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Tem o direito de permanecer calado...
Tem o direito de permanecer calado...

O princípio fora algo surpreendente. A multidão apinhada nas lojas dava indícios do advento do Natal. A verdade é que ninguem poderia supor nada de terrível e trágico acontecendo ao avizinhar-se um dia de um Dezembro qualquer de 1968. As pessoas corriam apressadas pelos enormes calçadões da Paulista sem encararem umas as outras. Paulistanos não se olham nos olhos. Como felinos.

O camburão enorme e barulhento como um dragão resfolegava desafiadoramente pelas faixas de ônibus,pois sabia que ninguem ousaria confrontá-lo.Tinham medo de uma bala certeira ou perdida.

A cela era uma masmorra escura, fria e úmida que era espessa e cortante. Não era possível ver a luz, mas ouviam-se os  roedores. correndo pelos cantos aguardando que alguem tombasse.

Nunca foi visto. A eminência parda como um marques de Torquemada redivivo. Conta-se que o gorila Fleury aplicava pessoalmente as torturas que levavam a morte como a coroa de  Cristo.

Um monte de corpos suados, carcassas jogadas sobre um caminhão cobertos com lona para não chamar a atenção. Pensei em Merlino. O jovem cheio de vida e sem vestplanos. A vida

não era um interrogatório e sim uma um auto inquisitório.. Não sabíamos porquê estávamos alí. Porque havíamos ofendido o Rei.

O carcereiro é um gorila enorme e de gestos brutais e ignorantes. Tem duas realidades. Os que estão na masmorra e os que estão fora dela. Arrastar de ferros e correntes.

A bofetada do gorila estalou na boca. Senti o gosto enjoativo do sangue e do dente quebrado. Não era possível esquecer da ofensa e desrespeito ao ser humano. Ouvi a voz empesteada de cachaça:”Tem o direito de permanecer calado.”

Não tenho idéia de quantos dias ou noites permaneci no escuro gélido da cela imunda. Não, não tive medo de morrer. Só tive medo de morrer e apenas morrer sem que ninguém tomasse conhecimento. Desapareceria sem vestígios. Desapareceria sem que ninguém soubesse que havia desaparecido.

O caminhão seguiu estrada afora por horas. Só o ronco dos motores de veículos no breu fechado da noite. O terror impregnava os cérebros impedindo-nos de pensar. Como seria a execução ? Tiros num pelotão de fuzilamento ? Tinha ouvido dizer que eles colocavam os corpos numa vala depois do serviço.

O caminhão parou numa clareira. Desceram a todos na terra úmida. Somente a luz da lua atravessava copas enormes. Separaram vários grupos. Eram cerca de vinte pessoas. Todas vestidas com um sujo saco de rafia. Um grupo de soldados iam empurrando e levando quatro ou cinco infelizes de cada vez.

Fiquei frente a frente com um soldadinho nuito novo. Uma metralhadora pendurada no ombro e uma pistola maior que sua mão. Facas e cordas pela cintura. Estava mais assustado do que eu, mas o duro treino do quartel apenas fazia tremer a voz que principiava a tornar-se grave. Falou baixo e entrecortado...

-Suma , suma daqui seu subversivo desgraçado, suma.....

-Vou disparar para o alto ! Corra sem olhar para trás. Corra ao ouvir os tiros sem olhar para mim entendeu seu comuna ?

Tentei dizer algo....-Porquê? Porquê está fazendo isso? Porquê está me poupando ?

-Chega, silêncio.Ordem do Coronel Auri.. Se tu não for poupado serei morto. Diga a ele que está vivo. Agora corra....

Quando ouvi o terceiro tiro já corria em desabalada corrida a plenos pulmões.

Após algumas horas que me pareceram dias na mata escura divisei a luz de uma lâmpada e uma choça, uma cabana. Corri para lá e quase coloquei a porta abaixo. Fui atendido por um capiau, ignorante, mas de bom coração. Deu-me uma roupa e umas botas. Disse-me que a cabana era um posto da Light a Cia. De Eletricidade.

Perguntei como podia sair de lá.

 

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