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LEVER NO ESPAÇO

A Vila Juquia tinha cerca de 30 apartamentos. Uma vila típica de época, década de 50.  Um povoado típico que imitava e personificava o mundo que corria aquém dos portões de madeira de ripas trançadaas pintado em verde água.  Se conhecesse Agatha Cristie na época teria dito que a Vila Juquiá era a minha Saint Mary Meadows.

Não, nada de crimes mirabol.antes e velhinhas envenenadoras. Era tudo uma grande diversão. Havia de tudo um pouco.

Meus vizinhos eram um casal de velhinhos bem velhinhos. O homem era um velhinho magro que na minha imaginação infantil já passara de um século de existência.. Movimentava-se com uma bengala de madeira branca perolada e usava um enorme óculos de aros grossos. Era o Sr. Argolo.

Bem, o Sr.Argolo não cultivava abóboras como o Sr. Roger Acroyd. [i] A sua Sra se chamava Maria, mas eu a apelidara de Dº Argola . O Sr. Argolo era o Cid Bengala.

Havia uma estreita faixa de terrs,aí pelo meio metro, junto ao muro, atrás das casas que compunham o conjunto do nosso condomínio na vila. Cada morador era o proprietário da extensão da faixinha da terra adjacente a sua casa até dois metros.. Lá plantamos várias flores e enterramos alí nossos canários. Alí plantei vários pés de abacate, sempre arrancados por meus pais que receavam que derrubassem o muro.

Quando ocupamos a casa, o Sr. Argolo ainda não lá estava e assim invadi sua “faixa de terra”. Plantei milho e os pés cresceram  O Sr. Argolo pacientemente e educadamente nunca reclamou ou disse uma palavra. Demorou uns cinco meses e deram várias espigas. Quando o milharal secou ele adubou a terra e alí plantou rosas.

Havia uma profusão de Marias no condomínio. Adotei um meio próprio de lembrar-me delas. Chamava a que morava na casa 1 de Dª Maria Primeira, a que morava na casa 5 de Dª Maria Quinta, minha própria mãe era Dª Maria Sétima e assim por diante.

Havia outras pessoas bizarras e folclóricas.

Houve alguns roubos no condomínio. Dª Maria Primeira foi uma. Disseram que eram jóias. Nossa casa era muito vulnerável e o pai mandou colocar uma grade de madeira nos fubdos.

Dª Maria Primeira aborreceu-se e se mudou. A vizinha seguinte era folclórica e estranha. Tinha o costume de emprestar livros clássicos de poesia de minha mãe como Augusto dos Anjos e Fernando Pessoa. Morava com o filho o Sr. Vavá que lembrava um pugilista de terno. A mãe Dª Albina saia todos os dias com Vavá que nunca saia com a esposa. Mudou-se e finalmente a casa foi ocupada por Dª Odete, uma cabeleireira que tinha uma filha e uma sobrinha e um marido que gostava de contar “causos”. Era o Sr. Dirceu e não era raro ser acompanhado na rua pelo mesmo quando fazia inflamados discursos políticos contra o que chamava de “massa do povo ignorante.” As possoas nos abrigos de espera dos bondes olhavam boquiabertas o homem com tique de político.

A noite o mesmo assistia inflamado os discursos de Zarur no rádio em alto volume em companhia da filha e da sobrinha.. A deguir escutava também em alto volume “Avoz da legalidade”

Dª Maria Quinta era a mulher de um policial. Haviam dois filhos. Curiosamente a família Romanelli era uma família de músicos e do andar superior um piano que era martelado o dia inteiro. Marivaldo era o filho mais velho fanático por uma coleção de revistas de quadrinhos chamada Edição Maravilhosa. Marivaldo chegara a adquirir um guarda-roupa onde guardava 200 emplares da revista. Dª Maria era magra, bem magra. Acho que nunca vira ningu ém tão magra. O Seo Romanelli era um homem agitado de cabelos brancos e diziam andar armado. Gostava de organizar uma apresentação de quadrilha de Festa Junina. Agitou a Vila Juquiá inteira para fazer esta apresentação junto com comidas típicas, fogueira, roupas típicas e até a soltura de um balão.

Os vizinhos de Dª Maria Quinta eram um casal pobre e que não falavam quase com outras pessoas. Roberto e Isaura formavam uma família antiga que agora seriam parte da diversidade do trabalho doméstico e a criação de dois filhos também destinados a serem pobres. Roberto era mais idoso ainda. Um doqueiro branco, calvo de cabelos brancos e bem carcamano. Os filhos eram o moleque Flavinho provável raspa do tacho e Marly, adolescente e vendedora de armarinho.

Tive do Sr. Roberto uma lembrança de que nunca pude me esquecer.

O lado da vila que se opunha ao nosso reservava também suas surpresas. O italiano baixinho Otávio , a mulher Naná e a pequena Hilda. Era a casa 2. A casa 6 teve uma senhora de nome complicado e a primeira vez que ouvi não pude conter uma risada. A senhora abanando-se num grande leque dizia chamar-se Simodocéia. Passamos a chama-la de “Doce macaca” por óbvios motivos. Moleques são crueis.

A “Doce macaca” morava sozinha e tinha uma secretária, uma mulata bonita e vistosa que recebia a noitinha o namorado, um jogador do S.F.Clube   de nome Durval e que foi uma das estrelas do seu tempo ao lado de Jair, Pagão Pelé e Pepe.

Fomos a uma matinê do Cine Atlântico. Meus colegas foram comigo assistir “Johnny Guittar”[ii]. Saimos da sala e nos deparamos com Dorval e Pelé sentados na fileira do meio.

Dª Simodocéia faleceu e deixou-me um livro de poesias de Fernando Pessoa. Gostava muito de mim apesar dos aprontos com ela do qual nunca teve conhecimento. Lembro bem de um deles, que aliás foi muito perigoso.  Eramos fascinados pela idéia fixa de produzir ácido sulfúrico, nem sei bem porque.Entretanto o mesmo é difícil de ser sintetizado e valiam as tentativas de ação .esta tentativa sobre os ladrilhos da cozinha, da casa dela e os mesmo começaram a corroer. Fugimos correndo e ningu.em descobriu os autores da “obra”

E as xícaras de chá que trocávamos com as xícaras da vizinha ?” Bom na verdade era só uma brincadeira. A vizinha do 10 era uma mulher gritona e o maridão um médico muito chato. O filho Helinho um moleque malcriado cuja principal diversão era jogar objetos da  casa como relógios e talheres na privada e dar a descarga..

A mãe enviuvou e mudou-se com o Helinho e doou todos os livros de Medicina do Dr. Hélio para meus pais. Achava que como eram do ramo de Farmácia aproveitariam os livros.

O Mercury Theater On The Air, um programa de Orson Weles fez a transmissão radiofônica do romance “A guerra dos mundos” de H.G.Wells causando medo e pânico na Costa Leste dps Estados Unidos. Foi em 30 de Outubro de 1938.

A rede de rádio CBS (Columbia Broadcasting System) interrompeu a sua  programação musical noticiando uma  invasão de alienígenas marcianos.  

As irmãs Valquíria e Serafina eram duas alem-as fortes e idosos que moravam no apartamento 8 superior que se acessava pelas escadas. Nós vizinhos frequentávamos algumas noites a casa das irmãs na qualidade de televizinhos. Era comum na época que algumas famílias que já tinham um aparelho de televisão, muito caro e dispendioso ainda, convidassem os menos favorecidos, isto é, que não tinham o aparelho para assistir os programas nos canais existentes que eram poucos[iii]. Havia programas atrativos dirigidos a reunião familiar como “Alô doçura”, Sítio do Picapau e Almoço com as Estrelas. Muitos seriados americanos conhecidos como “enlatados” e talkie shows como Silveira Sampaio.

Sebastian era um homem de idade indefinida,poderia ter 30, 40 ou mais anos de idade que se apresentava sempre de roupas escurss e casaco de couro preto. Nunca dizia nada e saia todas as noites. Nunca nos disse um boa noite. Era irmão das alemãs e tinha uma grande motocicleta saindo a nossa chegada.

Certa noite as alemãs bateram em nossa porta muito assustadas e nos levaram as pressas para sua casa.

-Queremos que vejam isso !!!

A tela de tubo da TV  24’ mostrava em branco e preto dois homens vestidos de bata, algo impensável na época, e numa espécie de cabine de ponte de comanda onde faiscavam luzes piscantes e reluzentes.

Um dos homens, o mais velho, falava em voz grave e melíflua. Sizia estar ali para dar um ultimatum ao povo da terra pelos seus graves erros de guerra e ódio cometidos.

Diziam estarem a 50 000 Km da superfície da terra e que nossos cientistas poderiam localiza-los apontando seus telescópios para as coordenadas que iam citar.

As alemães estavam tão assustadas que falavam em alemão entre si. O discurso prosseguia com ameaças.

-Nós estavamos vendo o Reporter Esso e de repente entrou essa transmissão....

Elas se acalmaram e depois de uns cinco minutos a explicação necessaria chegou. A série futurística televisiva Lever no Espaço estreava naquela semana patriocinada é claro pelo sabonete Lever. Dizenm alguns especialistas do suspense que tal coisa poderia acontecer inclusive na era do FaceBook. Não há tanta gente que acredita em tanta coisa?

Uma credulidade e uma ingenuidade própria e inerente aqueles anos mágicos e inocentes. Tudo naquela Vila suburbana e inquieta de Saint Mary Meeds.

FIM

 



[i] Agatha Christie-O assassinato de Roger Acroyd.

[ii] Filme clássico de  Faroeste com Joan Crawford (1954)

[iii] A PRF-3 TV Tupi foi inaugurada em 10/09/1950 e a TV Record em 1951

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