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Cedimelo o Estripador de Pinheiros
Cedimelo o Estripador de Pinheiros

gatoCedimelo, o estripador de Pinheiros

Cedimelo cruzou por nossas vidas na ocasião em que acabaramos de nos mudar do sobradão da Teodoro Sampaio para um velho prédio de apartamentos de cinco andares na Rua Reação dentro da cidade universitária.

Nesta ocasião, os trabalhos que envolviam cálculos matemáticos mormente os feitos nas plagas tupiniquins tinham que depender de máquinas calculadoras, não as eletrônicas que não existiam, mas aquelas de engrenagens de rodinhas tal como as criadas por Babbage. Haviam computadores  que engatinhavam como o ibm1620 que estava na Poli, o ibm /360 que estava na Física, na verdade monstruosidades anti-diluvianas.

A visita de Cedimelo foi marcada para uma noite atípica no apartamento.  Não tão atípica assim pois a convivência entre os jovens daquela república-apartamento era turbulenta e atritos se sucediam quase diariamente. O era Garcia um rapaz que pouco ligava a limpeza geral, mas instigado pela namorada recente e dondoca iniciara uma cruzada de 24 horas contra aquilo que chamava de imundicie generalizada da cozinha. O Baca acreditava que a prioridade sua era livrar a cara nas materias que lhe ameaçavam a formatura. Dendinho não dava atenção a problemas domésticos e as brigas se sucediam. As pilhas de prato se acumulavam dentro da pia, na mesa e no chão e a pia entupida transbordava água porque devido a teimosia ninguem dava o braço a torcer e desentupia a cuba. Nem é preciso dizer das camas desarrumadas ou do cheiro fétido do banheiro.

Cedemelo era um estudante de medicina que fazia a residência na faculdade de Medicina da USP onde estudara. O nosso amigo em comum, também médico era V. Indicado por ele procurara a mim para uma ajuda que envolvia cálculos matemáticos numa tese que o mesmo trabalhava.

Era um tipo bem magro,  um loiro alemão encrespado que falava pouco e era visivelmente interiorano. Trouxera a mulher a tiracolo e carregava uma mala de grupo escolar abarrotada de papéis e cadernos. Fez uma longa e tediosa explicação que tentarei repassar muito embora tenha captado pouco menos que nada. O sono era muito e era tarde da noite. O Baca  e o Dendinho circulavam repetidamente de cuecas pela casa sem se aperceber disto.

O trabalho científico de Cedemelo envolvia o Sistema circulatório dos gatos. Segundo o que pude captar de sua vasta arenga expositiva o gato como membro dos felinos tinha teoricamente uma ligação não sei se arterial ou venosa diretamente do sistema cardíaco ao cérebro e bombeava um volume sanguíneo que evidenciava o comportamento de suas habilidades na velocidade. Este fluxo sanguíneo acaba sendo traduzido numa vazão representada por um polinômio de grau elevado que deve ser ajustado a vazão da válvula de origem do pulsar do coração já mapeado. E a coisa ia por aí afora. Enquanto Cedemelo falava gesticulava as mãos freneticamente e a mulher anotava vários papéis sem desgrudar os olhos da mala.

Mapeados uma carrada de números uma regressão polinomial calculada no computador cuspiria centenas de coeficientes que se o ajuste se concretizasse daria todos os pontos da  vazão sanguínea do gato e então uma curva de Gauss da vidamostraria que a tese do Dr. Cedemelo era o supra sumo da baba do gato. Sineramente entretanto a arenga escutada era substancialmente inconclusiva e inconsistente no escopo e inconsequente nos métodos. ripperConversando mais tarde com V, o amigo comum a mim e Cedemelo comecei a tomar conhecimentos de como era feita a pesquisa. Era algo tenebroso e assustador. O médico nece. Assitava para colher os dados de matar o animal. Isto só era possível após ter degolado o gato para a posterior extração da carótida, ou da aorta pouco importa. Tal intento era alcançado saindo pelo pacato bairro de Pinheiros nas escuras e gélidas madrugadas vestindo uma capa escura para não espantar os inocentes e carregando o material da morte numa maleta preta de médico como os afiados bisturis, pinças e lanternas. Assim como um anjo da morte a estranha figura se insinuava pelas sombras dos becos travestido de Jekyll e Hide e nessas incursões já matara cerca de 500 bichanos. Escutava a tudo sentindo um tremor, o mesmo que os campos de extermínio provocam.

A manipulação de uma blocagem de horas de máquina no computador era importante por tres razões Primeiro na época e no contexto somemte pesquisadores e professores tinham acesso e acesso ilimitado a computadores de grande porte como um B-3500 ou um /360 e alunos eram apenas "tolerados" para fazer sua lição de casa de alguma aula prática de computação. Segundo, trabalhar como representante de um pesquisador dava oportunidade de conhecer coisas além do FORTRAN IV, como liguagens ditas empresariais como COBOL ou científias como ALGOL por exemplo. Terceiro ninguem te questionava e era possivel fazer seus processamentos particulares. Apesar de não receber um caracol do Cedemelo, aturá-lo valia dividendos. Bastava não tocar no assunto com ele e tratar tudo como números e estatística.

Vale a pena acrescentar o seguinte: uma regressão polinomial é sempre possível, desde que se estabeleça o grau de ajuste desejado. A regressão é sempre procurada no campo real ou complexo e repetida até que os coeficientes obtidos fornecan os dados reais obtidos da experiência. O método usado pode ser resolução de n equações, transformadas, etc. -E um cálculo tedioso e demorado notadamente nos computadores que tinhamos.

Realmente eu não entendia, não compreendia e não fazia a menor idéia para que serviria toda aquela tralha de equações, mas com certeza não salvaria vida alguma e prudentemente abstive-me de comentar o que achava.

A mulher do Cedemelo descobriu um aparelho que de uma maneira eletromecânica podia como um tablet primitivo de coleta para plotagem mapear coordenadas de um gráfico construido no papel. A mulher que mais tarde vim a saber ser enfermeira e por isto não se importava com homens em cuecas, encheu a cabeça de Cedemelo e o mesmo começou a plotar maçarocas de papéis aos borbotões e eram tantos que engarrafava a digitação e a fila de processamento.

Eufórico, suas visitas tornaram-se frequentes. Pilhas de cartões IBM espalhavam-se pelo apartamento. Dormia mal pensando e imaginaando um moderno Jack The Ripper de White Chapel  arrastando a capa preta pelas vielas de Pinheiros sangrando gatos e arrastando um saco preto repleto de cabeças de gato ensanguentadas. Será que ele jogaria tudo aquilo em uma fazenda de corpos ?

Como será que Cedemelo almoçava ? E a noite após uma noite de "trabalho" ? Chegaria em casa tiraria a capa, jogaria sobre a mesa a valise de bisturis ensanguentados e diria "um beijo querida, que tristeza-"só degolei 3 hoje!"

Foi pensando nisso que não consegui mais processar as odiosas tabelas. Adquiri um verdadeiro horror e rejeição ao que estava fazendo. O alto custo do processamento sinalizou o Centro de Computação Eletrônica. Recebi uma missiva educada porém firme que suspenderia as atividades daquela conta sem previsão de volta por ter esgotados os recursos para ela alocados.

Chamei o Cedemelo na mesma noite e entreguei-lhe a carta e o mesmo retrou-se furibundo de raiva. Graças aos Céus nunca mais o vi e soube dele. Queimei toda a papelada e os cartões que ficaram no apartamento.

 

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