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Caminhando com Santos na Bôlsa
Caminhando com Santos na Bôlsa

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Pequeno ainda, calças curtas, suspensórios e grandes olhos ­­inquisitivos sob o boné que cobria um redemoinho rebelde, seguia meu pai segurando sua mão pela R. XV de Novembro. Creio que desde a infância passei a associar o Centro da cidade, ou somente a cidade como dizíamos, com o odor da torrefação do café. O forte aroma saia das entranhas daquele casario solene que eu olhava admirado tocado pelos vestígios de uma prosperidade distante.

Papai costumava seguir até o final da Rua XV de Novembro e a minha admiração pela esquina dos quatro cantos me levava o olhar a registrar a série de casinhas coloridas e  imponentes, o movimento fervilhante e apressado de senhores de ternos bem cortados portando pastas, entrando e saindo dos edifícios austeros como se tal movimento houvesse emergido de um postal antigo.

Habituei-me a observar o alto dos edifícios e casarões. Grande parte desses casarões antigos traz a data de fundação e um relógio de forma circular em geral numa pequena torre sobre a eira. O da casa na esquina dos quatro cantos dizia 1897 e havia uma barbearia na mesma rua que era de 1607, bem ao lado da antiga livraria do Mendes. Os relógios, hoje eles não existem mais, num lugar de destaque na fachada me fascinavam.

Olhava para o relógio da torre da bolsa de café no alto de seus quarenta metros de altura e sentia o ar de opulência e grandeza que mais tarde vim a saber o Dr. Washington Luiz inaugurou no centenário da Independência.

Passou-se o tempo e durante grande parte dele, tinha por hábito trilhar aquele caminho que papai fazia até a antiga confeitaria Rosário, que desapareceu cedendo lugar a um banco, para buscar seus pães de cará. A bolsa continuava fechada e somente era possível de ver o pórtico de mármore com os inconfundíveis balaústres que em minha infância pareciam grandes rodas como as de rolemã empilhadas para formar aquelas colunas perfeitas. As estatuas de pedra que representam a Industria, o Comércio, a Lavoura e a Navegação era tudo que podia ser visto do  monumento de maior valor histórico, arquitetônico e cultural do país

No ano de 1929 Santos era a maior praça cafeeira do mundo ao quebrar a Bolsa de Nova York. A bolsa foi fechada em 1937 e o prédio veio a ser tombado em 1981.A sua restauração foi feita e a reinauguração deu-se em Setembro de 1998 quando pude afinal conhecer e apreciar os segredos que o monumento escondia e que nenhum santista deve ignorar.

A atmosfera da sala do pregão, quase irreal-de-tempo-perdido, recria um ambiente de realeza como se os cavalheiros do pregão, que podemos ver com os olhos da imaginação em ternos sisudos ou fraques com reluzentes cartolas, ali continuassem dispostos naquele grande retângulo de incontáveis poltronas de madeira cada uma com sua mesa redonda e a pequena secretária de madeira para efetuar as escritas. Esta simetria aritmeticamente ordenada ao redor do piso de mármore que forma caprichoso círculo tal e qual enigmática mandala.

Entre o mobiliário três painéis de Calixto representando a trajetória de Santos desde a sua fundação até o início do séc. XX. Na abobada um presente de Calixto a cidade que ele tanto amou, retratou em suas pinturas e escreveu em suas crônicas- o vitral cor salmão representando a lenda A visão de Anhanguera, a mãe do ouro e as mães-d’água.

A Sala de Conversação e as saletas do correio com o burburinho dos corretores aguardando a vez para falar nas enormes cabinas telefônicas de madeira e a impaciência dos jornalistas para transmitirem as últimas cotações do ouro negro. O Presidente da bolsa durante muitos anos após a crise  e decadência da bolsa fazia questão absoluta de manter esta sessão, após a qual consultava um relógio preso a uma corrente de ouro e guardado no bolso do colete, tirava o monóculo, batia o martelo na mesa e anunciava com voz grave:  11:00 h, mercado calmo.

Todo este silencio quase eclesiástico neste ambiente em que mergulho com respeito, consideração e orgulho me vai de encontro a homenagem que meu espírito dita. E é a vocês, caros santistas e brasileiros que homenageio e dedico estas palavras escritas aqui e agora na mesa da cafeteria do museu dentro deste monumento com o qual tenho intimidade e cumplicidade de longa data e que é o mais importante conjunto arquitetônico e cultural do Estado.

 

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