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Os desaparecidos
Os desaparecidos

OS DESAPARECIDOS

 


Fomos o sol e a lua,

Fomos a noite e o dia.

Fomos trevas e claridade,

Fomos pranto e alegria

Fomos riso e fomos mágoa,

Fomos sonho e realidade,

Fomos como o azeite e a água

Que não se pode juntar!

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(de Maria José Aranha de Rezende)

 

 

Acho que sou do tempo do slip. O miraculoso papelzinho, nada além de uma tira de papel com os movimentos de nossa conta bancária que dormiram de um dia para outro. Uma invenção de gênio até que surgisse o extrato, o superextrato, o complicado e o ininteligível. Tive grandes lutas com o extrato. Que ao terminar deixavam-me com imensas saudades do slip.

Considerava as cabinas telefônicas equipamentos de nível executivo. Na década de 30 eram os lugares preferidos de Clark  Kent para se transformar no Super-Homem. Os ingleses têm orgulho das suas cabinas vermelhas com grainhas e envidraçadas. Muitas viram enfeites de jardim. Os orelhões foram uma preferência nacional até a chegada do celular. Eram realmente bonitos e ajudavam até a compor um clima para uma foto como as primeiras minissaias de Twig

Quem freqüentou uma feira lembra de senhoras laboriosas negociando com os garotos no início das barracas da feira. Eram garotos que antigamente eram chamados “moleques de rua”. Calção, calças curtas e sapatos sem meia. No bolso das calças traseiro podia ser visto até um bodoque que era como eles chamavam o estilingue. Nas feiras eles traziam carrinhos feitos com tábuas de caixas de frutas que lembravam carrinhos de construção. As rodas eram de rolamentos cilindricos, as populares rolemãs, geralmente conseguidas em oficinas. Em troca de algumas moedas eles carregavam as compras nos carrinhos pela feira atrás das senhoras e se elas morassem perto ou a gorgeta fosse boa eles as levavam até as portas das residências.

Nas feiras era possível comprar-se os grandes talos de palmito, pois o mesmo ainda não era tão explorado ou industrializado. Amontoados como achas de lenhas eram levados pelas pessoas como um elemento popular das saladas. O coco era aberto e a água tomada na hora pelo comprador cansado de sua caminhada na feira sob o sol. Chamava-me a atenção o coco fibroso de cor castanho-escuro e que tinha aquela água por dentro. O coco da feira não era verde, um coco que só se popularizou mais tarde. O coco era aberto e ralado no local, mas muitas vezes levei o coco para ser ralado em cas é claroa. Não se poderia esquecer das tainhas nas barracas do pescado. As ovas eram colocadas em um saco plástico e entregues aos compradores como brinde.

Antes de tomarmos o bonde ao sairmos do colégio costumávamos rodear aquele homem idoso que junto à calçada montava uma mesa improvisada e sobre a mesma uma caixa retangular de metal com tampo de vidro. Dentro o doce mole, mas duro o suficiente para ser cortado em pedaços com uma espátula. Os pedaços de quebra-queixo eram vendidos e disputados pelos meninos que aguardavam o bonde para voltar para casa. Podiam ser comprados por um passe de bonde, mas quem provou um quebra-queixo com certeza não o esqueceu.

A tarde costumava ir com os garotos da rua que estudavam de manhã na quitanda perto de casa. Nós tomávamos então garrafas de cerejinha, pois os refrigerantes eram coisas de quitandas e mercearias. A cerejinha era o nosso predileto, aquelas garrafinhas de casco escuro e a bebida de gosto doce e suave que não esquecemos. Mais tarde já adolescentes a Crush e a Grapette substituíram a cerejinha em nossa preferência enquanto ela foi desaparecendo aos poucos. Sempre pedidas eram também as garrafinhas de choco-milk, uma bebida láctea achocolatada, cujo sabor era realmente de leite e chocolate. Tomava-se facilmente duas ou mais.

Já em grupo passamos a ir ao Centro da cidade. A grande aventura era chegar lá equilibrado no estribo de um bonde agarrado a um balaústre. O vento batia no rosto e o movimento reforçava uma sensação de liberdade. O nosso objetivo era a loja Musical onde pilhas de vinil de 80 e 33 rpm constituíam nosso comum objeto de desejo. Creio, entretanto que a diversão maior era conseguirmos entrar em 3. 4 ou até cinco garotos em uma cabina de provas onde um prato de eletrola garantia horas de diversão onde escutávamos nossos ídolos em um volume insuportável aos ouvidos de qualquer pessoa. Sempre havia um que enchia a cabina de espessas camadas de fumo de cigarro tudo em meio a grandes risadas.

Algumas vezes costumava ainda passar pela Praça dos Andradas. Imensas árvores em cujos galhos as preguiças repousavam indiferentes a curiosidade do povo que apontava seus movimentos lentos e descuidados enroscadas nas mais altos forquilhas e em meio ao cipoal imenso e retorcido dos antigos abrigos naturais. O passeio abaixo era ocupado em três ou quatro pontos por lambe-lambes com aquela máquina grande que trazia acoplada a câmara de madeira. Dispostas sob a caixa embaixo de vidros dezenas de fotos sempre com o cenário da praça. Uma grande capa preta presa à caixa era o complemento para encobrir o bravo fotografo no seu trabalho de revelação das chapas e confecção das fotos dentro da caixa. Um verdadeiro laboratório ao ar livre. Uma atmosfera que atravessou décadas sem se incomodar com os estúdios.

Depois era tomar um dos bondes abertos que se enrodilhavam pela Praça Mauá e retornar para casa. Esperávamos a partida, sentados nos bancos da praça, enquanto funcionários de quepe e uniforme cáqui passavam graxa com um bastão sobre os trilhos que se entremeavam pelas vias que formavam o logradouro.

Costumava descer quase em frente à Estação Sorocabana e seguir a pé pela Av. Francisco Glicério. O Salão Sorocabana ficava próximo a Av. Ana Costa. Quatro cadeiras giratórias dispostas em frente a um espelho que ocupava toda a parede lateral demonstravam o cuidado e o esmero de homens de avental branco impecável. O cheiro inconfundível de brilhantina e loção de barba evocava aquele trabalho realizado com cuidado que era efetuar cortes esmerados e barbas efetuadas com navalhas e tesouras esterilizadas. Tinha já uma preferência por um senhor que cortava o cabelo com muito cuidado e ar compenetrado, indicado por meu pai. Gostava da posição da cadeira próxima a rua onde observava o vai e vem do ponto de táxi próximo onde se formava uma fila de Buicks, Nashs, Morris e Plymouths, cuidadosamente lavados e encerados. Os chofêres como eram chamados, sentavam-se ao volante e aguardavam a chamada no telefone público do ponto.

No caminho pelas ruas era fácil de se perceber as horas pelas cadeiras postadas na calçadas em frente às casas. O calor trazia as pessoas para fora e a conversa entre os vizinhos começava logo ao anoitecer. O perfume do jasmim provinha de alguns jardins e a admiração do céu limpo e estrelado tirava as pessoas defronte aos aparelhos de rádio. Sem que percebessemos o que desaparecia e se transformava em palavras

 

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