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Lux Aeterna
Lux Aeterna





Vicenzo leu pela enésima vez a carta recebida do Britsh Museam. Redigida com uma certa pomposidade. O trecho que decorara dizia

Do Sr. Dr. Diretor da Curadoria do British Museam of H.M. Requests
Russel Sq. WC1 London – UK
Para o Sr. Dr. Vicenzo BonGiovanni
London University – Candem Town
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(...) É com imensa satisfação que comunicamos o envio da tela recém descoberta nas escavações de StoneHenge para que se proceda a perícia necessária. Seu interesse humano e científico pela tela muito influenciou para que tomássemos esta decisão e sua larga perícia no assunto poderá levantar os detalhes da confecção que cercam esta obra do mestre.
Assim dentro de duas semanas estará chegando a Londres o referido objeto para que o senhor proceda aos testes e estudos necessários.(...)
.....................................................................     
A carta era longa e dispunha detalhes físicos e também circunstanciais que cercaram as escavações, detalhes esses que Vicenzo conhecia bem pois estivera acompanhando parte do processo.
Agora ali estava ele face a face com o mistério. A tela colocada  sobre a campânula de vidro na sala totalmente anti-séptica. A campânula repousava agora sobre uma comprida bancada de mármore repleta de instrumentos. A bancada acompanhava toda a extensão da parede do laboratório onde várias prateleiras sucediam-se comportando toda a espécie de vidros e substâncias devidamente rotuladas; No lado oposto um microscópio eletrônico de pequeno porte, junto com um espectógrafo de massa.
A enorme mesa retangular ao centro do aposento era a sua mesa de trabalho ou pelo menos Vicenzo assim o acreditava. Pilhas de livros, listagens e rascunho de anotações e alguns recipientes repletos de canetas e lápis esparramavam-se sem ordem aparente sobre todo o tampo da mesa.
Sentado numa poltrona giratória e ampla de couro Vicenzo tornava a tirar os óculos, coçar as vistas com as palmas das mãos e recolocar os óculos num gesto que lhe era característico. Observou a pintura na tela e lembrou de StoneHenge. Pensou quase com respeito naquela estrutura de megálitos que conhecia tão bem. Estivera várias vezes lá.     A primeira vez fora no solstício de verão no dia 21 de Junho, quando milhares de pessoas chegam de todas as partes do mundo para ver o deslumbrante espetáculo do nascer do sol. Quando a bola vermelha do sol aparece no horizonte ela parece estar suspensa sobre a Pedra do Calcanhar, quando vista do centro do circulo de megálitos que forma StoneHenge. Mistérios de 3000 anos. A procura da energia telúrica. Haviam outros lugares onde estivera como o Castelo de Brodgar na Escócia ou o Altar do Druida na Irlanda, mas StoneHenge era fantástico. Estava ali a cerca de 150 quilômetros daquele laboratório.     Fora ver uns amigos em Salisbury. Estavam em febril atividade nas escavações e eram de Florença como ele. A amizade e o interesse científico os ligara embora ao contrário deles já estivesse a muitos anos na Inglaterra. Tornara-se espiritualista e cidadão do mundo.
Lembrou as expressões alegres e excitadas de Rafaello e Angelo quando lhe mostraram a tela encontrada na urna de madeira. Tinham razão seus amigos. Era impressionante a face da jovem. Uma face de anjo modelada num olhar que era sublime. Sim, era isso mesmo. Sublime. O olhar era doçura e simplicidade. A tela o fascinara e apaixonara-se por


ela desde que a vira naquela ocasião. Algo marcara indelevelmente a sua visão.     Fechara os olhos focalizando a mente na Virgem dos Rochedos do mestre. O renascentista Leonardo pintara aquela obra baseado no Animismo que ele tanto defendeu em seus escritos. Afirmava que a Terra tinha vida e os rios caudalosos e fortes eram as artérias da pulsação desta vida, as marés a respiração desta vida e os vulcões a sua manifestação. Os animais, as plantas, o homem e mesmo as pedras tem o mesmo princípio espiritual da alma que anima a Terra. A manifestação da energia telúrica presente na vida. Vida que dissecara e estudara com minúcias e detalhes.
A Virgem dos Rochedos surge de um meio irreal como se tudo ao seu redor tivesse uma vibração espiritual. Os contornos são fátuos, desvanecentes e vibram como se estivessem em outra dimensão e irradiassem luz própria. A luz que anima o espírito proveniente da energia vital dos mundos.
A madona de StoneHenge era tudo isso porém tinha algo mais. Sua intuição dispensaria a investigação de autenticidade muito embora soubesse que bem poucas obras do mestre eram confirmadamente autênticas. O mestre da aldeia Vinci deixara muitas obras inacabadas e o seu processo de criação era conhecido dos especialistas. Manifestara afoitamente o desejo de pesquisar a autenticidade movido pelo desejo de conviver mais tempo com aquele tesouro do artífice genial da pintura.
O seu desejo foi atendido. Os amigos convenceram a Curadoria do Museu que o italiano, nome renomado de pesquisador, daria tratamento preciso a questão de levantar a verdade sobre aquela tela. A carta chegou a suas mãos haviam seis meses e desde aquela ocasião acampara naquele laboratório onde as vezes só ia até a janela olhar o verde do Hyde Park. O sol refulgia entretanto no vermelho das cabinas telefônicas e ele voltava para a mesa.
A madona continuava lá desafiadoramente. Já perdera a conta dos testes de C-14 que aplicara. A autenticidade era para ele agora um ponto secundário. O importante era algo intangível, uma sensação indefinida que não conseguia explicar naquela luz que emanava forte em suas retinas e não o abandonava. Impossível definir o que existia por trás daquela luz inundando a tela numa forma que lhe arranhava o âmago de suas emoções. Dia após dia vasculhava os recônditos de sua memória em busca do fio condutor daquele mistério que para ele começava a cerca-lo, acompanha-lo em todos os momentos, mesmo quando fechava tudo e deixava o prédio da Universidade e se dirigia para o pequeno apartamento onde residia.
Sentava-se na poltrona e continuava a pensar sem parar. Quase não falava com a esposa e a filha. O cientista pensava no homem que tivera tantas artes e profissões que quase não conseguia lembrar. O engenheiro que projetara e construíra o sistema de irrigação de Milão. O médico que escrevera o primeiro tratado de anatomia. Geólogo, cartógrafo, precursor da aviação e tantas outras atividades. Desenhos e plantas nunca compreendidas e desvendadas, quanto haveria ainda para ser descoberto. Sobretudo artista. Dominando ângulos, refrações, a perfeita dosagem dos matizes capazes de nos deixar sem palavras.
Havia alguma coisa. Parecia pairar em sua memória mas a rede neural não ajudava. Algo que não poderia estar ali. Desconhecido do espírito humano mas intimo de Leonardo. Tinha a consciência de que passara por seu conhecimento e sua ciência. Isto incomodava seu espírito inquieto. A busca da verdade, a paixão pela descoberta da chave do enigma. O código deixado por um genoma claramente acima dos homens do seu tempo. Acima do século quinze e deixado no centro de um mistério que não foi esclarecido até hoje. Um mistério dentro do outro. Vicenzo olhou para a mesinha ao lado da sua poltrona favorita.
O convite para a conferência que a filha assistira de manhã. O acesso quase febril de euforia explodiu como uma bomba em seu cérebro. Onde será que havia uma ? Tinha certeza que havia pelo menos uma. Levantou-se e postou-se em frente a estante. Olhou livro por livro lendo o título das lombadas até encontrar o que procurava. Era o volume 4. Colocou o livro sob o braço, precipitou-se para a porta e fez sinal para um taxi preto que passava mandando seguir para a Universidade de Londres.
No banco traseiro, Vicenzo remexia febrilmente os seus papéis que colocara apressadamente na pasta preta. Abriu o livro e o convite branco caiu ao chão. Olhou-o e releu. Sim, era isto, só podia ser. Tantos meses estivera a frente do mistério e não o enxergara. Lembrou de seus inúmeros testes, verificando a densidade das tintas, medindo ângulos de refração; O espírito do gênio devia estar ali dando gargalhadas de seus esforços  e de sua percepção embotada pela tecnologia que ele havia dominado com a sua simplicidade. Talvez até criptografada nos seus manuscritos pela sua habilidade de ambidestro.


Só percebeu que havia chegado quando o motorista parou frente ao vetusto edifício de tijolos vermelhos com fachada vitoriana. Arremeteu pela escada em direção ao laboratório. Tinha que vê-la com outros olhos agora. Tinha que vê-la com os olhos da verdade. Tirou o pano que cobria a tela da madona de StoneHenge. A luz inundou-lhe os olhos e ele sentou-se a poltrona e abriu o livro que trazia sob o braço marcada pelo convite da filha que dizia : “A conquista do espaço para a humanidade”.  Conferencia do x-astronauta Michael Collins. O livro estampava a figura humana iluminada de Buzz Aldrin fotografada pela poderosa lente de uma Hasselblad de uma maneira que ser humano algum fora iluminado antes.  




 

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