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Gilda a mulher inesquecível
Gilda a mulher inesquecível

 

 
 

 

Nunca houve uma mulher como Gilda.

 

Conheci Gilda com apenas 12 anos. Uma mulher alta, vestindo um longo preto que descia até os tornozelos. A echarpe também preta enrolada no pescoço e um longo colar prateado com  pedras azuis que era  muito bonito apesar de ser claramente uma bijuteria, O vestido era gasto pelo tempo, esfarrapado pelo uso assim como a echarpe puída nas pontas desfiadas e amarfanhadas, Naquela vez e em outras vezes que de longe a vi circulando pelo Boqueirão não usava sapatos e sim chinelos igualmente gastos pelo caminhar nas calçadas. Luva tinha apenas uma sempre a agitá-la na mão direita como se fosse um leque.

Onde quer que fosse um bando de moleques acompanhava de perto aquela figura estranha, rindo e debochando de Gilda que parecia nem notar sua presença. Mesmo de outras pessoas ela não parecia notar a presença seguindo pelas calçadas, muita vezes descalça outras de chinelos rotos e sujos. Olhos embaçados que não pareciam ver e talvez não vissem.

Um dia diziam fora uma linda moça, freqüentadora de ambientes caros e refinados, que o destino dotara de uma grande sorte e felicidade. Estudante do São José um colégio feminino exclusivamente dirigido por freiras recebera educação esmerada e religiosa. Era comum encontra-la saindo da igreja aos domingos sempre soçobrando um ramalhete de flores, um véu na cabeça acompanhada pelos pais e irmãs.

Concluiu o curso Normal, freqüentava clubes onde desfilava a graça e a beleza que lhe foram dadas. Foi durante uma domingueira que conheceu um rapaz e a partir daí passou a ser freqüentemente vista com ele. Passaram a formar um par constante e depois se tornaram namorados. Os familiares, os vizinhos e os amigos mais íntimos aguardavam ansiosamente o dia em que ficariam noivos e casariam. Era um casal perfeito, que fazia com que todos os olhares convergissem para eles onde quer que fossem ou freqüentassem. Senhoras idosas os apontavam discretamente em chás beneficentes. Rapazes e moças os invejavam pela felicidade que irradiavam.

Assim se passavam as coisas e nada parecia manchar aquele exemplo de ternura e afeição que um sentia pelo outro. O rapaz de origem humilde era proprietário de uma loja de comercio de tecidos finos para confecções de roupas, negócio que assumira do pai pessoa que trabalhara toda a vida pelo bem estar da esposa e do filho. O negócio dera-lhe a oportunidade de desenvolver apresentação e conhecimento entre as pessoas influentes da sociedade na época.

O noivado foi realizado numa cerimônia íntima porque assim fora o desejo dela. Poucos amigos presentes brindaram o casal ma casa dos pais dela que era a imagem da felicidade duradoura e esplendorosa. Beijava a todos e dançava com todos principalmente com o noivo. Os amigos saíram altas horas da casa ruidosa e iluminada impressionados com a alegria que transbordava do rosto da noiva com um vestido rosa e um tanto reticentes teceram comentários a uma postura um tanto distante do noivo que não correspondia à imagem daquele comportamento apaixonado. Mas as coisas continuaram a seguir para os noivos.

O casamento estava marcado para seis meses após o noivado. A noiva passou a es ocupar de várias atividades para o preparo de coisas que antecediam o início da vida em comum que se avizinhava. Eram compras, escolha de utilidades e decorações e enxoval. As sadias com o noivo diminuíram bastante. Faltando apenas uma semana para o casamento recebeu um telefonema do noivo pela manhã perguntando se ela não queria assistir a uma sessão de cinema no Miramar. Estava sendo exibido o filme Gilda que ele queria muito assistir. Depois poderiam jantar naquele restaurantezinho só deles como há muito não o faziam.

Maria Lúcia, este era o nome dela preparou-se com esmero para o encontro com José Antônio o jovem noivo. Foram ao cine Miramar onde assistiram um filme de Rita Hayworth então no auge da carreira. Gilda é uma mulher fatal numa representação brilhante, sensual e forte. Glenn Ford é o galã durão e dramático. O cartaz da entrada anunciava: Nunca houve uma mulher como Gilda.

Jantaram mais tarde num restaurante calmo e discreto quase vazio. Foi após o jantar que tudo aconteceu. Conhecera a moça na loja. Rica, bonita e mimada. Sua conversa a encantara e ela sem mais rodeios não escondeu seu interesse pelo charme do moço empresário que se apaixonara perdidamente. Passou a vê-la e procura-la em todos os momentos que disponha, Fechou a loja e até dispôs-se a abandonar o negócio ante a possibilidade que lhe fora acenada pela moça de dirigir as industrias do pai. Havia Maria Lúcia, entretanto. Não sabia o que fazer com ela. Não queria magoa-la, desejava muito a sua felicidade, mas havia decidido que não seria parte dela.

Entregou-lhe o anel de noivado para uma Maria Lúcia muda balbuciando palavras de desculpa sem nexo e sentido. Esta se levantou da mesa e sem uma palavra saiu a andar recusando o taxi que o rapaz lhe oferecera. Foi a última vez que se falaram.

No dia seguinte Maria Lúcia vestiu um vestido de noite em seda preta sem alças, calçou luvas compridas também de seda preta e saiu do seu quarto ganhando as ruas sem dizer uma única palavra. Não era mais Maria Lúcia. Era Gilda. Passou a dizer a todos que seu nome era Gilda e a andar constantemente pelas ruas. Algumas vezes tirava a luva direita e cantarolava Put the Blame on Mame. Boys como na antológica cena de Gilda.

Seus pais após muito choro e desespero procuraram o rapaz que envergonhado contou sobre o fim do noivado. Varias coisas foram feitas para que Maria Lúcia reagisse, mas foi tudo em vão. Passaram-se dias e meses. A família acabou aceitando a sugestão de amigos para que fosse colocada numa clínica que lhe desse assistência e conforto, o que foi feito.

Passou-se o tempo. Gilda tornou-se uma figura conhecida na clínica de doentes mentais. Os médicos e enfermeiras acostumaram-se aquela figura dócil que tudo aceitava sem queixumes e nada pedia. Algumas funcionárias com pena daquela mulher de roupas esfarrapadas deram-lhe outra parecida que ela continuou a vestir com as suas luvas inseparáveis. Às vezes permitiam-lhe que saísse a rua, mas ela sempre voltava.

Um dia adoeceu e não pode mais se levantar. Até a família que nunca a visitava veio vê-la. Gilda então passou a chamar por alguém que não dizia o nome, dizia apenas "quero vê-lo". Sua mãe já muito velhinha vendo o desespero da criatura procurou José Antônio. Demorou a encontra-lo. Envelhecido e alquebrado não se casara. Vivia sozinho e sobrevivia de biscates. Fora abandonado, tudo perdera e nada tinha mais daquela sedução do noivo de Maria Lúcia.

Foi quase arrastado até o hospital. Levaram-no ao quarto de Maria Lúcia onde ele entrou e postou-se a sua frente. Olhando aquela mulher de cabelos grisalhos, magra e de rosto enrugado todas as paliaras que pode dizer foi: -Sou eu Gilda, o José Antônio. Caiu de joelhos ao lado da cama e deu vazão a um pranto longo e incontido. Ela apenas o olhou sem aquela ansiedade  e  ostentando uma lucidez que nunca tivera em todos aqueles anos. A voz saiu fraca, quase inaudível com um visível esforço: -Não sou Gilda José Antônio, nunca o fui. Sou Maria Lúcia e ainda te amo.

Foi um abraço que tudo disse e transmitiu quase sem palavras e explicações que passava pela comoção, paixão e amor daqueles dois seres que se encontravam após uma longa estrada. A pedido deles foi chamado a tarde o padre que vinha a capela do hospital todas as semanas. Queriam casar-se de qualquer maneira. Ela e José Antônio que não mais saiu do seu lado esperaram até à tarde e o padre veio e fez a benção nupcial com duas enfermeiras como testemunhas.

À noite ficaram até muito tarde ela deitada e ele sentado na cama a seu lado com as mãos e o olhar entrelaçados sem necessidade de nada dizer  Tarde da noite Maria Lúcia faleceu. Morreu como um passarinho que apenas cai do poleiro ou uma lâmpada que se apaga. Maria Lúcia a mulher inesquecível se despedira.


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