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O último baile
O último baile

 

Aprendi a me mover e a dançar; eu amava a música e, de repente,

queria mover pessoas segundo a música, arranjar danças.

(Balanchine)

 

Em 1963 os rapazes usavam uma pulseira de prata com o nome da namorada gravada no braço direito. Reminiscências da Segunda guerra quando os soldados americanos usavam pulseiras de identificação de prata também, material resistente a incêndios e bombas. Usava-se também fumar cigarros Marlboro ou Winston americanos vendidos nas importadoras da Rua Marcílio Dias no Gonzaga, desde que fossem acendidos com um isqueiro Zippo Legítimo. A questão toda não era muito de visual, mas sim de participar.

Naquele ano o  I.E.E.Canadá inaugurou o prédio novo. Era um grande quarteirão anexo ao velho e tradicional prédio da Rua Mato Grosso. Cheguei ao Canadá junto com aquele prédio que aprenderia a conhecer tão bem. No prédio velho e acanhado tinha a sala com apenas 20 alunos no andar superior. Deste andar se adentrava ao anfiteatro num amplo mezanino de onde se via bem o palco, a platéia e a um canto o velho piano silencioso quando não havia solenidades. Haviam salas grandes com capacidade para 50 alunos.

Havia também a Biblioteca sob o comando de uma eficiente senhora que era a mãe do Prof. Oswaldo Ally. As inspetoras de aluno, a secretaria no andar térreo... Não poderia esquecer-me da sala de desenho, onde é claro eram dadas as aulas de desenho. Alguns professores tornaram-se lendas e outros entraram para o folclore estudantil. Difícil aparecer um que não caísse nas palavras dos terríveis alunos.

Maia tinha uma voz rouca proveniente de um contínuo consumo de cigarros. O cabelo preto era cuidadosamente penteado para trás da teste encimada por um bico de viúva. As aulas de física eram ministradas com uma profusão de palavras cuja velocidade tornava difícil a transcrição. Havia, entretanto quem conseguisse. O barulho e a conversa eram constantemente chamado a atenção através do bordão "Ó moço, Ó moço, silêncio!" que os alunos tratavam de arremedar com a mesma voz rouca. E criou-se um dito: "Quem diz física diz Maia".

O Pe. Adauto era precedido pela sua fama; A sua longa batina preta e um topete rebelde que lhe caia constantemente pela testa. O rosto fazia lembrar o ator Richard Burton até a hora que ele dizia alguma coisa. Uma voz que lembrava um grasnado de pato ininteligível e que dizia coisas incompreensíveis.

Paulo Silveira era definido como louco. A conotação fora incorporada ao nome e muitos se referiam corriqueiramente a ele como o Paulo Louco. Sem dúvida tinha suas esquisitices, mas um ponto positivo era inegável em sua postura pomposa e empostada. Adorava Santos e admirava muito a cidade onde morava e na qual era professor de desenho, matéria que seria extinta anos depois.

As aulas do Paulo sempre se iniciavam com uma ferrenha discussão política em que ele criticava ferozmente a administração e para ouvi-lo um grupo se reunia numa rodinha em torno dele. Creio que seu grande mérito era defender o patrimônio histórico e cultural de Santos, num tempo em que não se dava ao mesmo muito valor ainda.

O Antônio Demóstenes de Souza Brito, ou ainda simplesmente o Brito, era muito mais que um professor de química. O conhecimento que tinha o tornara um especialista. Apesar da figura séria, sem fazer uma simples brincadeira que fosse e falar sempre com a mão na boca o que era uma característica sua, não havia quem não o quisesse como professor.

Naquela época não era usual a realização de festas e bailes em clubes. Haviam é claro as domingueiras, um evento um pouco restrito, mas como foco de atração e diversão um baile era um baile, um acontecimento social que era conhecido e esperado por uma parcela considerável de pessoas de todas as idades. Os clubes investiam em seus bailes tradicionais como o Baile da Primavera, o Baile das Debutantes, além é claro dos conhecidos bailes de formatura.

Um baile de formatura era um evento especial. Somente era possível entrar num usando smoking ou no mínimo terno preto Não se cogitava ir a um baile de formatura, até mesmo a um baile comum sem saber dançar. Assim é que na cidade havia vários cursos de dança e o objetivo era sempre o mesmo: freqüentar os bailes.

Bailes eram sempre animados por orquestras ou então conjuntos que tocavam farta coleção de seleções, todas apropriadas para a dança.

A introdução aos bailes era iniciada cedo no que era chamado simplesmente de "bailinhos".

Um Sábado à noite, uma reunião de amigos, os moveis da sala encostados em um canto, a eletrola portátil e uma pilha de LP's de vinil: estava completo o bailinho. Um bailinho era sempre familiar, como as festas de aniversário. E Sábado era o dia universal das festas de aniversário.

Festas podiam também ser de casamento e aí eram melhores ainda. As bebidas vinham em engradados de garrafas pequenas e a cerveja era comprada em barris para ser diretamente servida no sifão. Não me ocorrem os conhecidos e atuais bufês. Sempre havia uma avó ou uma eficiente pessoa de serviço que nos dias de véspera preparavam salgados e doces e até mesmo o bolo. As festas eram uma tarefa de construção e unificação familiar.

Foi no meio deste ambiente e no bojo destes acontecimentos que ao findar o ano no término de nosso colegial que Ednéia preparou o último baile que foi também a última ocasião em que estaríamos juntos antes de tomarmos um rumo diferente em nossas vidas. Ednéia era a moça de cabelos negros e olhos azuis que curtia uma paixão secreta pelo Foster, um pianista amador e ídolo das meninas. Mas na verdade namorava o Fred, um rapaz gordo, truculento e feio e que se dizia comunista. Assim o namoro da católica ferrenha Ednéia e Fred era uma contradição e uma história, quase uma lenda.

U último baile foi na casa de Ednéia na Rua Almeida Morais onde nos reunimos numa noite de Sábado em 8 de Dezembro. A lembrança literária ficou por conta do Meirelles. Ele acabara de ler O encontro marcado de Fernando Sabino e sugeriu que deveríamos nos encontrar todos os anos a 8 de Dezembro num lugar acertado agora para que lembrássemos este momento independente de marcarmos o encontro ou não.

Enquanto Meirelles falava olhei a casa ao redor.  Estávamos no jardim de entrada e não havíamos chegado a varanda. Atravessamos o andar inferior da casa e chegamos ao fundo onde o quintal era rodeado por um jardim e uma pista redonda de danças situava-se ao meio. Uma garagem desocupada ao fundo servia de área de lazer onde algumas pessoas idosas que identifiquei como avós, pais e também crianças assistiam televisão e pareciam não prestar a menor atenção na movimentação ao seu redor.

Meirelles olhava para o amor nunca assumido de sua vida. Maria do Carmo dançava com um rapaz de aspecto atlético e não franzino e magro como as pernas de Meirelles atingidas precocemente pela paralisia infantil.

Quem não dançava, bebia ou se retirava. O baile não era para se olhar. Rubens aproximou-se do muro que separava a casa da vizinha. Na escuridão da noite vinha um perfume estranho. Avistou um jardim com um caramanchão onde predominavam rosas e cravos. Uma moça acenava para ele do balanço dentro do caramanchão. Mas ele a conhecia; Sim, aquela moça, aquela mulher era "H" a mestra e professora. Então ela era vizinha de Ednéia. Agora ela se aproximara do muro e estava a sua frente. Sem saber o que dizer disse:

-Você é a professora;

-Isso mesmo. E também a feiticeira que vai te transformar no aluno.  A despedida é de vocês e ninguém deve ficar triste. Volte e dance com as meninas, vamos.

-A senhora não sabe...Eu não sei dançar nem um passo.

-Se não o fizer nunca vai saber!

 Rubens achou que era certo e voltou. Voltou ao baile de Ednéia a vizinha de "H".

Depois de tudo aquilo viria o verdadeiro encontro. Onde não haveria mais festas e bailes, mas que para quem os teve serão os últimos de uma espécie em extinção. A espécie dos sonhadores e dos apaixonados. Continuemos a dançar em uma justa homenagem ao último baile de cada um de nós.

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