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A herança de Bedinho
A herança de Bedinho

Vem
Que eu quero te mostrar
As marcas que ganhei
Nas lutas contra o rei
E nas discussões com Deus...
(Trecho de Sem Fantasia, Chico Buarque de Holanda, da peça Roda Viva).

O Sr. Oswaldo era o dono daquela farmácia, a farmácia São Geraldo, situada na AV, Epitácio Pessoa, 28,  naquele sobradão de dois andares onde atualmente está o Restaurante e Pizzaria Anhangá. Lá permanecia ele o dia inteiro dando atenção e orientação aos clientes como era costume entre os comerciantes da época. A sua esposa o auxiliava na manipulação de medicamentos e no atendimento aos clientes
Durante o ano de 1944, a esposa do Sr. Oswaldo estava grávida. A guerra estava terminando e nas casas comerciais o rádio ficava sempre ligado, pois as pessoas queriam saber as últimas notícias do Front e da movimentação dos aliados. Formava-se às vezes uma rodinha de amigos, conhecidos e curiosos em volta do rádio esperando as transmissões dos boletins do Reporter Esso.
A rodinha de amigos incluia o quitandeiro, o senhor  da mercearia, o Português dono da padaria Miramar e vários senhores que circulavam ali todos os dias para dois dedos de prosa antes de tomar o bonde para o centro. O Sr. Rafael, um homem com um ar distinto, cabelos grisalhos e sempre de terno beje com um charuto na mão vinha todos os dias para ver Maria a esposa do Sr. Oswaldo.
Dentre os freqüentadores habituais destacava-se um senhor idoso, estatura mediana que sorria muito e de prosa em prosa tornara-se figura conhecida do Sr. Oswaldo. Chamava a atenção a cabeça redonda e completamente calva, exceção de um anel de cabelos brancos sob duas orelhas de abano que sustentavam grossos óculos de armação de tartaruga. Era o Sr. Brederodes cujo cavanhaque branco e comprido chamava tanta atenção quanto o nome esquisito.
Sempre que encontrava Maria grávida, o Sr. Brederodes sorria e o seu olhar tornava-se terno como se os anos desaparecessem de seu rosto enrugado, triste e melancólico. Fazia muitas festas e perguntava para quando era o menino, embora nem Maria e nem o Sr. Oswaldo soubessem que seria um menino. Parecia sentir-se tão avô quanto o Sr. Raphael.
Passou-se o tempo e no ano seguinte ao aproximar-se o mês de Abril quando estava previsto o nascimento do bebê, o Sr. Brederodes veio uma tarde de um sábado e procurou o Sr. Oswaldo que já havia fechado a farmácia. Sentados na sala de visitas no andar superior do estabelecimento tomaram um aperitivo e ele contou a seguinte história.
-Sou um homem sozinho, Oswaldo. Não me casei e não tive filhos nem de um casamento e nem de fora dele. Minha família se foi e não tenho mais nenhum parente vivo. Sou um homem rico, em verdade muito rico. Sinto uma grande tristeza por não ter um filho, um descendente, que não obstante minha fortuna de casas e fazendas pelo interior do Estado de São Paulo não tive e nunca terei. Minha descendência acaba comigo e tudo o que tenho passará as mãos do governo quando eu morrer.
-Quero te pedir algo muito importante para mm. Desejo deixar todos os meus bens para o teu filho que vai nascer em breve. Eu já gosto muito dele. Quero apenas que me faças uma coisa em troca. Coloque na criança, se for um homem o nome de Brederodes. Faça isso e tudo que tenho será dele. Terá o futuro assegurado.
Oswaldo podia ter todos os defeitos, mas se havia uma virtude que possuía era a honestidade. Era incapaz de tirar proveito de alguém, de enganar alguém para auferir vantagens. Nascera pobre, era pobre e se dependesse de fraudar, enganar alguém para mudar isto morreria pobre. Não fraudava nos preços, não enganava clientes, não vendia gato por lebre e era de uma honestidade a toda prova.
Após um longo momento que pareceu uma eternidade olhou fixamente Brederodes e disse:
-Sinto muito Brederodes. Já escolhi um nome para ele. Será uma homenagem justa. Agradeço muito pela sua proposta, pela sua lembrança e interesse enfim. Além disso, creia-me não me parece que seja correto fazer isto. Não quero me sentir como se estivesse vendendo alguma coisa ou como se estivesse comprando uma herança, uma fortuna dessas para ele em troca de um nome que não escolhi. Sinto muito mesmo Brederodes.
Os protestos do Brederodes de nada valeram. O assunto estava encerrado para o Oswaldo. Comunicou imediatamente a Maria que concordou com ele sem relutância. O Brederodes continuou a insistir com ele depois desse dia e chegou a trazer uma ocasião os papéis com a proposta para ser registrada em cartório o que o Oswaldo achou um descoco.
No segundo dia de Abril Maria deu a luz a um menino. Foi com muita emoção e alegria que meu pai Oswaldo registrou-me no Tabelião Ricardo Canto situado na Rua Campos Melo com O nome do meu avô, Rafael. Agradeço agora como em muitas ocasiões por uma herança, muito mais valiosa do que o legado do Brederodes, de que jamais pude me esquecer: há coisas que não tem preço. Obrigado papai.
Quanto ao Brederodes, meu pai não mais ouviu falar dele e muitas pessoas ainda me chamam pelo apelido de Bedinho, o que acho muito simpático.

 

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