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Rolando ribanceira abaixo !
Rolando ribanceira abaixo !

Rolando Ribanceira abaixo

 

Numa certa ocasião, em que estava nos verdes anos de recém-formado, havia uma forte tendência para se trabalhar no exterior. Assim sendo tornou-se comum um êxodo de engenheiros, técnicos especializados e até funcionários do escalão administrativo embarcando para a África e para os Emirados Árabes a procura de salários atrativos que o passar dos anos demonstrou ser uma avaliação um pouco enganosa. Anúncios se multiplicavam pelos jornais e faziam uma festa nas agências de emprego, canais que se tornariam obsoletos após a explosão da Internet anos depois.

R e eu éramos inseparáveis amigos embora de ideias diferentes.  R queria de alguma maneira garantir sua independência financeira. Foi assim que encarou o trabalho em em país estrangeira como um caminho que lhe garantiria uma mini aposentadoria. A oferta partira de uma montadora de estruturas que fora contratada para executar um amplo projeto na Nigéria. Os técnicos e engenheiros contratados passavam a residir naquele país.

Recebi várias correspondências e pude ter uma boa ideia de como eram os esforços despendidos para que aquelas pessoas realizassem seus sonhos. O projeto era a construção de nove tanques frigoríficos para a estocagem de frangos importados, inclusive do Brasil. Um estranho procedimento, pois as aves poderiam ter criadouro lá mesmo.

-Eles compraram o progresso dizia-me R. Querem algo e não tem então seus petrodólares compram. Cidades sem planejamento, organização e estrutura.  Choças lado a lado com palácios. Uma limusine pode deixar a choça sem mais nem menos. Moveis e eletrodomésticos são usados até quebrarem e abandonados em qualquer local. Mesmo carros, nada tem manutenção. Tudo sem o menor respeito pela vida humana que não tem o menor valor. Se alguém é atropelado numa estrada, mesmo movimentada, o corpo fica por lá mesmo. Nada tem valor.  Não tenho unica única foto. Eles creem que a máquina captura o espírito, pode ?

Nesse estranho ambiente é que R chegou e foi alojado para trabalhar no campo construindo os tais frigoríficos. O trabalho movimentava uma grande quantidade de peões e técnicos, muitos brasileiros e pequena parte de indianos e asiáticos. O pessoal nativo não tinha empregados, fato atribuído ao mau tratamento que dispensavam a eles, mas os estrangeiros tinham, muitos provenientes do Tchad e países limítrofes. O amigo R tinha assim um cozinheiro que falava francês e inglês.

Sem convívio social R fez amizade com vários técnicos brasileiros como ele alí a fim de fazer a América. Muito conversador e bom colega conheceu desta maneira o sonho que havia carregado muitos para tentarem queimar etapas na vida que haviam deixados.

Entre eles estava Joãozinho Ceará. Proveniente de um árido sertão nordestino estava acostumado ao trabalho duro, a fome e a sede. Já morara em navistarchoças sem água e sem luz. Desde menino, quando subia nas palmeiras para colher o coco, observava as estradas e ficava observando os caminhões na sua marcha para entregar enormes cargas em vilas e cidades de que não sabia nem os nomes. Achava que aqueles caminhões eram a coisa mais importante que já havia visto. Já moço, quando a familha pensava em manda-lo para sumpaulo já havia colocado algo na cabeça: um dia teria um caminhão daqueles. Não seria mais um empregado que dirigia o caminhão dos patrões. 

Tal era o sonho do João Ceará, motorista e operador de retroescavadeira de empreiteira que queria ter um Volvo ou un Navistar e viera a Nigéria para juntar milhares de dólares e depois de alguns anos ir buscar o caminhão nos States

Ceará tinha uma vasta pilha de revistas que ilustravam fartamente o objeto de seus sonhos todas americanas e nos churrascos em fim de semana discorria cada detalhe do assunto nas rodinhas dos colegas de convívio. Os detalhes das cabines, o tamanho, a cor de cada elemento e o painel de uma verdadeira aeronave embasbacava a todos. Suas camisetas eram sempre estampadas com imagens do Navistar . Ceará sonhava dormindo e acordado com a sua menina dos olhos e tudo que conseguia era para a sua conquista. 

O pequeno bangalô onde morava tinha as paredes cobertas por posters de caminhões de todos os tipos, sem contar é claro copos, chaveiros e tudo o que tivesse um caminhão estampado. Uma quantidade inumerável de miniaturas espalhava-se por todos os cantos. A febre do ceará, futuro caminhoneiro e patrão da estrada era assim conhecida.

O tempo foi correndo, anos se sucederam e as coisas correram e chegou finalmente o término do contrato. R voltou e não conseguiu a sua mini aposentadoria, mas conseguiu um excelente imóvel que adquiriu sem problemas. João Ceará também voltou e sua ansiedade incontida levou-o diretamente a Nova York onde providenciou junto ao City Bank onde recebia o dinheiro juntado a duras penas ( de frango sem trocadilhos). Finalmente os nigerianos tinham frigoríficos para conservar suas aves que provavelmente não durariam muito tempo sem a manutenção e o Ceará seria dono de um Navistar de 600 cavalos  com tudo que tinha direito. Tinham decorridos anos.

O caminhão foi adquirido e patrão caminhoneiro João Ceará providenciou o embarque para o Brasil. Pagou tudo, nota sobre nota. Assim Ceará tinha seu sonho na sua terra. Um sonho de um vermelho vivo quente como sua terra.

Zé do coco era um baiano de Salvador que morou no Ceará e viajou para São Paulo com João. Exceto o fato de terem estado numa pensão antes de sua ida para a Nigéria João não o vira mais. Contou a Zé do coco de seu triunfo, da realização do sonho e do maravilhoso caminhão que comprara. Zé do coco, cabeça fraca e um tanto limitado pouco entendera. Parece que nem sabia direito o que era a tal Nigéria.

Ceará contudo ficou condoído da situação do amigo ao sabê-lo empobrecido e desempregado. Bondoso deu-lhe a primeira carga para que levasse de São Paulo a Santa Catarina. Foi assim que tudo sucedeu.

Numa curva serrana molhada e sob neblina, Zé derrapou e rolou o luxuoso caminhão pela ribanceira abaixo transformando em ferro retorcido um sonho de oito anos em oito segundos. Zé do coco foi lançado da cabine e desapareceu sem mais ser visto. Segundo a vistoria da perícia e testemunhas, a velocidade era coisa de louco.

 

 

 

 

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