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Poliopticon
Poliopticon

Que criança não aguarda o Natal com o coração aos sobressaltos, a pergunta aflita da espera suspensa dos lábios e a alegria nos olhos inquietos? Pressentia mais que sabia da dificuldade velada para receber presentes e poucas vezes pedia algo especial.

Sem a influência impiedosa da TV e da mídia escultura do desejo ocasiões houve em que nem me tocava a idéia de pedir um brinquedo a papai Noel. Lembro-me pequeno, usando calças curtas azuis, levado pela mão de meu pai, fomos até a fonte luminosa como era conhecida a fonte 9 de julho. Papai Noel desceu de um helicóptero e carregava um saco de lona verde sobre os ombros. O peso devia ser grande, pois suas costas vergavam ao peso do saco de brinquedos e eu infantilmente também me vergara procurando imitar ao bom velhinho por pura solidariedade. Sentado na mureta da fonte recebi de suas mãos alguma coisa embrulhada num papel azul escuro. Abri o presente ali mesmo. Jamais me esqueci do cofrinho amarelo de louça em forma de barril que guardei durante muito tempo.

Houve é claro aquela outra vez em que eu o vi. Ele bateu na porta da cozinha que dava para uma área de serviço nos fundos da casa da pequena vila onde morávamos. Olhei surpreso e temeroso para aquela figura alta com um pesado casaco vermelho e calças idem. Até barbas brancas e botas pretas ele tinha. Entregou-me uma caixa com um laço enfeitado, mas acho que esqueci o que ganhei. A sua imagem ficou mais forte e acompanhou-me.

A cesta da admiradora foi outra surpresa. Uma cesta de natal, muito em voga na época, com bolos, doces, geléias, frutas secas de Natal e até uma garrafa de champanhe. Quem a teria me enviado? Lembro-me de meus pais sorrindo disfarçadamente enquanto eu lia o cartão “misterioso”: Para o Rafael, de uma admiradora. Obrigado papai pelo seu carinho. Obrigado mamãe. Nunca estive uma criança tão importante.

O Natal também tomou a forma de um cavalinho branco que trazia pendurados no pescoço sacos de balas de coco. Eu o carregava e empurrava pela casa inteira até que o mesmo partiu-se. Era feito de papelão e foi meu companheiro constante de aventuras e nunca teve uma queixa.

Creio que tomei conhecimento do Poliopticon através de um anúncio de jornal. Raramente o jornal me atraía a atenção, muito embora eu fosse capaz de ler desde os 5 anos de idade. Era um anúncio minúsculo das Lojas Kauffman e trazia um desenho - Conjunto de peças básicas e lentes para a montagem de mais de 40 aparelhos entre lupas, microscópios, telescópios, lunetas astronômicas, lunetas terrestres e binóculos. Definitivamente um prato cheio para um garoto que começava a descobrir o universo, o reino animal e vegetal. O Tesouro da Juventude e o Lello Universal tinham sido grandes escolas. Concorreriam folgadamente com os meus primeiros conhecimentos vindos dos bancos escolares. O Poliopticon era uma maravilha tecnológica para alguém que desejava investigar o universo. Assim passei a desejar que o Papai Noel me trouxesse aquele conjunto que era tão útil à pesquisa e a investigação científica.

Sonhei por muito tempo com o Poliopticon. Dezembro se aproximava e com ele o Natal. Lembro-me de nós. Meus pais minha irmã e eu saindo da Vila onde morávamos para dar um passeio enquanto aguardávamos a hora da ceia. Tudo muito tranqüilo e muito quieto. Minha mãe precisou voltar, pois disse não estar passando muito bem e queria tomar um copo de água. Na rua íamos olhando as casas iluminadas com muitas pessoas e risos. Algumas exibiam nos seus alpendres árvores de Natal, quase sempre de pinheiros naturais, com bolas coloridas cobertas por luzes pisca-pisca.

Mamãe costumava colocar uma ceia simples, mas diferente dos dias comuns e sempre havia um peru que a avó fazia e pasteis de forno recheados de camarão que papai gostava muito. Nosso refrigerante predileto era garrafas de cerejinha estrategicamente distribuídas pela mesa.

Encontrei o presente embrulhado em papel azul colocado no pé da cama e agradeci a Papai Noel enquanto abria a caixa com formato de uma pasta de escritório com tamanho aproximado de 50 cm por 30 cm. O fechamento era uma aba com colchetes metálicos. O interior do Poli eram divisórias de papelão cor de abóbora com as peças cuidadosamente distribuídas. Havia cerca de 20 lentes de varias  espessuras e diâmetros. O que equivale a poliopticonvárias distâncias focais, tubos metálicos,  conexões, cotovelos, mesa giratória, um prisma de Fresnel, articulações mecânicas e outras coisa de que não lembro. O manual fartamente ilustrado mostrava em linguagem detalhada como montar lupas, microscópios, telescópios, lunetas terrestres e astronômicas e instrumentos  que não mais me ocorrem.

O Poliopticon acompanhou os sonhos de uma criança a observar a Lua, Marte, Vênus, o Horizonte terrestre, fungos e células do sangue. Cada instrumento montado e desmontado tantas vezes que era possível dispensar o manual. Raros eram os dias em que o Poliopticon não era usado. Algumas vezes eu o levava para o colégio e até para a praia-era possível construir-se um periscópio.

A Física Clássica se apóia sobre três pilares: as 1º e 2º leis de Newton: as equações de Maxwell do eletromagnetismo; e a 1° e a 2° leis da Termodinâmica. Tornei-me um físico teórico e assim aprendi como estão organizadas as leis do Universo. Um dia, entretanto agradeci a Papai Noel por ter me colocado uma ponta do conhecimento nas mãos. Hoje agradeço a papai, pois sei o quanto te deve ter custado pai ter se privado de coisas necessárias e ter efetuado dívidas  para que eu continuasse a ter meus sonhos. Foi o que pensei hoje vendo o Poliopticon tão caro para mim com algumas lentes quebradas e o papelão mofado e corroído pelo tempo. Os sonhos graças a você continuam vivos como você os inspirou.

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