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Quero falar com alguem
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QUERO FALAR COM ALGUÉM

 

João chegou  em cima da hora e subiu as escadas olhando no relógio que marcava impiedosamente 07:59. Ficara estudando e se distraíra com a hora. Depois fora o ônibus apinhado de gente que se arrastava devagarzinho no trânsito. Estava tão preocupado com as provas da faculdade de Medicina, mas considerava aquele trabalho voluntário  algo tão importante que pensaria em deixa-lo enquanto tivesse algum tempo para dedicar  Um médico precisa saber lidar com os problemas existenciais dos pacientes pensava.

João entrou na sala onde havia duas pessoas ao telefone que lhe acenaram discretamente. Sentou o corpo atlético em uma cadeira giratória diante de uma mesinha com um telefone e um bloco de anotações. Vestia uma camiseta branca e calças também brancas num contraste com a pele negra. Depositou alguns livros na mesa e olhou para e  telefone mudo na sua frente.

A campainha soou alto. Atendeu ao telefone e falou:

-CVV, boa noite, posso ajudar?

*  *  *  *  * 

 

Stela levantou-se devagar e sentou-se na cama afastando as cobertas. A cabeça pesava-lhe sobre os ombros frágeis e sentia uma enorme vontade de continuar a dormir. O sonho tinha sido tão cheio de sensações. A realidade chegava agora de mansinho, gotejando luzes incômodas pelas frestas da veneziana do quarto.

Tirou o pesado edredom de cima do corpo nu sob a camisola  fina e sentiu a aragem fria do inverno, apesar do sol. Paulo dizia “no polo norte também faz sol”.  Olhou o porta-retratos de madeira na cabeceira.  Stela e Paulo sorriam abraçados encostados a um muro de pedra e avistava-se um pedaço de mar ao fundo. Estranho, não conseguia lembrar deste lugar. Teria sido uma praia  perdida de uma viagem de férias qualquer / Porque agora esquecera?  Também não tinha mais importância. Não voltaria lá novamente.

Certa ocasião alguém dissera que não se deve voltar aos lugares que gostamos, pois nunca conseguimos repetir a felicidade que a ocasião nos causou. Talvez fosse verdade mesmo. O registro ali permanecera; lindo, inacessível, impresso no pequeno retângulo, no sorriso franco e aberto de Paulo e daquele braço forte e apaixonado que a apertava contra ele. Começou a sentir um nó na garganta  e correu para o banheiro. 

Abriu a torneira e mergulhou os pulsos no jato de água fria a escorrer das torneiras. Sentiu o coração acelerar e conseguiu uma breve vitória sobre a emoção. Olhou então para o rosto refletido no grande espelho do banheiro. Um rosto marcado que refletia 48 anos de vida.  As rugas acentuadas ao redor dos olhos de um castanho cansado marcavam indeléveis as passagens de Stela pelo seu tempo. O cabelo perdera o viço juvenil e era entremeado de fios brancos denunciadores da idade da razão. Será que tinha realmente atingido a tão sonhada paz de espírito que aprendera nos livros de escola? Deixou inconscientemente que o pensamento volitasse enquanto analisava aquela figura refletida sem piedade e sem censuras. Talvez olhar o mundo lá fora lhe aliviasse o espírito. Falar e dizer a outras pessoas do que lhe pesava no íntimo.

Não necessitava mais ir para o trabalho. Fora tudo muito frio e competente.  Não necessitamos mais no momento’.  Mentiras delicadas. ‘Sabemos que são muitos anos, mas... . Não tinha as pernas de Corina, pensou.

A água do chuveiro reconfortou-lhe a pele dando-lhe aquela sensação de tepidez ao sair do banho diminuindo o frio. Precisava sair e olhar outras pessoas mesmo que não fossem as suas.

Vestiu aquele costume cinza que a filha lhe dera de presente. Por que será que filhos presenteiam pais com roupas cinzas e sóbrias. Talvez porque nos vejam cinzas e sóbrias, ou porque nos imaginem assim. Não se sentia assim, contudo. Não era então uma lutadora que jamais havia abandonado seus sonhos?

A porta branca e envernizada  e o lance de escada que a colocava nas calçadas. Sempre achava engraçado sair de casa e estar nas calçadas. Sentia-se como num filme americano.  Paulo tinha o costume de espera-la de pé em frente à escada e ergue-la no ar pegando-a pela cintura e às vezes a rodopiava no ar antes de coloca-la no chão. Era a sua maneira de me dizer bom dia pensava. Paulo agora não estava lá. Talvez estivesse em algum outro lugar observando-a com a costumeira preocupação.

O sol insinuava-se fraco entre as árvores nas calçadas. Gostava de árvores. Davam um ar natural aquelas casas antigas. Algumas pessoas passavam apressadas, buscando suas conduções. Será que encontraria um rosto conhecido? Caminhou a esmo pela rua e perdeu-se entre as pessoas até notar a vegetação densa e os bancos de madeira do parque. Adorava parques.  O parque é dos anônimos e descompromissados. A grama estava baixa e parecia úmida. Stela tirou os sapatos e. Adorava o contacto da terra com os pés. A terra transmite força e solidez. Como era mesmo o nome daquele grego que havia vencido o inimigo porque o erguera no ar para que não tivesse contacto com a terra?

Havia um perfume no ar. Eram aquelas flores que cresciam de bulbos mergulhados na terra molhada.  Gostava tanto desse perfume. Pedia as vezes que Paulo arranjasse um para ela. Lá ia ele pelo meio da terra sujando calças e sapatos. Quando ele colhia um trazia-o como uma medalha de competição, até deposita-lo em suas mãos  dizendo ‘eis aqui teu desejo’. Seu desejo agora era que ele estivesse ali. Queria o momento a mais. Faltava-lhe o desejo de seus olhos luminosos e envolventes. Lírios-do-vale, lembrou. Era este o nome daquelas flores de bulbo que cresciam no mato.

Stela não sentiu o passar dos momentos. O cansaço a atirou sobre um banco. Na alameda ao longe uma jovem empurrava o carrinho de brinquedo enquanto a criança ia atrás agitando os braçinhos  numa euforia incontida. Mãe e filho; o começo de uma vida inteira. O ser humano frágil e dependente de outro ser humano. O início de um caminho de realizações. Tudo se iniciando até que chegasse ao encontro esperado em algum lugar. Tudo tinha que ser percorrido no caminho escolhido.

Pensou na filha distante em alguma reserva ambiental. Sempre tivera gosto pela natureza e conseguira aquela colocação. Pena que era tão distante. Ficava tanto tempo sem vê-la. Transformara-se numa voz ao telefone naquelas datas estratégicas Porém ela estava contente, assim o acreditava, e isto era o mais importante de tudo. Quando a veria de novo?

Stela sentiu uma pontada no estômago e lembrou-se que não havia comido nada; Não sabia que horas eram. Saiu do banco caminhando pela alameda.  O sol agora era alto e os raios filtravam-se entre os ramos das árvores.  Caminhava devagar como se quisesse acompanhar um relógio imaginário. Ninguém daria por sua falta. O tempo deve ser dedicado a alguma coisa. Precisava do tempo, precisava das pessoas, mas será que as pessoas precisavam dela? Será que era apenas uma mulher egoísta que envelhecia sozinha com aquele emaranhado de lembranças? 

Olhou para o gari ao longe no seu uniforme laranja gasto e alguns números maiores do que ele. Era um homem velho e curvado. O olhar parecia não desgrudar do chão. Empunhava um bastão de madeira com uma ponta de ferro que servia para recolher as folhas secas que se espalhavam pelo chão. Um trabalho desgastante e interminável pensou olhando o trecho onde ele já recolhera e que já acumulava folhas outra vez. Há trabalhos que são retrabalhos.  Convivemos com nossos fantasmas e quando conseguimos afasta-los surgem outros povoando o caminho percorrido. Será que foi sempre assim e eu não havia percebido? Será que um dia eu deixei de me questionar?

Um pequeno piu chamou a sua atenção. Estava muito próximo de si. Voltou a  vista pelos arbustos a beira das árvores e avistou um ponto branco a remexer no chão. Aproximou-se rapidamente e avistou no meio da grama um pequeno pássaro caído no solo. A ave era um filhote que devia ter tombado de algum ninho na copa alta. Fez uma concha com a mão e colocou o corpo em formação da ave sentido o trêmulo palpitar do coração e ouvindo o incessante piar do animalzinho assustado. A asa parecia quebrada e uma das pernas estava torta. Achou que iria morrer logo. A vida ia se esvair nas suas mãos.

Sentiu-se enternecida olhando para a vida repousando em sua mão e depositou-a novamente no chão.  Olhou ao redor e trôpega saiu a correr para o fim da alameda. Tinha que encontrar um quiosque. Eles teriam água e talvez algum cereal. Voltaria e cuidaria dele. Não demorou a que depois de alguns metros avistasse um quiosque. Sim, tinha farelo. Havia quem os  atirasse para as aves.  Agradeceu e voltou esbaforida.

O chão agora estava vazio. A ave desaparecera. Talvez tivesse sido levada para o ninho ou algum transeunte a tivesse levado. Sentiu-se impotente. As coisas geralmente não aconteciam. Não conseguia faze-las acontecer. Um arrepio da brisa fria a fez caminhar novamente. Caminhou sem rumo até perceber que já havia saído do parque.

A multidão anônima iniciava o caminhar no sentido contrário ao da manhã. Todos voltam. Há uma casa e talvez alguém os espere. Talvez  voltem para esperar alguém.  Uma agonia lhe gelou o peito. Também tinha que voltar ao meio do nada. Um telefonema. Será que iria receber um telefonema? Algo lhe dificultava os passos. Não, era simplesmente ela que não queria ir.

Um grupo de mulheres ruidosas passou por ela. Faziam grande algazarra e vestiam calções e bermudas. Idosos, pensou. Aprendendo a enfrentar a velhice. Endorfinando. Havia um instrutor muito jovem à frente deles.  Desejou que ele a olhasse, mas o jovem não lhe deu atenção. Parecia distraído com sua preciosa carga. Talvez devesse estar no meio deles. Será que já era idosa e não sabia?  A velhice era uma escolha?  Sentiu um grande desamparo. Não se vá Paulo. Eu tenho medo.

Olhou a multidão anônima saindo do cinema. Há mito tempo não ia ao cinema. Não tinha vontade e disposição. Os rapazes saiam com o peito estufado e a respiração contida. O  filme devia ter sido de aventuras. As jovens maneavam a cabeça com olhares lânguidos. O filme devia ter um romance também.  Os pares satisfeitos caminhavam pelas calçadas abraçados e os últimos raios do sol projetavam suas sombras compridas entrelaçadas numa única sombra. A sua sombra, entretanto continuava a ser projetada solitária,

A rua onde estava a casa. A casa de escadas na calçada. Não havia ninguém a espera-la, Entrou e sentou-se no sofá da sala. Sem acender luz alguma. A cabeça lhe pesava como quando levantara. Dali a algum tempo não haveria mais luz. Teria que dormir. Sentiu sono e lembrou-se novamente que não se alimentara, mas não se importou. Sentia que não parecia ter passado pelo dia.

Onde estaria sua filha querida. Será que sorria naquele momento? Tinham tido tantas alegrias juntas. Ele  teria adorado ve-la fazer o que gostava. Nesse momento a sua falta era de uma esmagadora crueldade.  Levantou=se titubeando em direção ao banheiro e acendeu a pequena luz reveladora do toucador. Você não mudou pensou sentindo um peso agora nas pernas. Paulo a teria abraçado e achado lindo os seus cabelos grisalhos, suas rugas e o olhar desvanecido. A sua rainha de pernas esbranquiçadas continuava maravilhosa.

O frasco tinha várias bolinhas brancas. Sempre a ajudavam quando o sono se fazia tardar. Foi quase sem perceber que foi ingerindo  as cápsulas sem se dar conta.  Sentia que a voz lhe embargava e lhe veio uma vontade muito grande de chorar.

As lagrimas lhe enevoaram a visão e caiu de joelhos. Arrastou-se com dificuldade em direção ao quarto. Como era aquele número. Acho que anotara uma vez na caderneta verde. Sentia-se bêbada de sono. Queria muito dormir.  Lá estava a cabeceira com a foto, a cama desfeita e ela arrastando o corpo pesado. Ainda conseguiu ver o número e tirar o fone do gancho deitando e encostando a boca no aparelho;

A campainha chamou uma única vez. Como num sonho escutou uma voz metálica profunda. Parecia uma voz de um negro.

-CVV, boa noite, posso ajudar?

-Quero falar com alguém.

 

 

 

 

 

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