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Gonzaga Posto 3
Gonzaga Posto 3

 

 

 

O importante não é o lugar

Nem a hora, o momento ou o chegar

O importante é estar

E amar

(Rafael Cavalheiro Ferreira)

 

Quem conheceu o Posto 6 em Copacabana sabe o que é um lídimo representante natural de um momento e de um local. Assim foi o Posto 3 em Santos, uma sentinela anônima do mar e da baía de Santos, de suas belezas e areias, de sua transformação em função de mudanças políticas e econômicas.

O Posto 3 defronte ao Bar São Paulo era onde os jovens convergiam. A construção levava jeito de torre, era pintada de branco, tinha dois andares com escadinhas externas e um piso de ladrilhos vermelhos como um mirante voltado para o mar. Não havia um dia especial para ir e nenhum compromisso com a hora de chegar.  Durante as temporadas de verão agitadas pelo sol uma grande união de jovem alegria descompromissada estendia-se pela areia onde eram comentados os movimentos e planos que preenchiam nossos lutas e sonhos ou nossas frustrações por não tv ainda conseguida. O cenário de mar e mormaço inebriava o desejo de permanecer entre o burburinho e o vai e vem das pessoas que se movimentavam sem pressa no ritmo de um verão de amor.

O calçadão ladeando o jardim era a passarela natural. Sempre era possível encontrar um amigo a aproveitar a manhã e acompanha-lo para saber a última canção de Carlos Lyra. O calçadão era o piso democrático onde todas as tendências e matizes discutiam suas mensagens e propostas. Sion e Paulino no calçadão nos diziam onde tocariam a noite para um despretensioso grupo de amigos.

O Bar São Paulo que era também um restaurante era a referência da noite na orla da praia. Ali se misturava uma certa malandragem do jeito santista de ser com uma intelectualidade estudantil. Dizia-se, e era verdade, que todas as noites terminavam no Bar São Paulo onde ainda era possível conseguir uma mesa.

 Naquela época os jovens saiam das aulas noturnas e seguiam até o Parque Balneário. A fonte luminosa através de luzes multicoloridas davam a noite um toque de romantismo envolto pela música presente em nossa cabeça e em nossos corações. Os salões de mármore sempre iluminados sobre a Av. Ana Costa brilhavam como pérolas que ficariam na lembrança como um lamento antes do seu desaparecimento ante a especulação imobiliária. A sua presença era tão associada ao local que muitas pessoas continuariam a referir-se ao local como o "Parque Balneário".

A Fonte luminosa, como era conhecida a fonte 9 de Julho,  ganhava o status de Via Veneto após a chegada da turma noturna do Colégio Canadá. Os uniformas tomavam conta dos contornos de pedra aonde o murmúrio das águas vindo dos jatos coloridos se fazia ouvir.

O Balança era uma figura popular e querida. O rapaz baixinho e magrinho tocava num som harmonioso e incrível um pistão de sopro. Balança e pistão eram inseparáveis e insuperáveis. Somente o suspiro das moças de vestido pregueado azul e casacos vermelhos e os aplausos de rapazes de calça caqui marrom distribuídos ao redor da fonte conseguiam superá-lo em intensidade. Num dia de calor intenso o Balança livrou-se da camisa e entrou de roupa na fonte sob uma salva de palmas e tocou Sally`s tomatoes. Esta era a nossa rebeldia antes numa época ainda não atingida por uma crise de confiança sem precedentes que ainda não se avizinhava.

Saindo da fonte um grupo em especial seguia pelo calçadão da orla ruidosamente passando o Parque Balneário do qual era possível avistar-se o caramanchão do Jardim de Inverno, uma imensa área verde onde se realizavam bailas em uma pista de danças a céu aberto. A música era sempre tocada ao vivo.

Chegava-se ao posto 3 próximo ao Bar São Paulo. As mesinhas de toalhas brancas e os garçons uniformizados servindo até o último freguês. Os símbolos do Gonzaga Noturno. Não haviam luzes na praia exceto as dos bares. Navios fundeados na baia cintilavam luzes de convés. Nós, entretanto sentíamos apenas inspiração e não medo ou receio. O território Balneário, Fonte luminosa, Posto 3 e Bar São Paulo eram o local onde tudo acontecia e onde todos se encontravam. Alí nasciam e morriam amores, amizades, músicas, grupos musicais e numa antecipação futurística realizavam-se os happenings.

As colunas do Atlântico eram postos de observação onde o cotidiano era passado como se fora um jornal de poste de uma cidadezinha do interior. Por isto mesmo um lugar próximo às colunas era muito concorrido e somente deixado em troca de um café de coador saboreado nos balcões do Atlântico ou para sentar às mesas da calçada defronte ao Parque Balneário e ser mais um observador do movimento. Ver o Aristheu a entrar na livraria e depois tomar um café no Atlântico com os colegas da Academia Santista de Letras e bem mais tarde encontrar Maurice Legard com a turma da cinemateca.

Mesmo no adiantado da noite o posto permanecia com livre acesso as pessoas. O mirante era o ponto preferido dos namorados que se integravam no cenário do mar olhando com lentidão a subida das marés.  Santos sempre teve três coisas que gosto e fazem parte da vida santista desde a meninice – Mormaço, maresia e ressaca.  Na temporada elas acontecem juntas tirando-nos das casas e apartamentos como se a natureza reclamasse os seus direitos.

Um grupo subiu as escadas do Posto 3 e no mirante vazio espalhamo-nos sentados pelo chão encostados às muretas enquanto os livros eram empilhados ao lado. Alguém trouxera um violão. Teria sido Cancello? O Balança esparramado no chão tirava notas no pistão. O romantismo estava no ar e o romantismo era a bossa-nova. Alguém cantarolou Este teu olhar e cantamos como se fora um hino, Violão e pistão acompanharam nosso coro de vozes. Estava feito. O Posto 3 era um templo com um moderno Merlim e nós éramos apenas deuses. Naquela noite ao menos.

 

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