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As xícaras do meu casamento
As xícaras do meu casamento

Confesso que nunca prestatenção nas xícaras. Certamente as considerei uma boa parte da vida meros objetos de decoração. Faziam entretanto, parte integrante, inseparavel e infalível de qualquer enxoval de casamento que se prezasse.

Quando os noivos esparramavam os presentes recebidos sobre a cama do casal no futuro quarto exposto a visitação era tiro e queda. Devidamente desembalado lá estava o altaneiro e sobranceiro jogo de xícaras.

As xícaras naverdade eram um jogo de xícaras. Um recepiente maior que era a jarra e servia o chá e as xícaras tinham é claro o pires, um pequeno prato. As xícaras de café  eram de um tamanho menor qua as de chá. Estava identificado o jogo. :Havia é claro umas coisas mal ditas ou mal explicadas como por exemplo porque não poderia usar as xícaras maiores também para café e porque o açucareiro tinha asas e também porque 6 xícaras e não 7, 10 ou 11. O jogo podia ser de porcelana, vidro, barro e todo material que comportasse uma bebida quente.

As xícaras apareceram no século XVII na Inglaterra, que antes delas usava tigelas para o chá. Há xícaras de porcelana chinesa, de onde aliás veio originado o chá, desde essa época. Há casas de chá e cafeterias desde a mesma ocasião e o chá sempre teve um status real.

O que dizer então do status das xícaras de cafés, uma instituição literária-gastronômica parisiense sorvido em pequemas xávenas de louça em mesas redondas com cadeirinhas de palha e com direito a açucar em cubos ? As xícaras do expresso de máquina italiano, português e o tradicional brasileiro curto, comprido, carioca, pingado ou vienense tudo nas tradicionais porcelanas .

O jogo de Dª Albina era uma peça de rara beleza da qual eu me reservava a cautela de nunca me aproximar por medo do que pudesse acontecer. Certa vez vi o aparelho secando na mesa. Tinha o selo  da Royal England.

Aproximando-se o dia em que deixaríamos aquela  casa onde residiramos por longos tres anos Dª Albina mostrava-se por demais atenciosa para conosco. Creio que no fundo ela gostava de seus estudantes hóspedes apesar de quaisquer desentendimentos e desavenças que lhe tenhamos causado.

Encontravamo-nos Dendinho e eu junto com a velha senhora na igualmente velha e poeirenta sala de chão de tacos e tapetes grossos junto a mesa de madeira redonda e tôsca. Dª Albina não sabia o que fazer para nos agradar enquanto aguardavamos o expressinho que nos levaria para a viagem de despedida do sobradão da  Teodoro deixando para trás casa,  Carlos o filho estranho, as escadarias e a própria Dªºa Albina.

Mostrava-nos a essa altura uma revista ilustrada de 1928 que retratava o grupo do cangaceiro Lampião. Depois foi a reportagem sobre a execução da família do Tzar em 1917. Súbito pareceu lembrar-se de algo e foi ao guarda-louças trazendo uma bandeja de madeira com várias xícaras que reconheci de imediato como as da Royal England.

-Vamos tomar um café numa xícara especial!

 após outro enquanto soltava dois grandes rolos de fumaça pelas grandes fossas nasais enquanto coçava o pequeno queixo.

Olhava de rabo de olho enquanto a Dª Albina vinha com a jarra da bebida quente e colocava na bandeja. Olhava já que não via sinal de cinzeiros e constatei o que imaginei-montes de cinzas espalhadas sob a mesa com pontas pisoteadas.

Dendinho terminou o café e estimulado continuou a fumar.

-Estas são as xícaras do meu casamento dizia a velha Albina.

É mesmo dizia Dendinho sem prestar atenção enchendo a xícara de cinzas agora enquanto via ela ficar vermelha e  ofegante como se fosse ter um piriquipaque. Tocaram a campainha e Dendinho levantou-se correndo, agarrou a mala e antes de saltar para a porta apaga o cigarro nos restos de café e de quebra derruba bandeja e xícaras. Ainda do terraço via D[ Albina de joelhos sob a mesa catando as xícaras em meio as cinzas gritando Ai meu Deus, Ai meu Deus.

O Expresso partiu e eu ainda pedia aos anjos com fé para que não se tivessem partido.

 

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