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O poderoso guarda da esquina
O poderoso guarda da esquina

 

 

O PODEROSO GUARDA DA ESQUINA

Diz uma lenda urbana que na reunião ministerial do Gal. Artur da Costa e Silva efetuada para referendar o AI-5 o então Vice-Presidente Pedro Aleixo foi questionado da seguinte maneira ao recusar-se a assinar o documento. ‘Vossa excelência duvida da lisura do Sr. Presidente na aplicação da lei exposta neste documento?‘ Arguiu o Ministro Gama e Silva, autor da mesma e conhecido pelo seu famoso jargão ‘nada a declarar’ com o qual blindou e brindou todo e qualquer pronunciamento nas ocasiões em que foi questionado pela imprensa. Pedro Aleixo respondeu simplesmente. ‘Não duvido da lisura do Sr. Presidente. Tenho medo do guarda da esquina a sombra desta lei'. Pois é. Deu no que deu. Foi muito tempo mais tarde que voltei a lembrar-me do guarda da esquina.

Durante a década de 70, em pleno auge da ditadura, trabalhei por alguns anos em uma empresa estatal de telecomunicações. Engenheiro, formado recentemente, ocupava um cargo iniciante em uma divisão técnica e tinha em mim o entusiasmo e a dedicação de quem pensa em contribuir para melhorar o bem-estar da sociedade,

Foi nessa ocasião que conheci, ou melhor, tomei conhecimento de Lúcio. Trabalhava com gosto e entusiasmo numa grande divisão onde havia técnicos e engenheiros, quase todos mais velhos do que eu. O chefe imediato era G, um jovem engenheiro  jovem com cerca de 30 anos e visivelmente italiano... Era um rapaz franco e amigável, que costumava estar perto de seus funcionários perguntando o que faziam e se tinham dificuldades com alguma coisa.

Havia, entretanto alguma coisa errada no ar. Uma impressão sensível de algo fora do lugar. O pessoal técnico da divisão tinha a idade média por volta de 25 anos. Alguns bem mais velhos com 60 anos ou mais e outros muito jovens recém-formados como eu. O ambiente era sério sem muito riso e nenhuma brincadeira e não demorei muito  em conhecer a razão de todo aquele comportamento circunspecto. O gerente máximo da área, superior hierárquico de G , um carioca de nome Lúcio. O seu visual era ridículo(já naquela época) com o uso daqueles paletós esportes quadriculados que pareciam ter vindo de um espetáculo circence e a figura baixa de cabeça em forma de ovo ostentando restos de cabelo espetados. A aparência entretanto enganava. O carioca sentia satisfação em gritar histericamente nos ouvidos dos seus subordinados e humilha-los com imprecações e berros a menor falha aproveitando-se do seu poder hierárquico de gerente. Suas explosões eram incertas e imprevisíveis. Poderiam começar em uma ordem não executada por qualquer razão, num número trocado em um relatório ou carta ou uma pasta não encontrada imediatamente. A torrente de palavras aumentava de volume como um tsunami sonoro e varria de roldão funcionários, idades e cargos todos varridos na mesma onda destruidora e humilhante de impropérios. Suas gritarias eram ouvidas em todo o andar do edifício que a companhia ocupava e com ele não havia diálogo. Espalhara por todo o departamento um clima de terror e os funcionários permaneciam sempre na expectativa: ‘Com quem ele irá berrar agora?’ O motivo podia ser qualquer um, do mais banal ao mais grave. Lúcio não poupava ninguém. Lá vinham os berros que eram acompanhados de um sarcástico Dotorrr com um arrastado “r” carioca. Todos assistiam mudos e aterrorizados.

Tratando com elementos que não lhe eram subordinados ou não pertencentes a empresa o seu tom tornava-se cordial, afável, amistoso até. Precisando de alguém de quem dependia ou de uma autoridade superior numa linguagem sussurrada a meias palavras Lúcio era capaz de lamber o chão para que a mesma pisasse em cima. Caso contrário era a intimidação gratuita como no caso em que arrancou uma pilha de pastas suspensas do arquivo de uma auxiliar e começou a atirá-las pelo chão.

Havia coisas folclóricas, que eram difíceis de se acreditarem num contexto civilizado normal. Em uma certa ocasião acabamos por nos reunir no apartamento de um chefe de área cuja movimentação era sempre acompanhada de perto por Lúcio e sem que tivesse sido combinado, pois fôramos ouvir  música, simplesmente começou-se a falar de Lúcio e vimos que todos tínhamos o medo atravessado na garganta como uma entubação. O medo sempre fora tão grande que só mesmo aquela reunião conseguiu trazer a tona os nossos temores em meio a uma verdadeira reunião com ares de conspiração. Todos se perguntavam o que podia ser feito para a nossa defesa, a nossa sobrevivência. Todos se perguntavam como sair de casa e vir para um trabalho em paz e sem temor. Sem receio de perder o emprego de que precisávamos tanto. Retornar aos lares como pais, avós de cabeça erguida e sem receio de abrir a boca.

Lúcio tinha um Diretor, o seu chefe, de índole tão ruim e fama pior do que a dele. Era o temido Dr. Ismael, um senhor idoso, aspecto enganoso de um padre bondoso de paróquia e que mantinha uma agenda de reuniões mensais com toda a Diretoria. Nesta reunião sempre realizada em um prédio diferente e distante do prédio onde ficávamos era exercida uma sessão de gritos e sarrafadas verbais em todos os chefes presentes que tinham que justificar os resultados não alcançados com explicações que não eram ouvidas e sempre eram ridicularizadas. O Dr. Ismael sentava-se num cadeirão no melhor estilo Dart Veggar e Lúcio numa cadeira comum propositalmente num nível abaixo dele. Um humilde funcionário da limpeza era instruído a estar muito antes no local e lustrar a cadeira de couro onde o Dr. Ismael se sentaria para dirigir o espetáculo. Os subalternos, peões que eram obrigados a tudo assistir ficavam nas cadeiras ao fundo de uma plateia muda e estática porém riam por dentro quando Lúcio quieto e em silêncio recebia as bordoadas, embora soubessem o que os esperaria no dia seguinte. A peãozada por vezes exibia uma fingida expressão de admiração quando o Dr. Ismael contava coisas para se ufanar de seu poder que lembrava bem o grande irmão e ditadores militares.  Como a de uma manhã em que chegara uma hora mais cêdo e chamara pelo seu Key System cada um dos quatro diretores seus colegas e ninguém atendera. Liguei imediatamente para o Presidente e comuniquei-lhe o fato, disse rindo muito.

O Dr. Ismael que já havia sido peão tinha peões de sua confiança , suficientemente conhecidos de todos, que funcionavam como olheiros e faziam de qualquer acontecimento que lhes parecesse uma alteração uma delação ligando na linha particular que conheciam do Dr.Ismael. Foi assim que ele se inteirou de que as portas internas dos banheiros eram raivosamente pichadas com frases pornográficas e caricaturas de Lúcio, Um protesto que só era compreensível no ambiente que o mesmo criara. Mandou repintar todas as portas imediatamente. Atemorizados pelo ocorrido os chefes de divisão passaram a mandar que fosse feita uma inspeção nas portas dos banheiros antes do expediente  e as frases que porventura houvessem fossem repintadas com a tinta reserva que passou a ser guardada no banheiro exclusivamente para esse fim.  O grande amigo de Lúcio era o Dr. Valdemar a quem não poupava elogios. Certa ocasião marcaram uma reunião às 6:00 h da manhã embora o expediente começasse às 8:00 m. Na hora combinada constatou-se que Maria a humilde funcionária que devia trazer alguns papéis não viera. Valdemar mandou verificar e foi informado que a mesma estava internada com meningite. Ligou no ato para o RH e mandou despedi-la. ‘Isto aqui não é INPS`, disse para Lúcio. ‘Aquele sabe o que é trabalhar´, sentenciou Lúcio para os funcionários encolhidos nas suas cadeiras.. 

Um dia Ismael teve um enfarte e foi afastado. Os funcionários exultavam pelos corredores, longe da presença de Lúcio é claro. E o tempo foi passando. Veio outra Diretoria e Lúcio foi transferido para Campinas. A alegria era tanta que alguém trouxe uma gravação da Marseillese que tocou a todo volume pelo edifício da empresa. O papel higiênico pendurado pelas janelas a guiza de serpentina testemunhavam a libertação da empresa ocupada pelo totalitarismo.

Todos estes acontecimentos só podem ter acontecido à sombra de regimes obscuros e ditatoriais como o que nós vivemos e quantos Lúcios não devem ter existido por aí. Tinha razão Maquiavel quando dizia: ‘se queres conhecer alguém dai o poder a ele’. Quanto ao Lúcio nós o encontramos um dia passeando numa Galeria na hora do almoço. Estava eu com o Pedro e o João, um negro de quase dois metros de altura. Súbito avistamos Lucio a poucos passos de nós frente às vitrines de uma loja. Pois não é que o João correu atrás dele chamando ‘vem cá seu palhaço, vou te dar uma surra’. E Lúcio fugiu como um coelho assustado. O ex-inspetor de quarteirão, o poderoso guarda da esquina reagiu fugindo correndo como um cão de rua balançando o rabo de medo por saber que não havia um sistema que o defendesse da surra que levaria. Um covarde como qualquer outro.

 

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