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Brilhando sem parar até o amanhecer
Brilhando sem parar até o amanhecer

Cada um em sua fase de se decidir por uma carreira, seguir um curso universitário adotou uma escolha, um método que fosse aquela para enfrentar o fantasma da imensa seleção, que separa os simples mortais da categoria "aqueles que tentavam" da categoria dos "enfrentaram e saíram vitoriosos".

Foi num cursinho para preparatório de exames vestibulares  que Rogério conheceu Manoel e  Aurélio, jovens como ele e dedicados ao mesmo sonho. Ser um engenheiro algum dia. Embora meu objetivo fosse a Medicina era amigo de Rogério de um longo passado estudantil em escola pública e assim tornamo-nos um grupo de 4 amigos inseparáveis.

Estudar durante as madrugadas nos meses que antecediam os exames vestibulares foi a escolha adotada pelo quarteto. A perspectiva de uma noite sem dormir gerava uma ansiedade maior em aproveitar as horas de sono perdidas. Creio que o esforço despendido produzia também a sensação de estar fazendo alguma coisa para atingir o objetivo pretendido como uma forma de aliviar nossas consciências; Perdidas e investidas em grandes "rachadas" noturnas dedicadas ao estudo programado.

Foi assim que após as aulas sobre as quais nos considerava-mos acima e distantes passamos Manoel, Aurélio, Rogério e eu a reuniarmo-nos na casa do Manoel e do Aurélio, um velho casarão na Av. Afonso Pena onde numa mesa de madeira escura na copa da cozinha e nos debruçávamos sobre pilhas de livros e apostilas tentando entender fórmulas e exercícios em grandes e intermináveis séries de exercícios que nos prometia como prêmio uma vaga no tão sonhado curso universitário.

Nem sempre o estudo prevalecia. As vezes a conversa pendia para a filosofia e estendia-se noite a dentro e podia seguir qualquer caminho desde a procura do homem pela existência de Deus até a questões de foro intimo que começavam a ser levantadas pelas mais diversas tribos ao redor do mundo. Outras vezes era o tema polêmico da Realidade, magazine de leitura obrigatória para quem esperasse sobreviver a alguma redação.

O Cláudio juntou-se a nós depois. Cláudio também queria fazer um curso de Engenharia, mas suas idéias aproximavam-se mais das de Aurélio do que de Manoel. Um curso que lhe desse a chance de seguir uma profissão facilmente em alguma indústria. Sem precisar virar um cientista e nem estudar o resto da vida. O mundo, entretanto começara a mudar e o pensamento burguês não era visto como correto.

O homem estava conquistando tudo e tudo era possível de ser conquistado Tudo poderia ficar sob nosso controle inclusive a fome o medo e a nossa qualidade de vida. Diante disso o vestibular não passava de um filtro de um ensino mal feito e despreparado  gerado por incompetências anteriores. Superaríamos tudo e trilharíamos um caminho social reivindicando para nós e para quem não podia.

Havia ocasiões em que mais importante que uma noite de estudos era comentar e discutir a entrevista d’O Pasquim, como a da incrível Leila Diniz, a musa da República Independente de Ipanema, o polêmico Armando Marques, o controvertido Ibraim Sued  ou os impagáveis quadrinhos dos Fradinhos de Henfil. O humor de Millòr Fernandes, Fortuna e Ziraldo com a impecável crônica de Paulo Francis. O Pasquim era um prato cheio para uma noite inteira. Participar de toda aquela agitação era importante e opinar obrigatório.

O debate sobre o uso da pílula, a batalha de Carmem da Silva pela emancipação da mulher e a marcha sobre o Pentágono de imensa multidão de jovens. Jovens como nós que lutavam por alguma coisa. Como as incontáveis comunidades alternativas que começavam a se formar nos Estados Unidos.

Certa vez chegando da aula noturna do cursinho encontrei os irmãos Manuel e Aurélio juntos com o Cláudio e o Rogério frente a velha TV. Era o início das finais do Festival da música popular, inicialmente no  teatro Record e depois no Paramount.

O Cláudio trouxe o irresistível costume do jogo. A mesa permanecia as vezes repleta de livros e cadernos enquanto jogávamos o pôquer aberto pela mesa apostando enormes quantidades de fichas sem qualquer valor. Também o quebra-cabeças era bem-vindo principalmente aqueles com grande quantidade de peças; Aurélio e Cláudio gostavam de tentar resolver os enigmas de Malba Tahan que muita vezes eu propunha para eles conhecedor que era dos livros do professor.

Aurélio não tinha muito apreço pelos livros. Certa ocasião nos disse Ter lido muito poucos livros em sua vida. Ser um operador de refinaria fora um trabalho duro e convivera com pessoas sem muita instrução ou interesse em estudos.

Aurélio e Cláudio queriam estudar Engenharia Química, de preferência no Rio. A preferência e o gosto acho que vinham do trabalho em que haviam conhecido cedo as industrias químicas de Cubatão. O Rio era um sonho de Aurélio – morar na Cidade Maravilhosa no meio de todas aquelas mulheres belas e maravilhosa. Creio que se fossem algumas décadas adiante Aurélio seria um sujeito do tipo sarado que namorava a metade das garotas da cidade e tinha uma conversa de conquistador bem engajado no meio da época.

Creio que Bel estava fazendo 16 anos quando Rogério a conhecer. A menina de rosto Angelical e pequeno e corpo de ginasta. Rogério feio e sem graça não agradara a Bel que o tratava amigavelmente por ser amigo dos irmãos Aurélio e Manuel. Mas Rogério não percebeu ou se percebeu não fez conta. Não conseguia tirar Bel da cabeça e estava apenas de corpo presente naqueles estudos. Eu já notara seu olhar indisfarçável sobre o rosto impassível de Bel a ler um livro no sofá ou perdido nas pernas de Bel expostas descuidadamente se ela caía no sono.

A Bel era a mana mais nova de Manoel e Aurélio e as vezes vinha juntar-se a nós na mesa. Creio que Bel pretendia fazer vestibular para Psicologia ou algo assim. Não foi a toa que Rogério apaixonou-se por aquela garota sensual e um tanto convencida ao mesmo tempo. Se Bel fora uma jovem desinformada não seria possível esperar dela a consideração ao amor incondicional d de Rogério. Sentia pela tristeza do meu amigo a esconder e tentar disfarçar os olhares que dirigia aquela figura clássica na beleza, mas ambiciosa de coração e no meu entender desmerecedora de tanto sentimento.

Estranho quando se pensa no mundo desabando ao nosso redor, Rogério só conseguia pensar na Bel e nós tentávamos aprender aqueles cálculos inexplicáveis. Bel ignorava os olhares de Rogério e a noite seguia cada vez mais difícil

Consegui a aprovação nos exames vestibulares e me tornaria um aluno da Universidade de São Paulo. Rogério fracassou em todas os exames que prestou e creio que sua paixão não realizada muito contribuiu para isso. Manoel abandonou os estudos após algum tempo de universidade. Problemas existenciais creio eu.

Cláudio e Aurélio entraram na Escola Nacional de Química e foram para o Rio de Janeiro. Nós fomos para a Universidade de São Paulo; As noites nos uniram e durante muito tempo costumávamos nos encontrar para falar das coisas que fazíamos em nossa vida estudantil. Rogério dedicou seu tempo e sua paciência a ensinar a problemática matemática do vestibular para que Bel se preparasse para os exames vestibulares na Psicologia.

Rogério às vezes ia para o terraço do casarão e sentado nas poltronas de palha observava o céu estrelado de julho. Destacando-se no meio do céu a lua brilhava espelhando forte luz e mais além cintilava Vésper a nossa conhecida amiga estrela da manhã. Nós a víamos no céu escurecendo e quando nos despedíamos pela manhã era a única testemunha de nossa saída brilhando sem parar até o amanhecer.

Numa dessas ocasiões eu fui também, pois ele se afastara de nossas conversas e brincadeiras. Apenas ficava calado conosco e nada dizia.

Rogério suspirou e acendeu um cigarro. Algumas lágrimas se formaram em seus olhos. E apontando para o céu falou:

“‘Ela tem um amor. Talvez seja seu primeiro amor. Um atleta, tudo que não sou. Pitágoras, creio que este é o nome dele”.

Olhei para Rogério e senti um pouco de tristeza por ele. Olhei para o céu procurando uma resposta e vi a Estrela da manhã. E disse o seguinte:

“Nem sempre seremos jovens e nem sempre nossos sonhos se realizarão. Mas sempre serão lembrados toda vez que algum dia olharmos para Vésper. Lembraremos deste casarão, de nossas esperanças e nossas dificuldades, do Pasquim, dos Festivais e de seu amor não realizado não com saudade ou nostalgia mas como coisas boas que foram parte de nossas vidas que terão outras luzes brilhando sem parar até o amanhecer.

 

 

 

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