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Toque outra vez Sam
Toque outra vez Sam

 

De todos os bares do mundo, ela tinha que entrar no meu. Toque o que eu quero ouvir. Toque Sam!

(Rick diz para Sam em Casa branca, 1941).

 

 

Houve um tempo em que piano ocupava sem concorrência  o  seu lugar na sala de visitas. Podia mudar a disposição do centro para um canto nobre e a qualidade de um fabricante mais conhecido e famoso e até a aparência solene de um instrumento acústico de cauda, mas lá estava ele ocupando os lares como um inseparável membro da família a aguardar pelo talento de um deles. O piano é um instrumento musical de cordas percurtidas, i. é produzem som por uma vibração ocasionada por percussão, munido de um teclado e de uma grande caixa de ressonância. O som é produzido pela pressão das teclas que acionam martelos de madeira revestidos de feltro que, por sua vez, fazem percutir as cordas. É dotado de dois pedais: o direito, quando pressionado, permite que as cordas permaneçam vibrando, mesmo que as teclas deixem de ser tocadas; o esquerdo, também chamado surdina, serve para diminuir o brilho da sonoridade. O primeiro piano foi fabricado pelo italiano Bartolomeu Cristofori, numa época em que o cravo dominava o panorama dos equipamentos musicais.Bartolomeu Cristofori, construtor de cravos de Florença, em meados de  1700 havia concluído a fabricação de um piano que chamou de "Gravicembalo col Piano e Forte", isto é, cravo com sons suaves e fortes. As cordas do cravo são tangidas por bicos de penas e o piano tem suas cordas percutidas por martelos que inicialmente eram encapados de couro e cuja dinâmica do choque anelástico podia variar com a pressão exercida pelos dedos do pianista. Só isso já dotava o piano de um enorme poder de expressão.No começo o piano custou para se tornar popular porque os primeiros modelos eram muito precários. Haydn aceitou o piano em pé de igualdade com o cravo e o clavicórdio. Durante muito tempo a música para instrumento de teclado continuou a ser impressa com a indicação para pianoforte ou cravo, mas, no final do século XVIII o cravo foi substituído pelo piano. Apesar do piano ter sido inventado por um italiano foram alemães que aperfeiçoaram o instrumento e impulsionaram sua evolução através de construtores que deixaram sua marca: Silbermann, Zumpe, J. Stein. Também ingleses construíram pianos, de mecanismo mais pesado e som mais denso, considerados pais daqueles usados hoje. Bradwood, famoso fabricante inglês, foi responsável por grandes transformações no instrumento: os dois pedais, surdina e direito  e o teclado de 6 oitavas.  Grande revolução na sensibilidade do toque veio com Erard, que, inventou o duplo escapo, uma técnica que permitia o toque de notas. No século XIX o piano passou por diversos melhoramentos. O número de notas foi aumentado, as cordas ficaram mais longas e grossas e os martelos, antes cobertos por couro, passaram a ser revestidos de feltro, melhorando a sonoridade. Os compositores românticos passaram a explorar todos os recursos do piano. Quase todos os compositores românticos escreveram para o piano, contudo os mais importantes e populares foram: Schubert, Mendelssohn, Chopin, Schumann, Liszt e Brahms.Lembro bem quando menino de olhar as vitrines das grandes lojas na época de Natal e ver muitos pianos de brinquedos que soavam como campainhas. O piano fazia parte do imaginário infantil como o instrumento que promovia a reunião  e a alegria. Entoei muitas canções infantis ao lado de um piano.A majestade do órgão com seus tubos gigantescos e aquele com de câmara de eco fascinava minha mente infantil curiosa e aguçada quando escutava a música no coro das igrejas.Vovô me surpreendeu certa vez ao sentar-se ao piano e tocar uma música que guardei os acordes, mas não o nome. Fiquei surpreendido ao ver sua figura tão distinta e série em seu terno cinza claro e seu chapéu da Ramenzoni tocar uma música por sinal muito bonita. Não imaginava que ele tocava.Minha tia Berê tinha um piano em sua sala de visitas onde vi meu avô tocar Minha prima estudou dez anos de piano. Creio que mais por algum desejo ou vontade dos pais, mas nunca a vi tocar e nem perguntar se alguém queria ouvi-la tocar alguma coisa.Meu pai jamais se aproximou de um piano. Não sabia tocar. Minha mãe o sabia, mas nunca a ouvi tocar em lugar algum. Quando menino pedi a eles que me deixassem aprender a tocar e durante um ano tive aulas particulares com um vizinho que era professor de piano. O curso teve que ser encerrado logo, pois aulas eram caras, conservatórios eram caros e sem um piano em casa ninguém podia estudar piano verdadeiramente.Ter um piano na sala era, pois uma coisa popular. Já de outras épocas com o aparecimento da classe média da expansão do capitalismo, determinando um novo conceito no tamanho das residências, agora menores, em comparação com as da nobreza. Esta situação favoreceu a criação do piano vertical, que ocupava menos espaço e era mais barato que os pianos horizontais fabricados até então.A perda do poder aquisitivo da classe média deu-lhe uma conotação de status que foi perdurando até sua substituição pela TV que passou a ser o novo ponto de reunião das famílias e amigos.Durante o tempo que cursei o Ginásio o Conservatório feito geralmente no período livre da tarde era parte das atividades de meninos e meninas, ao lado de cursos de inglês e dança para as meninas. Nunca entrei num Conservatório e nem sei como funcionavam, mas alguns eram até de fama e conhecimento público.Entre o Ginásio e o Colegial conheci o CAE, o Carlos Eduardo. Alguns o chamavam CAE com acento fechado no E e outros o chamavam de “Brigadeiro” o que nunca consegui saber o motivo. Durante o tempo divertido do Colegial a musicalidade estava no ar. Talvez o fato de ter convivido com tantos e tão extraordinários pianistas como Roberto Sion, Oswaldo Paulino e Serginho Matheus. Foi também no Colegial que o esforço próprio para o aprendizado começou a ser mais valorizado sem os arroubos do tecnicismo.A musicalidade do piano nas mãos de grandes pianistas da Bossa Nova, sua presença nas mãos de orquestras como Ed Costa em bailinhos de sábado e espaços no radio como “Um piano ao cair da tarde” e “A música no cinema”,  programas que eu era fã de carteirinha, contribuiram para desenvolver uma sensibilidade especial para a música presente em clima de romantismo e confiança no futuro. RCC Foster ou simplesmente Foster era um tipo inesquecível. O modo de falar que se iniciava pelo enfrentamento face a face e o balancear da cabeça para a direita ou para esquerda reduzindo o volume de voz e tornando as frases ininteligíveis enquanto o cabelo implacavelmente liso ia caindo sobre a fronte cobrindo os olhos. O paletó de um xadrez preto, branco e cinza continha cor verde, vermelha, azul, etc. o que tornava mais adequado dizer que era furta-cor. Um ser aéreo e distraído e não sintonizado. Amigo como poucos era sua maior virtude. Um pianista que tocava com os sentimentos e fazia das mãos o instrumento. Uma casa grande e confortável na Rua Bento de Abreu onde varias vezes passávamos tardes inteiras no jardim de inverno onde num enorme piano de cauda Foster se transformava num pianista irrepreensível e escutávamos uma canção após a outra. A música, os amigos e as mulheres eram as preocupações de Foster. Anderson era um pianista músico de noite amigo do Meirelles. Também o encontramos muita vezes na casa da Av. Presidente Wilson em São Vicente. A casa tinha também um jardim de inverno e do muro baixo que dava para rua avistava-se da calçada o jardim e através da ampla janela de vidro do terraço do jardim de inverno um majestoso piano de cauda branco. Anderson sentava-se no tamborete do piano e a nítida impressão que se tinha é de que poderia tocar qualquer coisa. Realmente ele tocava. Quando vestia calças curtas assisti no velho Cine Atlântico ‘A noite sonhamos’, ouvi sua trilha sonora impecável e por um longo tempo ouvia as composições de Fréderic Chopin to carem em meus ouvidos. Foi uma marca na descoberta do que existia na música e o instrumento que colocava aquelas melodias no ar.A noite sonhamos, no  original uma canção para recordar (A song to remember), mostrava a vida de Chopin e  sua nobre missão de lutar por uma Polônia livre, Uma cena antológica é o recém-chegado Chopin, e encontra Liszt, o futuro e inseparável amigo, tocando  a Polonaise. Chopin toca com ele, e são  apresentados. Finalmente cumprimentam-se um tocando com a mão direita e outro com a esquerda. A última turnê de Chopin é em favor dos refugiados da Polônia quando já estava muito doente. Chopin amava sua terra natal e grande parte de sua inspiração vinha  do seu sofrido povo. Casablanca ligava o pianista Sam (Dooley Wilson) ao amor de Rick e Lisa. As time as go by era o fio mágico que reprimia a alma solitária de um Rick eternamente apaixonado por uma Lisa enquanto a chuva desvanecia as palavras do última bilhete na plataforma do trem que abandonava Paris ante a iminente invasão nazista. Rick vai para Casablanca e abre o Rick’s No piano Sam podia tocar qualquer coisa menos As time as go by, até o dia em que Lisa entrou pela porta apoiou-se no piano e pediu a Sam. Simplesmente imperdível. Durante o intervalo da indefinição estudantil que se situa entre o Colegial e a Universidade fiz amizade com o Renato Cardim. Renato era amigo do Nelson, do Girodo e também do Francisco Leão de quem era parceiro de músicas e letras. Naquela época Cardim morava em um apartamento muito pequeno no conhecido Conjunto IAPI e era filho de pais pobres e sem recursos. A música, entretanto era sua primeira grande paixão e nós nos reuníamos muita tardes no pequeno apartamento em volta do piano onde totalmente por ouvir Cardim era capaz de tocar uma música com os arranjos do Zimbo, do Sérgio Mendes ou do Bossa Rio.  Sentávamos e cantávamos. Não tenho lembrança de um esforço de criação maior. O amor pela terra era marcado nas músicas que nasciam na parceria como o samba que homenageia Santos


 

Do alto da serra

Uma ilha se vê

Entre a mata e a água

Eu vejo você

E os casaizinhos,

Abraçadinhos

Posso rever

Do alto da serra, outra ilha não há

Só Santos querida, eu hei de amar!                          


...para citar um trecho que caminhava por aí fora...

 

  Morando alguns anos no Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo o Centro de Vivência tornou-se parte integrante do dia a dia cruspiano. O CV dispunha de um pequeno palco e lá estava ele. Um piano vertical a nossa espera como um velho amigo que não nos abandona, empoeirado e muito desafinado, mas capaz de emitir as nossas melodias. Ali se compartilhava a arte como meio de transformação.Nunca compreendi muito bem como alguém podia saber tocar belas músicas e sempre que tivesse oportunidade se  negar a faze-lo. Creio que é no mínimo um desrespeito para quem faz o pedido. Creio que isto só acontece quando o tecnicismo toma o  lugar de uma alma música que é a extensão das mãos daquele que toca. A obra de arte só é verdadeira quando contem pequenas imperfeições, fruto do esforço de persiguí-la. Se gostar de ouvir ouça. Se te pedirem toque outra vez para que possamos ouvir. Como Sam!

 
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