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Diários vampirescos da modernidade
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(A maldade e a insensibilidade humanas parecem não possuir limites para alguns seres que se dizem parte da humanidade, mas tem o coração mergulhado na treva. Infelizmente é preciso saber e mostrar que eles existem para tentar evitar que o que fazem não se repita.)

Dª Pura era uma senhora fragil e miuda que formava com Seu Benedito um daqueles típicos casais de simpáticos morcegovelhinhos de Poços de Caldas Seu Benedito tinha uma ótica. Vendia e confeccionava óculos e Dª Pura tinha uma condição financeira muito sólida pois tornara-se gestora financeira de tres lojas de gemas e pedras preciosas cujos pais e avós tinham prosperado em toda sua vida.

Seu Benedito foi derepente obrigado a se afastar das atividades por causa de complicações cardio-vasculares. Preso a uma cama sem mobilidade e muito fraco passou a depender de Dª Pura que se desdobrava em desvelos para atende-lo. Dª Pura não aceitava a idéia de que outras pessoas cuidassem do marido.

A doença do seu Benedito prolongou-se e Dª Pura já entrada em meses tornou-se prisioneira real dos cuidados que Seu  Benedito demandava. Era comida, banhos, remédias e ainda a casa a cuidar enquanto o mundo lá fora se desvanecia fora  dos limites da cama de Seu Benedito. Havia claro uma visita ou outra que não se demoravam e apenas cumpria tabela. A doença foi também progressiva e os esforços debilitaram  Dª Pura e um dia um ataque cardíaco fulminante levou para sempre Seu Benedito sem nem permitir seu adeus.

A perda do seu Benedito foi uma libertação até, mas passou longe de uma mudança. As atividades da loja a muito tinham cessadoe a tristeza e a inconformidade abateu-se sobre Dª Pura que quedou-se prostada na velha poltrona como se fosse a chegada do Armagedon. Dª Pura e seu Benedito tinham duas filhas Silvana e Morgana na verdade apenas filhas de seu Benedito que enviuvara alguns anos antes de casar novamente com Dª Pura. O casal tivera um filho temporão Hidelbrando que rapazote fora estudar na cidade do Rio de Janeiro então capital federal.

Silvana e Morgana eram infelizmente uma quebra na regra de que aquele que sai aos seus não degenera.  Os limites de suas visões estendiam-se apenas do próprio umbigo até as coxas e nada mais. Após terem sugado e mordido o pai omisso e a madrasta desavisada o próprio pai cansado de suas reclamações quanto a aridez de sensações mais apropriadas a jovens como elas na insossa Poços, mandou-as estudar no Rio de onde quase nunca vinham.

Após o passamento do pai a dupla reapareceu na casa. Não perguntaram pelo pai e não se interessaram pelos problemas e sofrimentos que o acometeram. Diziam apenas que estando morto já nada havia a fazer e nem tiveram nenhum interesse de passar no cemitério. Apenas perguntaram pelos bens de Seu Benedito.

Hidelbrando passou rapidamente pela cidade, mas também pouco ficou apesar de sentir muito pela mãe. Tinha que retornar e retomar a constante vida de viagens que tinha no banco e acreditava no cuidado das meias-irmãs. Desta maneira Dª Pura permaneceu na casa entregue às mãos da sombria dupla de enteadas, pois uma primeira providência da mesma foi despedir a criada de mais de 20 anos que a auxiliava em tarefas que agora lhe pesavam. Alardearam que a mesma dava uma enorme despesa e com sua presença ela tornara-se dispensável.

Dª Pura foi instigada a permanecer no piso superior ,pois já dava claros sinais de pouca movimentação. O médico não foi mais procurado,pois a dupla disse que com a medicação prrescrita e o falecimento do pai nada mais restava a ele fazer.

Nenhuma das irmãs Silvana ou Morgana sabia cozinhar qualquer coisa e era duvidoso que algum dia tivessem adentrado a cosinha. Tornou-se frequente uma interminável sequencia de caçarolas de lavagens nauseabundas e fumegantes que a dupla de irmãs insistia em rotular de sopa. A beberagem tinha requintes de sujeira e lavagem que não era consumida por elas. Todas as refeições das duas eram compradas em restaurantes na conta de Dª Pura que ficara na administração dos advogados manipulada sob o pretexto de administração e manutenção da casa.

A casa outrora um modelo e exemplo de organização tornara-se irreconhecível. O mato e as ervas daninhas tomavam conta do jardim e haviam sufocado roseiras, jasmins e margaridas. Somente formigueiros e larvas se remexiam na terra seca e sem água. Acumulo de pó por toda parte e constante fedentina de privadas entupidas.

Dª Pura que nunca mais saira do quarto tornara-se sêca e descarnada, não mais falava e nunca nais fora vista. Móveis, louças, pratarias tudo fora vendido pelas duas irmãs. Nem mesmo a campa do pai escapara. Sem esperar o tempo de exumação mandaram que o túmulo fosse aberto e após descartarem o saco de ossos numa vala de indigentes para não pagar uma urna de ossário deixaram que o esquife fosse descartado no descampado de além muro para a favela do caixão. A tumba foi fechada e limpa. Dia seguinte j fora vendida.

Como tudo se acaba, também os recursos de Dª Pura terminaram. As lojas entretanto e seu patrimônio não podiam ser mexidos. Silvana e Morgana sabiam disso e esse era seu babado objeto de desejo. Seria o supra-sumo. Pensando nisso requisitaram a interdição de Dª Pura alegando demência e incapacidade. Hidelbrando , então morando no exterior de nada sabia do assunto. Periodicamente mandava cartas que eram respondidas com a escrita de Silvana dizendo tudo estar bem.

Houve um processo rápido e tudo chegou a ser preparado e encaminhado para a decisão judicial. Antes do pronunciamento Dª Pura veio a falecer de uma parada cardíaca após uma infecção generalizada. Tinha perto de 30 quilos e foi enterrada em caixão fechado. O velório ficou fechado e só o advogado e a antiga empregada estiveram lá em um silêncio eloquente.

As lojas foram vendidas para clientes estrangeiros e a última imagem da casa de Dª Pura foi a escavadeira revolvendo o terreno vazio quando Hidelbrando chegou na porta com uma mala em cada mão. As suas meia-irmãs desapareceram.

Alguns meses depois foram encontradas num matagal. Foram mortas com uma estaca no peito. Todas as pedras e jóias foram ababdonadas no local.

 


 

No texto, A velhice (1970), Simone de Beauvoir escreveu que o idoso é uma espécie de objeto incômodo, inútil, e quase tudo que se deseja é poder tratá-lo como quantia desprezível.




(Baseado em fatos reais)

 

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