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Como frangos assustados
Como frangos assustados

 

 

 

Todos os animais são iguais porém

 alguns são mais iguais do que os outros

 (George Orwell, A Revolução dos bichos )

 

Quando menino, de calças curtas e boné azul-marinho acompanhava minha mãe na sua tarefa semanal de prover as coisas da casa que eram adquiridas na feira-livre muito grande e diversificada que se estendia pela Av. Francisco Glicério que era a rua onde tínhamos uma casa.

Gostava de andar entre aquelas barracas onde havia uma quantidade de coisas que me chamavam a atenção. Minha mãe comprava coisas que anos mais tarde já adulto eu constatei que já haviam desaparecido.

Uma delas eram as ovas de tainha vendidas nas barracas que vendiam peixes. As ovas muita vezes eram dadas junto com as tainhas para os fregueses que as compravam. Havia um peixeiro amigo nosso que sempre guardava um pacote para minha mãe, pois ela fazia-as para mim que sempre insistia que ela tinha que levar ovas para casa.

Outras coisas que me chamavam a atenção eram palmitos em tronco que eram levados para serem preparados como os que são feitos hoje clandestinamente ou não e engarrafados num vidro qualquer sem procedência. Mamões grandes e rosados, pois não havia ainda o papaia.

Era costume a venda de alguns animais a guisa de animais de estimação. Cheguei a ver cãozinhos ainda com olhos fechados, ratos brancos e muita vezes tartarugas pequenas de casco verde.

Era na seção dos ovos que eles ficavam. Os comerciantes os traziam em caixas de papelão duro. As laterais das caixas continham furos circulares para a entrada de ar. As caixas ficavam no chão ao lado  as banca formando pilhas e ouvia-se repicar um piu-piu insistente no ar.

pintosQuando as caixas eram abertas podia-se ver dezenas de pintos amarelos com uma altura de 6 cm em média como bolas de pelúcia amarela movimentando-se e piando sem parar. É claro que eu achava uma coisa incrível. Certa ocasião depois de muita insistência deram-me um. Trouxe-o para casa num saco de embrulho de papel pardo com um buraco para a respiração.

O pinto piava o dia inteiro e eu o levava para toda parte. Sempre fiquei com uma dúvida. Se os pintos eram amarelos como é que os frangos que eles tornavam-se ao crescer eram de outras cores e nunca amarelos ?

Anos depois, trabalhando em São Paulo circulava diariamente pelo Largo da Batata. Uma enorme praça onde era possível se encontrar as coisas mais disparatadas e esquisitas. Foi num canto da rua perto da sarjeta sujo ao lado de bancas de ervas, frutas e ferramentas que os avistei. O homem sentara num banquinho sem encosto e a seus pés duas caixas de papelão abertas ao sol onde corpos pequeninos de cor azul e textura aveludada movimentavam-se na caixa. Eram pintos ! Pintinhos, que haviam sido pintados de azul para serem vendidos. Acho que a únicas partes que não eram pintadas eram o bico, os olhos e os pés. Um espetáculo degradante.

Muito tempo depois voltávamos de uma cidade  do interior de São Paulo. Era noite e o  luar estava forte entre as nuvens escuras iluminando as duas mão da estrada. Nosso carro seguia devagar pela direita e após uma curva avistamos o enorme caminhão a nosso frente com uma considerável carga alta. A carga alta era resultado do empilhamento de vários engradados de madeira, amontoados e presos a carroceria com cordas e correias, que balançavam perigosamente para fora e para dentro da estrada. Os engradados continham espremidos de qualquer modo frangos que piavam e enfiavam as cabeças de olhos arregalados pelos vãos dos engradados. Aves criadas em cativeiro, sem dó nem piedade, apenas criadas para morrer. Confinadas em espaços apertados para não gastar energia e mantidas acordadas para comer e engordar. Isto eram aquelas aves, frangos assustados.pintos

Já os vi muita vezes em pequenos negócios e lojas. Os proprietários tem medo. Medo de serem assaltados e perderem o árduo patrimônio que conquistaram de onde ganham a vida diariamente. Uma grande perua os traz a noite. Cães enormes presos por correntes e focinheiras submetidos a maus tratos passam o dia presos e são soltos a noite pelas lojas dentro da escuridão. Atacarão tudo que aparecer pela frente.

Quantas vezes o ser humano não dispensou a seus semelhantes em algum lugar do mundo o tratamento que dá a estes pobres seres vivos ? Seja na miséria do deserto africano, nas planícies afegãs, na Chechênia ou na faixa de Gaza, julgando-se superior por efeito de uma cor, de uma crença ou de seu sistema de governo ? Mantendo outros seres humanos confinados e sofrendo os horrores da fome e da privação da liberdade ? Em todas as partes do mundo a violência tomou a triste forma de um homem batendo em outro desrespeitando o mais elementar dos direitos que é o direito a vida. Simplesmente como frangos. Como frangos assustados.

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