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O último desenho
O último desenho

 

O ÚLTIMO DESENHO

 

È difícil de admitir, mas nunca fui bom em desenho. No colégio tinha até uma certa inveja daqueles que pareciam mais serem os profissionais da régua e do lápis e até rolou um certo stress quando disse que me tornaria um engenheiro. É verdade que havia os expoentes do desenho, como o Paulo César cujos traços perfeitos a lápis eram mais retos que os da própria régua. Havia também o Serginho, cuja única missão na vida parecia ser desenhar. Seus cadernos pareciam verdadeiros livros de desenho.  Até o "O" de Ok que ele marcava nos exercícios já feitos eram traçados com uma bailarina. Uma espécie de compasso sofisticado para desenhar minúsculas circunferências.

Eu, entretanto, achava que engenharia não era só desenho e não ligava para todas aquelas obras de arte. Preparei-me para o vestibular e estudei as técnicas do geométrico, da Perspectiva e da Descritiva nos ícones da época como o Carlos Marmo, o Ardevan Machado e o Osvaldo Ally. Apesar do meu conhecimento teórico a natureza não colaborava comigo na hora de colocar aquelas soluções mirabolantes representadas na minha frente. Havia um livro tipo apostila que vinha encadernado com mola de espiral que trazia "as 80 possíveis construções de triângulos" que iniciava sempre com as palavras Suponha o problema resolvido...Soluções engenhosas e maravilhosas que eu não conseguia absorver.

O fato é que eu passei no vestibular e estava lá na Veneranda, uma das 10 melhores do país. Logo no primeiro ano tive um embate de vida ou morte com o terrível DESTEC, o desenho técnico, para muitos dos "bichos" o supra-sumo da baba e para outros, como eu, uma batalha a ser vencida e superada o mais rápido possível.

A primeira aula foi terrível. O mestre, um baixinho chamado Dozzi era o mestre maneiroso e com voz impostada e cuidadosa logo deu a entender que as coisas não seriam fáceis. Insistiu sobre as famosas canetas de ponteiras delicadas e o famoso papel Shoeller alemão que usaríamos e que não admitia raspagens. Em um determinado momento que nos gelou o sangue perguntou:

-Sanem qual a primeira regra do desenho técnico?

-Não! Foi a resposta em coro.

-Limpeza!  Sabem qual a segunda regra do desenho técnico?

-Não! Foi a resposta em coro outra vez.

-Limpeza!  Sanem qual a terceira regra do desenho técnico?

O còro anunciou com firmeza:

-Limpeza!

-Errado! A terceira regra é o bom senso!

Como se pode sentir daí a aula foi um balde de água fria para quem achou que iria ser um passeio o DESTEC. Quem não gramasse não ia passar. Realmente foi isso o que aconteceu. O calouro teria que fazer 20 pranchas para poder fazer uma média 7 e passar. Exames eram dois, o escrito e o oral, nem pensar. A primeira prancha consistia num modelo de letras com o alfabeto tipo Times New Roman inteiro, com direito a itálico e negrito. Algo assim que qualquer Mané faria alguns anos depois com Letraset ou muitos anos depois num computador.

Lá fui eu fazer a prancha. Depois da décima tentativa e várias folhas de papel Schoeller rasgadas raivosamente o Antônio Sérgio ficou com pena de mim. Aquele mesmo Serginho, cuja única missão na vida perecia ser desenhar e que agora cursava Engenharia Mecânica.  Serginho fez em 10 minutos o que eu levaria 10 horas para fazer. Quase 90% do desenho. Desenhava enquanto conversava comigo.

-Isto é para dar um empurrãozinho. Não posso fazer o desenho todo e não posso caprichar muito porque o mestre descobriria facilmente. Ele sabe que você não sabe. Se você tiver um desenho muito complicado use o chupômetro. Mas só use em último caso. O chupômetro era um aparelho de copiar caseiro, conhecido entre os desenhistas. Existiam instrumentos profissionais como o pantógrafo, mas o chupômetro era caseiro. Basicamente era uma caixa de madeira com um vidro fosco na tampa que era uma moldura e continha no interior lâmpadas, fluorescentes de preferência porque não esquentavam muito. Sobre o vidro era colocado um desenho pronto a ser "chupado" e sobre este uma folha nova de Schoeller. O desenho pronto, geralmente de algum "bonzão" era perfeitamente visto através da luz e chupado para a folha em branco. Era necessário ter alguma habilidade com as canetas é obvio.

Tive uma nota regular, não sem antes de um olhar do Dozzi para o desenho na luz a procura de alguma assinatura de um "bonzão" raspada na folha que eu assinara. O Schoeller é praticamente impossível de ser raspado sem marcas. Os desenhos foram se complicando. O tamanho pulou de A4 para A3 e agora eram peças em perspectiva explodida que eu levava dias e noites para fazer, mesmo com o chupômetro; Ficava desesperado e consumia madrugadas de café sem dormir diante do desenho. Transformara uma mesa de quase dois metros num  gigantesco chupômetro de vidros enormes e iluminação a base de varias lâmpadas fluorescentes. Entretanto a manipulação das temidas canetas continuava sofrível.

A última prancha era terrível e temida. Era conhecida como "a Casa". Seu nome era dito em voz baixa e a boca pequena e aguardada com terror pelos iguais a mim. Uma planta baixa d uma casa  em formato A2 e que podia valer metade da média, esta era A Casa. Quando olhava para o pequeno modelo a ser ampliado e desenhado eu tinha consciência de que só conseguiria desenhar os vasos sanitários feitos com aqueles guias de plástico com os quais desenhávamos mapas do Brasil no curso Primário. Fui novamente apelar para o Serginho.

Ele foi muito legal comigo. Concordou em fazer a casa para ajudar. Afinal ele gostava mesmo de desenhar e mesmo com toda a sua técnica levou quase uma hora para conseguir fazer a planta. Teve o cuidado de entortar algumas linhas e deixar até pequenos borrões. Ali conversando sobre o seu projeto em Materiais para navios que pretendia usar na tese de mestrado.

Graças a Casa, consegui ser aprovado e terminar o sacrifício. O desenho do Serginho valeu.  Esta foi a minha passagem pelo DESTEC que não tinha realmente muita utilidade, pois, engenheiros não fazem desenhos e sim os lêem.

Serginho meses depois estagiando numa plataforma de petróleo em alto-mar faleceu em um acidente. Uma caldeira explodiu perto dele. A casa de meu amigo foi seu último desenho.

 

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