitada. Nunca o discriminei e não creio que isto acontecesse com seus colegas. Desconfiava, entretanto que ele ressentia-se muito às vezes e que nutria uma paixão recolhida pela Maria do Carmo, mas evitei tocar em tais coisas com ele. Não as teria resolvido.
Foi muito engraçado o encontro de Itanhaém, na verdade um desencontro. Meirelles e  dois amigos comuns, um deles, aliás, o presidente do tal clube de ciências combinaram de ir a Itanhaem onde o grupo se encontraria na praia a meia-noite e durante a subida da maré na histórica praia tentariam capturar alguns exemplares de algas, bem como anêmonas, holoturias e ouriços para a Exposição e Feira de Ciências que alias nós mesmos estávamos organizando. A ..  um dos amigos e presidente do clube deixou o trato um tanto duvidoso (eles iam Meirelles e um amigo seu e A .. e outro colega). Se não estiver bom tempo telefono para desmarcar, se estiver mau tempo desmarco e não telefono, creio que foi algo assim não muito claro que provocou a confusão.
Cerca de meia-noite numa escuridão nevoenta e úmida, Meirelles e seu amigo com pesadas mochilas às costas, passando frio e com uma lanterna na mão vagavam pela praia de Itanhaem perto da meia-noite a procura de A ..   que enquanto isto se encontrava comigo no Café Atlântico a saborear um café expresso. Foi tudo muito divertido depois que A ..  nos contou tudo entre grandes gargalhadas, menos é claro para o Meirelles que insinuou até ameaças de processo contra ele.
Estávamos  caminhando pela praia quando resolvemos passar pela casa de Lydia. Entramos pelo canal 4, onde morava, e fomos até o conhecido casarão de estilo clássico com colunas brancas e grandes janelas de cor azul clara. Muitas vezes passara por ali e avistara pela janela a senhora de cabelos brancos sentada diante da máquina de escrever. Outras vezes cuidando do grande jardim que rodeava a casa, regador na mão, com muitas roseiras e bromélias em meio a um relvado verde bem cuidado e aparado. Lydia recebeu-nos numa sala ampla com móveis em madeira e vidro e passou-nos a uma espécie de escritório onde sobre uma mesa em frente à janela estava a máquina de escrever bem antiga. Próximo à mesa um aparador e um pequeno sofá de dois lugares onde me acomodei com o Meirelles. Lydia sentou-se na cadeira da mesa de trabalho defronte a nós. A escritora que merecia de todos além da admiração por seu trabalho o agradecimento pelo carinho e dedicação que devotava aquela cidade.  Um dos lados do escritório era coberto por uma estante onde conviviam livros, revistas e papéis. Junto a estante sob o tapete cinza com motivos azul escuro estava uma caixa de papelão.
A caixa de papelão era grande com aproximadamente 60 x 40 cm e  uns 40 cm de profundidade. Quantas crônicas ali estariam acumuladas? Acho que deveria haver outras caixas. Pensei em quantas horas de trabalho aquilo significava, Quantas memórias, quantas palavras, quantos fatos do cotidiano ali foram descritos e contados e depois dados a conhecer para uma infinidade de gerações que liam aquelas palavras de amor e respeito para com as gentes e as coisas de sua cidade, de sua querida terra? Um pedaço de nossa história e de nossa memória estava ali guardada folha sobre folha cuidadosamente recortadas com a tesoura e ocupavam totalmente a caixa de papelão. Textos em papel que transmitiam história, drama e emoção.  Não consegui desviar os olhos da caixa de papelão e sorrateiramente pensei que no meio das outras deveria estar aquela que em que numa homenagem tinha o título de Rafael Cavalheiro Ferreira
Há certas coisas sem uma conotação definida que nos seguem, acompanham na maratona diária, muita vezes no espaço doméstico outras no profissional. Sem perdão ou complacência não baixam a guarda e não dão trégua a nossa resistência. Cúmplices de nossas fraquezas, ciúmes, imperfeições e apegos não aceitam serem rejeitadas, descartadas ou simplesmente postas de lado. São maiores do que o que representam. Chamamos tais coisas de sacramentos. Elas são próprias do ser humano que as traz consigo desde muito tempo, desde o arquétipo. É a sua maneira de se dar a conhecer e a lembrar.
Certa ocasião em que visitava meu amigo W... precisou ele ir até a casa de seu avô dar um recado. Seu avô um homem bastante idoso morava numa casa próxima a sua e entramos pelo quintal da mesma que abrigava uma oficina nos fundos.
Enquanto ele falava com o avô observei suas atividades que ele interrompera. O velhinho dedicava-se a arrumar uma grande quantidade de recortes de todos os tamanhos. Havia várias caixas de papelão como as de sapatos com vários recortes arrumados em maços cuidadosos e etiquetados.  As caixas externamente tinham datas escritas a mão.  Sobre uma mesa de madeira haviam recortes espalhados e também pilhas de jornais e revistas. Um colecionador pensei. Mantendo um passado ou recriando alguma de rete-lo. Pensei se algum dia em um futuro eu não faria a mesma coisa desta mesma maneira ou de outra  mais simples.
Quando menino gostava de uma pequena coluna que estava todo dia no jornal. A coluna era na verdade um desenho que mostrava animais e plantas contando fatos curiosos da natureza e chamava-se o Drama do Deserto. Tinha o cuidado de recortar o pequeno quadrado e cola-lo num caderno onde cabiam dois em cada folha com  a utilização de goma arábica que meu pai fazia na farmácia onde morava. Cheguei a ter dois cadernos cheios de desenhos. Lembro-me de meu pai ter-me levado ao cine Atlântico para ver um filme com o mesmo nome da série de desenhos – O drama do deserto. Era com os animais e plantas no deserto, mas não era um desenho.
O mesmo jornal trazia um livro que era publicado diariamente também com quatro folhas e duas páginas. Minha mãe costumava recorta-las e guardá-las. As páginas eram impressas de maneira que formasse caderninhos de vinte folhas, que depois eram encadernados para formar a obra. Não vi nada semelhante desde esta ocasião.
Os aliados obtiveram a rendição no dia em que eu estava nascendo. Se este fato não houvesse ocorrido o jornal deste dia não sairia estampado com um enorme “V” de cor vermelha ma primeira página. A letra “V” era transparente de modo que a leitura das reportagens que falavam do movimento de tropas podiam ser lidas sem interrupção. Uma técnica avançada para a época. Meu pai, entretanto não guardara o jornal inteiro por causa do “V” da vitória. O meu nascimento fora para ele mais importante. Quando criança costumava debruçar-me sobre aquele jornal que falava de coisas que eu não entendia. Minha atenção era atraída por aquela singela homenagem do jornal a Vitória.lydia
Creio que seria supérfluo acrescentar que adicionar o habito de manipular e guardar jornais de datas importantes tal e qual meu pai o fizera. Meu casamento, o nascimento de meu filho, a chegada do homem à lua, a morte de JFK, o desaparecimento do Old Blue Eyes, John Lennon e outros fatos. Fiz com cuidado a lição de casa.
A caixa de papelão representava o fruto da luta e do trabalho para preservar para os santistas a memória de seu próprio cotidiano que Lydia soube tão bem amar  e preservar. Merecedora de nosso respeito e admiração permanecera na caixa de nossas memórias. Da gente e das coisas da Cidade.

 Fotos utilizadas

1-A tribuna 3/6/1994

2- revista santista Flama, em abril de 1944

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