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Dois ou três segredos que eu sei dela
Dois ou três segredos que eu sei dela

Ele pode sofrer que sua memória se faça escusa, deixa-las ser como se não houveram sido e tudo a ponto de persuadir-se de que não foram ou ao menos foram diferentemente. (Ulisses, James Joyce).

 

Quando menino ficou de minhas lembranças a ansiedade com que aguardava as manhãs de Domingo. Pulava cedo da cama e esperava impaciente que papai se vestisse, pois sabia que ele confeitariame carregaria com ele para irmos a cidade. Tudo era divertido para mim. O abrigo da parada de bondes pastilhado no canteiro central da Av. Ana Costa onde aguardávamos o bonde que nos levaria ao Centro que como todo santista eu chamava de cidade. Assim ir ao Centro era ir a cidade. Quando não havia lugar nos bancos dos bondes as crianças viajavam de pé em frente aos assentos ocupados. Os homens viajavam no estribo segurando os balaústres. A viagem findava na praça Mauá e ali descíamos sempre passando primeiro no café Torino onde meu pai tomava café de coador. Não se fazia ainda o café expresso. Da porta do Torino olhando a esquerda avistava-se o edifício clássico do Banco de Londres que eu muito gostava de ficar olhando. Deixando a Praça Mauá e seu constante movimento de bondes partindo e chegando seguíamos pela Rua General Câmara até a Praça Rui Barbosa. Avistava-se a sede do jornal “O Diário”, sempre com enormes bobinas de papel espalhadas na calçada da Rua do Comércio. Atravessando a praça com as esfingesconfeitaria de bronze a reluzir no sol que esquentava as pessoas apressadas. A igreja do Rosário que um dia dera o nome a este Largo repicava os sinos. No mesmo lado onde esta localizada a igreja no canto oposto situava-se a Confeitaria Rosário onde meu pai costumava ir. A Confeitaria Rosário era ampla em extensão e possuía balcões de vidro dos dois lados. Um atendimento quase pessoal feito por funcionários de bata branca. Lembro muito pouco dos produtos, mas tinha uma impressão bem agradável dos mesmos. Sempre nos dirigíamos ao fundo da confeitaria onde os produtos eram pesados e pagos. Ali o pai bondescomprava pãezinhos pequenos tostados por cima e que lembravam um pão caseiro com ligeiras rugas por cima Era chamado na casa de pão de cará e dispostos em uma grande tábua de madeira cobertos por um pano que lembrava uma renda. Também uma porção de damascos secos era embrulhada para meu pai em um pratinho de papelão. Os damascos eram depois devidamente transformados por minha mãe em balas de damasco feitas a frio com a massa raspada dos damascos e embrulhadas em papel de seda colorido Algo que me chamava atenção eram as ostras cozidas e enfeitadas com legumes e condimentos que ficavam expostas numa vitrine de vidro. Meu pai sempre levava uma, pois sabia que eu gostava delas. O peixe era um prato feito em nossa casa toda semana e eu conhecia frutos do mar. Assim se resumia para min a casa Rosário e suas iguarias finas. Costumávamos ir também na Torrefação do Café Adelino onde meu pai comprava um quilo de café. Meu pai apreciava muito o café que gostava de comprar torrado e moído na hora. O bonde nos levava de volta para a casa sacolejando sobre os em ruas de paralelepípedos. As tardes de domingo, quando radiomeu pai não escutava partidas de Futebol no rádio de válvulas colocado no canto da sala sentado em sua cadeira de balanço, eram muitas vezes completadas com um longo passeio a São Vicente. Meu pai costumava levar-me junto e tomávamos o bonde 2 que era uma longa linha que iniciava no Centro de Santos e ia até o Centro de São Vicente. Íamos ao longo da orla da praia passando pelas praias do Gonzaga, José Menino até atingirmos a Divisa entrando em São Vicente. Próxima a Divisa, já em São Vicente está situada a pedra da Feiticeira. Dizia-se, assim contou meu pai, que sob a pedrcadeiraa há um forte redemoinho e que ali se afogaram três moças na década de 40. Eu escutava tais coisas e amedrontado dizia que nunca tentaria chegar perto da pedra. As três moças costumavam sentar-se ali nas noites em que o mar estava revolto, pois seus espíritos tinham ficado amarrados nas pedras. A Praça Independência era contornada pelos bondes. Isolada entre a Rua Embaixador Pedro de Toledo e a Goitacazes estava a estação de ônibus da Cometa onde se tomavam os ônibus para São Paulo que ali permaneceu até a construção da Estação Rodoviária. Em seguida podia-se passar no bonde em frente ao Parque Balneário por um lado e o Bar do Atlântico do outro até atingir a praia em frente à fonte luminosa. Muita vezes íamos a praia pela manhã e invariavelmente na praia do Gonzaga onde os bondes passavam defronte. Eu e papai andávamos pelo passeio onde eu tinha o hábito de apanhar os frutos que caiam dos jambolões e coloca-los nos bolsos do calção. Mais tarde eles eram cuidadosamente plantados no palmo de terra atrás de casa. Plantei e vi crescer abacateiros com vários centímetros de altura, bem como pés de milho que chegaram a dar espigas, mas nenhum dos jambolões vingou. Na extensão da areia situava-se a barraca tipo guarda-sol de Da. Vitória que todos os dias estava na praia a fotografar os turistas com uma câmara lambe-lambe. As fotos feitas a partir de chapas de vidro 6 x 9 eram depois reveladas ali mesmo e observando o que acontecia aprendi os rudimentos da arte fotográfica. As copias feitas com a luz do sol eram penduradas a secar como roupas num varal. Meu pai sentava-se num barquinha a prosear com Da. Vitória enquanto eu observava suas habilidades. Descendo do bonde perto da biquinha e esguiamos pela calçada junto à encosta até a Ponte Pênsil. No caminho que costeia o morro tem-se a visão panorâmica da baia com o marco do descobrimento em primeiro plano. Frente a ponte Pênsil ao lado do Itapura está a casa das bananadas tão idosa quanto a Ponte Pênsil que foi inaugurada em 1914. Quando morávamos na Rua XV de Novembro em São Vicente recebíamos quando em quando a visita de um velhinho que numa sacola de lona verde e listras vermelhas trazia barras de bananadas cuidadosamente embrulhadas em papel manteiga. Eram os doces da casa das bananadas. Nós não morávamos mais lá, mas continuamos a buscar aqueles doces na casa que lá esta até hoje próxima a Ponte Pênsil. Cada passo sobre cada paralelepípedo, cada centímetro percorrido pelos meus pés, cada casario observado e registrado através dos olhos inocentes de uma criança, cada iguaria, cada aroma, cada sabor misturado a todos os odores de trabalho e ao perfume do burburinho do povo impaciente, pães, cafés e balas do suave perfume do damasco eram os segredos e testemunhos desta cidade que arrancados de teus ares e logradouros eu guardava indelevelmente em meu espírito.

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