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Outono em Santos
Outono em Santos

Se você lembra então é porque não estava lá.

(Anônimo a propósito de Maio de 68)

 

Foi durante o mês de maio de 1968. Um outono santista e uma primavera parisiense. O ar não era ainda tão sufocante e  não havia queixas sobre a destruição da camada de ozônio. Caminhava pelo passeio da Ana Costa em direção a Praça Independência no trecho conhecido por Cinelândia, assim chamado por reunir em um só lugar e com muita proximidade os cinemas santistas.  A avenida estava repleta e efervescente de pessoas que terminada a soirée iam para os restaurantes e confeitarias da praça. Era parte integrante da soirée. Ninguém chamava a sessões noturnas a não ser por este nome. Os cinemas faziam quatro sessões. Duas delas eram à tarde e eram chamadas de matineés e duas noturnas que eram as soirées. Os jornais e revistas referiam-se a elas por estes nomes.

Na praça a multidão reunia-se com o público que deixava o cine Atlântico em frente ao casarão da viúva Douglas ao lado do posto de gasolina. Não sei bem se o nome da viúva era esse. Na verdade nem sei mesmo se ela era viúva, mas meu pai referia-se a ela deste jeito e para mim ela era e sempre seria a viúva Douglas.

Eram os dois marcos de entrada na praça, como se fossem duas torres, como se fossem as colunas de Hércules do Colosso de Rodes. E lá no meio da praça redonda cercada pelo círculo das linhas do bonde 10, pela passagem do 2, do 42, do 39 e as estatuas dos patriarcas da independência a observar a turma de gente impaciente sentada nos bancos de pedra à espera do apito do cobrador para o motorneiro anunciando o inicio da viagem.

No lado oposto ao cine Atlântico ocupando toda a esquina a suntuosa Confeitaria Yara onde o povo certamente iria parar para tomar um sorvete que era fabricado ali mesmo ou então talvez comer um bauru, aquele estranho sanduíche que vinha quente e dourado de manteiga com presunto e queijo derretido por dentro.

A escolha às vezes podia recair sobre o Six do outro lado da praça debaixo do edifício Independência. Esta era uma das minhas escolhas favoritas após dar uma espiada na pequena lojinha de revistas Martins Fontes. O que eu mais apreciava  do Six não era aquele sanduíche novo: o cheesehamburguer. Era o Hot Dog. Um grande pão comprido como o que nos víamos nos drive-ins exibidos nas telas de cinema, que vinha com uma grande salsicha dentro brilhante de manteiga num invólucro que lembrava uma canoa. O sanduíche era rodeado de rodelas de batatas fritas diferentes em consistência e sabor daquelas que comíamos em casa.  Tudo isto era saboreado em pé junto a pequenos aparadores ornamentados por espelhos, enquanto em frente observava-se o movimento da viação Cometa para São Paulo no edifício assobradado que a estação ocupava na esquina da Rua Galeão Carvalhal, ou então a passagem pela praça do preguiçoso bonde 2 no rumo de São Vicente.

Se o Six era a parada obrigatória após as soirées, o restaurante São Paulo, ao lado da pequena Martins Fontes, finaliza os bailes após clubes da Ponta da Praia porque varava a madrugada e podia oferecer uma refeição as 5:00 h da manhã.

Foi vindo do Cometa que encontrei  A... que não via há algum tempo. Atravessamos a praça em direção ao Café Atlântico fronte ao parque Balneário. Todo encontro era selado com um café de coador tomado no Café Atlântico servido por garçonetes de Branco em balcões onde se encostavam rodas masculinas falando alto e relatando casos que nem sempre haviam acontecido.  Desde menino que eu vinha àquele café onde admirava as paisagens representando fazendas, pés de café e obreiros imigrantes em desenhos castanhos numa grande gama de tons eternamente gravados nos azulejos de tom creme ao redor das paredes quentes e fumacentas do vapor d'água. Não se bebia ainda o café cremoso como era chamado o café expresso de máquina.

Enquanto A... e eu saboreávamos o café fumegante meu olhar vagava pela parede a procura daquele mostruário de grãos de café e de frutos com complexas explicações sobre tipo, peso e espécies. Aquilo sempre chamou a atenção da minha infância e alimentei uma vontade de ter um daqueles. Mostruários representantes de uma idade de ouro que passara.

Saímos  A... e eu  do café.  A noite estava cumprida e fomos para o centro da praça caminhando pelas calçadas do café em passos preguiçosos olhando a imponência do Parque Balneário no alto de suas escadarias de mármore.

A livraria Atlântica estava aberta, como de costume, pois fechava tarde da noite, ao lado da engraxeteria e barbearia onde homens se espalhavam em cadeiras giratórias desperdiçando fumo e conversa com prestimosos e prestativos engraxates, Creio que o serviço era mais de relax do que de graxa,

Nossos olhos, entretanto prendiam-se na pequena multidão na entrada da pequena livraria e  revistaria. Na entrada da porta principal em grandes tablóides de madeira verde estava colada a manchete da edição mais recente do jornal em sua Edição Extra ou Edição Noturna.

Paramos em frente ao tablóide e olhamos fascinados a manchete em letras garrafais dançando contra o fundo branco. Os braços caídos ao longo do corpo e as pernas trêmulas estávamos mudos arrebatados pelo turbilhão de pensamentos acendidos por aquela frase de apenas três letras: "A FRANÇA PARADA". Entre o texto numa foto grande vultos negros de operários e estudantes sentados numa barricada  erguida no meio do Boulevard Saint Michel com tambores de gasolina e "pavês", aqueles paralelepípedos quadradinhos como os que existem nas ruas do Marapé, aguardavam com ansiedade a palavra de "Danny le Rouge", o jovem líder estudantil emergido da Sorbonne e futuro aluno do Senador Fernando Henrique Cardoso.

Junto com a multidão emudecida, os braços pendentes ao longo do corpo mergulhamos com estupor naquele instante único e singular, que marcava nossas vidas como uma realidade concreta e inarredável, como se fossem arranhões inevitáveis na superfície do vinil, parte integrante da fluidez doce e agradável da música. Ainda que fosse um instante, um átimo nós tivéramos o mundo nas mãos e nada que houvesse acontecido antes ou depois daquele acontecimento mudaria aquilo que para sempre ficaria gravado e arranhado em nossas vidas. Talvez como os inevitáveis arranhões no vinil ou como a voz em off do câmera man para o companheiro em "medium cool" - Cuidado Wexell, isto é real! Quem lembrasse disso é porque não estivera lá, naquela noite  que ficou  em algum espaço e tempo de um outono santista. Era primavera em Paris.


 

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