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Cartas de Nova York
Cartas de Nova York

Cartas de Nova York

Marisa estremeceu ao ouvir o toque do interfone. Esperava com ansiedade pela carta no horário da manhã quando o carteiro chegava, às 10h. Torcia para que ela chegasse pela manhã, assim poderia pedir a Roberto que fosse lá, à tarde, para que lesse a carta para ela.

Não queria que sua mãe lesse as cartas. Elas eram parte de seu sentimento, parte de sua nysaudade, parte de suas lembranças, parte de Nova York. Depois passou, como uma sensação incômoda que ocultara solenemente de Heródoto, a catarata galopante que começara a cruel tarefa de toldar-lhe a visão, três anos atrás, quando deixara Nova York.

Aquilo começara com a sensação de uma leve névoa. Chegara a atribuir aquilo a forte TPM que a assaltava subitamente todo mês com inúmeros incômodos e sensações. A mulher americana tomava pílula corretamente e tirava de letra tudo aquilo. Conhecia de perto muitas rotinas familiares. Trabalhara no apartamento de atrizes famosas como Demi Moore e adorava o american way of life. Dentro da cozinha americana, era uma cuidadosa observadora visual e cuidava do bem estar dos patrões. Enormes e completos fornos de uma cozinha de sonhos onde fazia enormes assados que eram cortados com facas elétricas, As frutas guardadas nos frascos escrupulosamente limpos e que se tivessem um mínimo amassado ou passamento tinham que ser descartadas. Os patrões só admitiam coisas perfeitas. Amigos da casa a conheciam como companheira e auxiliar valiosa, nunca como empregada. Arrumava a roupa das crianças e até usava o carro dos patrões. Era uma vida alegre e divertida, sem surpresas e sem despesas.

Os anos haviam passado rápidos e solitários.  É claro que havia as férias e aí era aventurar-se no Canadá, a terra prometida dos nativos, a aventura dos lagos e da natureza. Curtia uma viagem solo em meio ao americano médio e os mochilões.

O conhecimento de Heródoto veio de curso de culinária italiana. O rapaz já com trinta e poucos anos, mesma faixa de idade e brasileiro, transferido de um banco, sozinho, muito franco e simpático, aproximou-se com interesse da moça sozinha e isolada. Compartilhavam as mesas de lanchonetes, em meio a coca-colas e "fish and chips", bem como os carrinhos de luxuosos hot-dogs e pastramis.

Heródoto era cortês, educado. Comprariam um apartamento no Queens onde Marisa não ouvia o amor que Meg Ryan gritava nas telas, nos músicos de rua, nos casaizinhos do Central Park e nas grandes barcas das travessias. Certo , casaria com ele, mas queria respirar o amor.Queria sim.

O pedido veio num restaurante fino de Little Italy, com direito a um anel de prata com uma pequena pedra azul. Não era da Tiffany’s, mas quem se importava, no final das contas? Heródoto não medira despesas no cardápio. Era pessoa acostumada a convidar clientes e tinha que ter bom gosto e boa conversa. Não era a bagagem do homem apaixonado, mas dava para o gasto. Depois do filé a Manhattan e dos cafés com creme de menta, o sossegado Heródoto fez o pedido, como era esperado, sem surpresas. Abriu a caixinha com o anel de pedra azul e colocou-o no dedo anular da mão direita de Mariana, que sequer disfarçou o suspiro: um suspiro tedioso.

Marisa pedira um tempo somente seu para pensar no casamento. Teria que deixar Nova York, talvez deixar seus planos de retomar a vida no Brasil. Moraria com Heródoto no Queens ou em New Jersey e continuaria a passar as férias no Canadá.

Precisava retornar ao Brasil, pensar um bom tempo sobre tudo aquilo e tomar uma decisão, como prometera a Heródoto. Já conversara sobre isso com sua mãe. Pobre e extremosa mamãe que, com trinta e três anos, dava-lhe tratamento de vinte. Voltar ao seu conhecido apartamento e reencontrar Rodolfo. Rodolfo? Estranho pensar nele agora... Ele escrevia tanto e ela nem respondera. Retornaria em dois dias. Será que Heródoto daria notícias ? Diria que a amava se regressasse logo, pois morria de saudades?

A volta foi incômoda e sentia apreensão e dores de cabeça. A imigração não fizera conta dos anos irregulares passados e com o visto de turista vencido. As palavras de Heródoto não paravam de martelar em sua cabeça. Era quase dezembro e sua mente viajava correndo, nas calçadas laterais do Central Park, ao encontro de Heródoto que também corria. Como em Harry e Sally. Um Heródoto diferente, desalinhado e ofegante, sorrindo... Só que ele não era Harry, infelizmente, mas tinha certeza que escreveria.

A adaptação, as amigas, os amigos, as fotos, os planos. O tempo passava e nada de notícias. A mamãe preocupava-se com sua melancolia. Preocupava-se também com seus olhos.  Um problema que piorava dia após dia. Uma sucessão interminável de exames, sem que nada fosse conclusivo e agora Marisa pensava em como Heródoto reagiria. Teria que aguardar a manifestação dele. Sentada na imensa sala vazia não tinha visto mais as amigas, as queridas: Isa e Ana Beatriz.

O único amigo que ainda a procurava era Rodolfo. Toda semana Rodolfo vinha religiosamente naquele apartamento, no requintado prédio de um bairro elegante. Era sempre Marisa quem o recebia e o levava àquele sofá de quadrados azuis e vermelhos. Rodolfo achava que lembrava a bandeira americana. Frente ao sofá, a enorme estante que se estendia até o teto.  No meio de tantos livros, destacava-se um antigo aparelho de som três em um, branco esmaltado.

A parede lado a lado com o sofá, no piso alto do segundo ambiente, ostentava uma grande quantidade de quadros a óleo dos mais diversos tamanhos. Eram tantos que Rodolfo desistira de contá-los,  "Minha mãe continua pintando. É sua ocupação. Agora mesmo está na aula".

-Como está indo a vista? O que diz o Dr. Gronette?

-Médicos são evasivos quando se trata de um diagnóstico difinitivo. É uma retinopatia na mácula. Terei que fazer umas aplicações periódicas durante uns meses. Depois, não sei...

-E o Eratóstenes? Ligou a ele como lhe sugeri? Sujeito folgado, me desculpe !

-Heródoto. É Herodoto o nome dele. Faz mais de uma semana que liguei. Contei tudo, tinha que contar. Foi muito estranho comigo. Falou que escreveria, mas tal não aconteceu. Tive a nítida impressão que falava com um estranho. Senti a súbita sensação que algo havia se rompido, como se houvesse feito algo errado e... Rodolfo encostou o dedo indicador nos lábios de Mariana impedindo-a de continuar, fixando os olhos apertados que seguravam lágrimas a fugir nas esquinas dos olhos de visão turva.

-Não deve dizer tais coisas Marisa! Não se deprecie assim! Esqueça um pouco esse... Heródoto, pronto, agora lembrei. Tudo o que tiver que ser será. Sei que falo um clichê, mas é verdade. Ele escreverá. Afinal, não declarou seu amor por você?

-Queria... Quero que você esteja certo. Ele me ama, tenho certeza. Uma ocasião uma cigana me disse que eu me casaria antes de trinta e cinco anos. Acho que nos casaremos, teremos uma grande casa nos arredores de Manhattan  e um casal de lindos filhos.

-Já admitiu que teu futuro pertence à América. O Héracles está com tudo na bolsa de apostas. Diga-me onde ele declarou seu grande amor por você ? Na entrada do Metrô, de olho no trem, com o Wall St. embaixo do braço, todo esbaforido ?

-Oh não ! Foi num restaurante! Rodolfo, não faça pouco caso do Heródoto. Vá ver, ao invés disso, se a carta dele chegou.

Rodolfo saiu apressado pela pesada porta de madeira entalhada pisando duro. Não tinha passado nem dez minutos quando retornou anunciando com um muxoxo : “Nada de novo no fronte ocidental”.

Sentaram-se novamente lado a lado e Marisa colocou um dos seus discos preferidos de Barbra Streisend. Gosto tanto de ouvi-la, Rodolfo. Gosto demais deste tipo de música. Sinto que a voz dela divide o lugar com o ar, com o espaço ao redor. Parece que todos nós estamos envolvidos. Até eu que enxergo muito mal...

Mariana parou de falar e deixou que a melodia a envolvesse e levasse. Rodolfo emudecera. Após um tempo no silêncio da música disse de súbito: Faço um tratamento Zen, sabe? Deito-me com vários tipos de pedras ao meu redor. Pedras especiais, digo.

- Você está entusiasmada com esse processo ?

-Sim, aceito esse tipo de coisas. No mínimo perco peso. Tenho que deitar-me nua numa esteira com um cobertor por cima, na escuridão. Rodolfo nada disse.

Mariana sentiu, mais do que viu, que ele olhava para suas pernas e instintivamente puxou a saia sobre os joelhos. Depois largou. Que importa, pensou. Heródoto não olhava. Rodolfo pelo menos olha.

-Não fique chateado, Rodolfo. Você é o único com quem falo sobre Heródoto, nem com amigas falo sobre ele...       

-Claro, seria motivo de riso... Ouça, preciso ir. Você pode ficar à vontade para suas bruxarias.

-Certo. Dê-me um beijo agora e deixe-me só. Ficarei bem, juro.

 

Dois dias depois, Rodolfo entrava novamente na sala onde deixara Marisa mergulhada numa tristeza latente. Sentiu a alegria retornando na voz que vibrava, enquanto a mão agitava uma carta diante de seus olhos: ele me escreveu, ele me escreveu. Quero que leia para mim...

Rodolfo suspirou vendo o rosto ansioso de Marisa. Segurou as folhas da carta com as duas mãos e sentou-se no divã. Mariana cobriu o rosto com as mãos e desta vez não se preocupou com a saia.

 


 

Marisa

Sinto bastante ter retardado esta resposta, pois tuas palavras foram bastante claras para mim.  
Saiba que espero, dentro deste sincero amor que sempre lhe dediquei, encontrar toda a força e a luz necessária para atravessar estes momentos delicados que também são meus, por um direito de amor e compartilhamento de tudo que dividimos. Mesmo distante fisicamente ligarei com você todas as minhas esperanças de que sou capaz de sentir nesse momento.        
Escrevo nesta linda manhã  de um sol cálido de fim de um dia que sai pelo parque, especialmente esperando sintonizar estes momentos com você. Senti uma alegria íntima.
Guardo comigo as imagens de todos os felizes momentos em que vivemos e passamos, com uma nitidez irretocável, como um momento que se vive para a história e não um eclipse na nossa linha do tempo.

Sei hoje, e sinto agora, que não poderia ter deixado de dizer todas estas coisas para você e isto não foi certo. Devemos sempre e a qualquer momento ter a coragem de dizer o quanto precisamos e sentimos quando estamos com a pessoa amada pois nunca sabemos se poderemos ter novamente um momento a mais. Sou feliz por ter sido seu aprendiz nesse sentido.

Fomos felizes sem sermos perfeitos, dividimos nossos contentamentos e nossas aflições, carregamos nossas saudades e você foi tudo para mim em todos os tempos e espaços que pude te reter.

Lembro-me de nossa ida à margem do Lake Mead, onde acampamos naquelas terras relvadas e nos imaginamos donos daquelas terras imensas e sem nenhum ser humano ao nosso redor. Você até fez amizade com um esquilo. Nós nos sentimos sêres escolhidos sob as estrelas da América, lembra-se?

Espero que jamais esqueça, porque não poderiam me esquecer, Marisa, nem nos próximos cem anos. Nem sob outros céus ou sob outras estrelas. Naquelas margens você foi meus olhos, minha luz, minhas divagações, meus projetos, meu nome, meus retratos, meu passaporte, minha identidade completa. Juntamos tudo, você e eu, num único eclipse, num único momento, que trago até hoje cá comigo.

Estarei à sua espera e de você, bastará o luzir de um olhar, o roçar de um gesto ou sussurro de uma palavra.

Sempre seu,

Heródoto.


Marisa, recostada no sofá, estava de olhos fechados. Flutuava literalmente com os feromônios à flor da pele. Rodolfo sentia-se um tanto constrangido. Achava-se invadindo a intimidade de Marisa, como se tivesse conta de seus segredos e disso isso claramente.

-Não se preocupe, Rodolfo. Você é um amigo, não é? Sabe tudo sobre Heródoto. Sabe, acho que ele é a pessoa certa para mim. Gosta muito de mim, me quer bem. Quem escreve uma carta assim é porque ama, está apaixonado!

-Engano. Quem ama e está apaixonado é que pode escrever uma carta assim.

-Não compreendo, o que quer dizer ?

-Esqueça, não é nada. Por que esta carta não tem selos americanos ? Nem envelope aéreo da cor azul-vermelha ele é .

-Deve ter mandado a carta via consulado É mais seguro. Muita gente faz isso. Eu mesma já fiz. Você não gostaria de ver fotos do lago? Eu te mostro. Tenho muitas fotos de lá. Heródoto sempre achava que havia algo em meu sorriso que ele ainda não havia captado.

-Ele dizia isso? Não, não costumava dizer, mas eu sentia isso.

Depois dessa ocasião, as cartas continuaram a chegar regularmente. O tempo decorria  e Marisa aguardava paciente. Todo mês recebia a pontual visita de Rodolfo, quando chegava uma nova carta que ocupava a vida, o sonho e a tarde de Marisa.

-Você reparou no meu cabelo Rodolfo ? É algo que nunca fiz antes. Chama-se luzes. Será que Heródoto irá gostar ?

-Bom, talvez ilumine a cabeça dele. E a sua também. Você quer realmente esse fulano? Você se imagina casada com ele? É capaz de levá-la para morar no Queens. E vai comer pizza de frigideira nos fins de semana, além de cocas e pastramis...

-Não seja debochado... Ele me ama.

-Se amasse já teria vindo te ver. E se te esqueceu ?

-Estas cartas dizem que não. A propósito, a cirurgia será daqui a quinze dias. Você irá me ver ? Ficarei internada. Leve-me flores....

-Se acha que posso... A mãe de Marisa interrompeu o diálogo num momento delicado. Rodolfo aproximara a boca dos lábios de Marisa, que de olhos bem fechados nada percebia.

-Como você vai indo Rodolfo ?

-Estou contente pela Marisa... Não era bem a resposta, pensou, enquanto o líquido quente escorria pela garganta.

-Venha nos ver no Hospital Municipal. Você é sempre bem vindo entre nós.

-Obrigado, dona Carmem. Irei sim. Tenha certeza.

-Rodolfo sentiu que Dª Carmem não punha muita fé em Heródoto ou nos sentimentos dele. Certamente adorava a filha e temia por ela.

Foi exatamente três semanas depois que Rodolfo retornou à casa de Marisa. Tocou a suave e discreta campainha de dim-dom certo de que era a última vez que vinha ali.

Eram dezoito horas e o dia já havia escurecido. Na pouca luz que se filtrava pelas janelas com as cortinas corridas Marisa o olhava, depois  de conduzi-lo ao divã.

-Sumiu, não foi me ver, não levou flores, nada...

-Você não precisa de mim. Já tem Heródoto.

-Heródoto? Será que eu tenho? Vamos ver. Tenho aqui a última carta dele. Chegou ao Hospital e guardei para que você lesse... Marisa deu-lhe um envelope fechado que tirara do bolso das calças.

Rodolfo pegou o envelope com as duas mãos como sempre fazia, mas tremia visivelmente, sob o olhar agora intenso da mulher, na obscuridade. Rasgou o envelope. Disse apenas: vazio!

-É claro que está, respondeu Marisa. Você não escreveu nada. Não pode dizer para mim as coisas que Heródoto deveria ter dito e não disse porque não quiz ou não soube. Agora entendi o que disse: quem ama e está apaixonado pode escrever cartas assim... Marisa acendera o isqueiro da mesa e o envelope queimava agora numa bandeja do aparador. Uma chama na escuridão que se formara iluminava o beijo no divã. Diante da última carta de Nova York.

 

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