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Iná e as calçadas da fama
Iná e as calçadas da fama

Cruzei com Iná naqueles anos verdes em que não tendo ainda alcançado a vida adulta, movia-me a curiosidade pelo diferente, pelo inusitado, pelo desconhecido no lado comportamental humano que ainda não conhecera.
Ina era daquelas mulheres que não mais transitam pela nossa vida agitada oriunda de algum lugar do passado massacrada pelo presente. Não era possível conhecer Iná sem dizer "Que pena".
Iná aos 30 e muitos anos já não tinha mais família. O pai, bêbado, visionário e jogador inveterado levara a mãe à ruína. A mãe suportou uma vida de humilhações pela vida afora, pois fora sempre por demais apaixonada pelo marido bon vivsnt. Ele um ator de teatro e alfaiate  seduzia pela postura espetaculosa e a fina apresentação, mas muito embora não se portasse como um mulherengo infiel entregou-se no jogo.  Bebia e jogava. Abandonou a mulher e a filha. A mulher apesar de tudo gostava do marido, pois o conhecera no auge da fama, representando e encantando as platéias no Centro Teatral Português e depois como um profissional da tesoura e da linha que fazia a imagem deslumbrada de empresários enriquecidos.
Iná cresceu vendo a decadência do pai que ia a bancarrota em mesas de bacará e giros de roleta. A mãe sozinha caiu doente. Uma grave crise do aparelho digestivo a fez definhar sem chances de recuperação. Sozinha, sem um único parente e sem uma única amiga a não ser uma velha senhora conhecida de sua mãe e sem condições de arcar com um aluguel Iná teve que mudar-se para um quarto diminuto num apartamento de uma família localizado em uma vila de casas bem simples. A casa era na verdade um apartamento de al-se tos. Roberto, um idoso senhor italiano e uma mulher negra e sem nenhum estudo era o casal que ocupava o apartamento que era alugado. O homem já não trabalhava e para sustentar dois filhos, um moleque em idade escolar e uma menina quase adolescente a Isaura trabalhava de doméstica numa casa familiar. Iná resolveu também ser diarista, pois um dinheirinho já lhe dava condições de pagar o aluguel do quarto. Assim Iná passou a ser doméstica durante o dia e cedo ia dormir por conta do trabalho pesado. A única distração que se permitia por vezes era sentar tarde da noite  na soleira da porta e escutar o Sr. Roberto tocar um velho violino que nunca largava. Permanecia ali a ouvir a serenata de Toselli. Era uma figura estranha vestida de tafetá , o lenço apertando um cabelo esquisito e enormes óculos escuros.

Iná conheceu um homem na missa que ia todos os domingos. O homem tornou-se o namorado e o foco permanente da vida de Iná. A marginalizada Iná passou a ser par constante do cavalheiro que nunca mencionava a menor vontade de ser um companheiro que não fosse o namorado de plantão.

Cedo Iná descobriu seu casamento com vários filhos e um histórico longo de malandragem e vagabundagem. O indivíduo, um rufião e proxeneta de mulheres explorou Iná em suas economias. Ela sustentou-o durante anos e só não andava em andrajos porque reformava roupas de bazares. Trabalhava também no serviço doméstico para Isaura, pois nem aluguel podia mais pagar. O velho italiano violinista faleceu, a filha empregou-se num armarinho para ganhar uns trocados e o moleque  tornou-se entregador para sustentar o madureza que finalmente começara. Acostumei-me a encontrar a estranha Iná andando sempre a pé pelo bairro, evitando pessoas e  claridades como se carregasse uma carga superior a seu peso. Fácil se tornara rotula-la - : uma pobre coitada, vítima de um explorador de mulheres enredada nos laços de sua própria ignorancia, miserável, deserdada dos santos e dos anjos, carente de uma atividade de caridade em alguma igreja. Prefiro mais ve-la com os olhos inocentes da alma, da dedicação enriquecedora do amor não realizado e guardado como um sacramento encoberto nos andrajos, na feiura descabida numa beleza disforme e escondida dos psicologos de almanaque, dos juizes de plantão e dos atiçadores de turbas. Creio que já com as vistas afetadas Iná já pouco enxergava e inúmeras vezes enfiava os pés nas calçadas esburacadas. Nunca mais vi Iná. Perdeu-se na noite do tempo.

 

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