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A última sessão de cinema
A última sessão de cinema

Tudo que é bom já foi escrito. Resta-nos apenas recordar.

(Do filme A última sessão de cinema, de Peter Bogdanovich)

 

Não existe cultura. Cultura é ficção.  ( Maurice Legeard )

 

Penso que Santos já teve tantos cinemas quanto Paris. Proporcionalmente é claro. Dona de uma intelectualidade de elite e de vanguarda e líder dos movimentos de mudança e renovação não poderia deixar de contar com uma grande quantidade de templos da arte em movimento. Cidade com características sociais bem definidas os cinemas absorveram também estas características.

Os bairros que tinham inclusive uma quantidade maior de cinemas apresentavam uma infra-estrutura mais modesta, quase o de uma pequena cidade de interior. As poltronas  eram de madeira e a sala menor, O ingresso era mais barato e os filmes nestes cinemas eram exibidos somente após terem sido exibidos nos cinemas da praia que era a categoria principal de cinemas.

Uma sessão de cinema durava um tempo mais longo devido a algumas coisas que faziam parte da sessão de cinema. Uma delas era a exibição obrigatória de um tele-jornal que sempre em branco e preto mostrava inaugurações de órgãos e monumentos públicos onde era cortada uma fita de inauguração entre muitos aplausos. Outra aparição favorita dos tele-jornais era mostrada nas academias de cadetes em escolas navais e militares onde uma longa fila de rapazes perfilados em uniformes impecáveis recebiam espadins de suas respectivas madrinhas, geralmente seguido por um flash em um baile de debutantes.  Muito comum também eram desastres com carros e caminhões tombados geralmente acompamhados por uma .Fuga de Bach ou cantata de Mozart no áudio de fundo.

Outra coisa que era parte dos cimemas era o baleiro. Um balcão de vidro onde eram vendidas balas e chocolates que seriam degustados durante a sessão. Eram os precursores das máquinas de pipocas do tipo Pop Corn e dos refrigerantes. Tais coisas não eram vendidas.  Particularmente apreciava muito o baleiro do Cine Iporanga que na verdade eram dois. Um deles na parte interna do cinema era um baleiro e na externa uma confeitaria e café que dava para o passeio em frente ao cinema. Além deste havia outro, com um grande balcão e parede de fundo espelhada, recoberta de desenhos pintados sobre o vidro do espelho. O espelho era o fundo de um grande bar, Ali sim podia ser consumido sucos, refrigerantes, drinks e bebidas. Havia também o cafezinho de coador. Creio que este sofisticado bar se devia ao fato do Iporanga Ter sido planejado para ser também teatro e casa de shows com opção para eventos e formaturas.

Foi no  Iporanga que vi A última sessão de cinema e Lua de papel do gênio de Bogdanovich. Painéis inimitáveis sobre a década de 50 e o cinema e também sobre a década de 20 e a Grande Depressão.  Sentia o Iporanga como se fosse uma extensão de minha sala de estar e tinha até minha poltrona favorita. A sala era grande e sentado no meio e a frente era como se fizéssemos parte do filme.

Revejo-me no Iporanga assistindo Confidências a meia-noite e saindo pelo passeio assobiando Pillow Talk ou sonhando com Debbie Reynolds cantando Secret Love em Ardida como pimenta. Foi ainda no Iporanga que vibrava com os épicos como Ben-Hur e sua antológica corrida de bigas e a coragem do escravo Spartacus.

Tanto o Roxy como o Iporanga tinham o famoso balcão, lugar preferido dos namorados pelo seu isolamento e da garotada pela bagunça. Quando a platéia estava envolvida numa árdua batalha como em A um passo da eternidade ou A ponte do rio Kway o balcão era o lugar favorito de onde atirávamos papéis de balas junto com os bravos soldados para desespero dos vagalumes a procurar os desordeiros.

O Iporanga foi o único cinema de Santos a Ter um fumoir. Um fumoir nada mais era do que um chiqueirinho de vidro fumé onde poltronas acomodavam fumantes inveterados que não conseguiam ficar mais de duas horas sem fumar. Isto entretanto num tempo em que fumar ainda não era politicamente correto.

A STAR IS BORN

Minha ligação com o Roxy é mais antiga. Não esqueci o teto com a pintura de nuvens azuis e os signos do horóscopo que se tornavam luminosos ao se apagarem as luzes. Música suave acompanhava o escurecimento da sala e nosso mergulho no mundo do sonho.

Foi no Roxy que vi Debbie Reynolds ser a Tammy de Flor do pântano r também foi lá que vi Jean Simmons suspirar por Gregory Peck na terra selvagem de Da terra nascem os homens. No Roxy com as nuvens azuis pintadas no teto e os signos do zodíaco luminosos na escuridão.

Anos depois já mais intelectual passei a freqüentar junto com alguns amigos a sessão de arte do clube de cinema. Foi no Roxy que assistimos todo um conjunto de clássicos. O Roxy me ensinou a arte de Antonioni em Vagas estrelas da ursa , O eclipse e o Grito. Era o programa intelectual do Sábado freqüentar a sessão de meia-noite e depois escutar as explicações do argumento do diretor feitas pelo Maurice Legeard em alguma pizzaria da noite santista.

Maurice, o francês que trocou Paris por Santos dono de um vasto conhecimento e amor ao cinema era autodidata e tinha apenas o curso primário. Dizia que os livros eram a melhor escola mas fazia do cinema o seu estudo. Dirigiu o Clube Filatélico e Numismático de Santos e esteve na Associação Cultural Franco-Brasileira. Fotografo amador filiou-se ao Clube de Cinema de Santos fundando mais tarde a Cinemateca de Santos que funcionou em seu próprio apartamento.

Também o Cine Praia Palace apresentava a sessão de meia-noite onde se podia assistir a um ciclo completo de Goddard como A religiosa, Duas ou tres coisas que eu sei dela e Masculin e Feminin. As sessões eram concorridas e quem não chegasse cedo não conseguia entrar. Santos era brilhante no reconhecimento ao cinema.

O Cine Indaiá era mais novo. Já construido dentro do conceito de divisão em salas menores formava um conjunto único com o Indaiá Arte que na verdade nunca foi exclusivamente dedicado ao cinema alternativo assim chamado. Deixou as boas lembranças de um Midnight Cowboy e de espetáculos musicais como Hair e WoodStock. A multidão de adolescentes se acotovelando nas portas para conseguir ver Help ainda está presente na memória de muitos.

A Galeria que hoje ocupa o canto direito da Praça Independência de quem vem pela Av. Ana Costa era o Cine Atlântico. Muito amplo em espaço era um dos meus preferidos apesar do aspecto antigo e decadente. Ali sempre era possível assistir a um clássico bangue-bangue como Johnny Guitar ou Matar ou morrer. Era um dos cinemas mais populares e aos domingos exibia uma sessão as 10 horas da manhã que eu gostava de assistir pois eram os clássicos desenhos de Walt Dysney e pela primeira vez vi Bambi, Peter Pan e as peripécias de Alice no pais das maravilhas.

Ainda no Gonzaga vi e fiquei espantado com a elegância e a segurança de Rick despedindo-se de Lisa no aeroporto de Casablanca. Foi no Cine Gonzaga nas calçadas do Atlântico. Também ali uma platéia emocionada aplaudiu uma moça chamada Maria Betânia e um cantor chamado João do Vale. Era Carcará no palco do Cine Gonzaga. A tela mostraria o carisma de John Travolta nos embalos de Sábado a noite em que as filas dobravam a pequena Rua Marcílio Dias hoje rua de pedestres.

Moças de tiaras e toucas na cabeça, vestidas com roupas medievais e rapazes de calças tipo gibão com o cabelo repartido no meio. Estavamos em plena idade média na década de 60 e o Cine Gonzaga exibia junto com o Indaiá Romeu e Julieta. Não fosse o Gonzaga seria uma aldeia onde se realizava um baile de máscaras apesar do calor causticante para roupas de veludo.

O Cine Glória depois substituído pelo Cinema 1 teve uma existência curta. Era uma sala simpática e passava filmes alternativos como o Praia Palace e o Roxy. A influência de Maurice e o alto nível cultural da sétima arte era uma realidade em Santos que proporcionalmente tinha mais salas de exibição que várias capitais brasileiras e também que qualquer cidade do interior de São Paulo.

O Cine caiçara era a sala do Boqueirão e exibia ótimos filmes. A sala era enorme e comportava uma grande platéia. As poltronas curiosamente distribuídas em diversos níveis como uma escada estratificada. As paredes laterais muito simples revestidas de múltiplos painéis de cor verde clara com uma flor branca, uma pequena escultura, era uma decoração modesta. Era muito acolhedor e resistiu muito tempo até ser fechado pela redução do retorno e do público.

Os cinemas de bairro eram os primos pobres dos cinemas da praia. A distinção começava pelas poltronas. Cinemas de bairro não tinham poltronas, tinham cadeiras e eram de madeira. Os cinemas de bairro costumavam exibir seriados que continuavam após a mudança do filme principal, A exibição de comédias como o Gordo e o Magro, os Três patetas era parte da sessão. Além disto os cinemas de bairro tinham o ingresso bem mais barato do que os de praia. Uma coisa de que sempre lembrava era a semana da paixão quando os cinemas de bairro exibiam Vida, Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo que eu sempre teimava em assistir.

Estes foram os cinemas de minha infância e de minha adolescência, Ensinaram-me muitas coisas, contaram-me muitas histórias, deram-me tristezas e alegrias passando-me um mudo de emoções que guardei na retina e na memória. Foram professores, mestres e cúmplices de meus sonhos e desejos deixando suas salas encarnando os heróis que eles nos mostraram e foram eles mesmos heróis que resistiram até que a última sessão os varressem para sempre de nossas vidas onde permanecerão em nossos corações.

 

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