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O mentiroso
O mentiroso

O mentiroso

Quem conheceu Kalil Kalef garante. Nunca conheci ninguém que fosse tão mentiroso como ele. Contemporâneo do Colegial. Já na época sua fama era grande e mesmo entre os que se proclamavam amigos não lhe davam nenhum crédito.

Contador de patranhas e mutretas, enrolador e enganador não se constrangia em colocar os colegas de cúmplices em suas mentiras e histórias fantásticas. Certa ocasião fomos estudar em sua casa. Alguns colegas e eu que estudávamos para prestar o vestibular. Durante o estudo tocaram a campainha e Kalef viu de quem se tratava pelo olho mágico. Voltou até a mesa e falou: ‘Escondam todos os livros. Vai entrar uma pessoa que pensa que estou no terceiro ano de Medicina.’ A pessoa entrou. Fomos apresentados como colegas da Medicina. A mentira monumental de Kalef, entretanto foi a que armou pata a Cidinha.

Uma história triste e dolorosa.que todos os que o conheceram lembram cabisbaixos e até envergonhados por ele. Cidinha era uma moça bonita, amável e criada junto à família de classe média, com poucos recursos que lhe deu uma educação fina e honesta, Caseira e recatada era a típica moça de família, como era costume dizer, criada para ser uma esposa e mãe.

Cidinha era apaixonada pelo Kalef, a quem tinha na conta de um príncipe encantado que tivera muita sorte em conhecer. O namoro era em casa, no portão ou na sala em contacto com a família que também apreciava Kalef. O máximo que Cidinha tinha de contacto do mundo exterior era o Conservatório e algumas amigas íntimas e confidentes que também conheciam Kalef.

Kalef já fracassara duas ou três vezes no vestibular. Não que fosse burro ou algo assim. Muito pelo contrário, Kalef era inteligente, porém displicente, vagabundo e autoconfiante. Achava que tudo poderia. Arrogante e machista não admitia ser superado ou deixado para trás e foi ocultando sua condição de estudante sem rumo e sem curso. Junto à família de Cidinha apresentava-se como formando em Medicina pela Universidade de São Paulo.

Kalef mantinha esta situação graças à credulidade de Cidinha e também a uma verbosidade e eloquência que convencia e encantava, Discorria sobre casos ocorridos na Residência médica inexistente. Apresentava-se muita vez de branco portando uma maleta preta de couro carregando livros de Medicina. Tudo emprestado, de amigos, bibliotecas e qualquer meio que dispusesse. Garatujava receitas e diagnósticos para vizinhos de Cidinha. O caso entretanto virou uma bola de neve. Cresceu e vazou para os amigos e circunstantes, Todos, menos Cidinha e os pais.

Completaram-se 10 anos e começaram a haver pressões, pois a irmã mais nova de Cidinha estava noiva. As amigas que já sabiam da história a olhavam com pena e ninguém tinha coragem de dizer nada. Kalef após sucessivos fracassos continuava em farras que eram justificadas em ausências para cumprir a residência. Passou a dizer que estava comprando um apartamento e que se casariam naquele ano. A sua mentira teve tal requinte que chegou a levar Cidinha para ver um apartamento vazio de um conhecido que havia adquirido há pouco tempo.

Santoro era o vizinho de Cidinha, o amigo irmão que nada pede e que da infância a adolescência acalentara a ideia de um dia casar-se com ela. A princípio aceitara Kalef, mas depois que se dera conta da perfídia engendrada sabe-se lá porque causa fosse, passou ao desespero de ver Cidinha enredada daquele jeito. Foi finalmente Santoro que a despeito do aviso dos amigos e amigas que resolveu abrir os olhos de Cidinha. A gota d’água foi quando Cidinha veio anunciar ao amigo de infância a data do casamento. Santoro chorou como uma criança. Foi um choro lento, prolongado que Cidinha atônita a sua frente não entendia. Tomou-lhe a mão e levou-a para o velho carrinho estacionado em frente a suas casas. Levou-a ao apartamento “comprado” por Kalef. Depois a levou ao bar onde de longe Cidinha viu Kalef em uma mesa a beber com amigos quando devia estar na residência. O golpe veio mesmo quando Santoro colocou Cidinha frente a frente com a mãe de Kalef que não conhecia. A velha senhora nunca endossara as maluquices do filho e contou simplesmente toda a verdade. Cidinha ouviu tudo sem uma só palavra, Apenas a beijou e foi-se com Santoro. Surpreendentemente estava reagindo bem. Existia uma Cidinha que os outros não conheciam. Talvez nem ela mesma. Kalef não voltou a procurar Cidinha. Ninguém mais voltou a falar em Kalef. Parecia que ele não existia, nunca existira, Parecia que não haviam decorrido 11 anos e o nome de Kalef não voltou a ser pronunciado naquela casa. Virou um folclore, uma lenda urbana para Cidinha e suas amigas. Casou-se com Santoro é claro.

 

 

 

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