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Três vezes no chão
Três vezes no chão

Ter humildade de curvar-se perante a arte e o valor do outro é evoluir

E tornarmos melhores do que somos. (Vinicius de Morais)

Era uma tarde quente e por alguma razão motivada pela música fomos adentrando e ocupando o velho anfiteatro. Sempre gostei deste nome: anfiteatro. As sessões solenes, as formaturas e as conferências eram realizadas ali. Algumas aulas especiais eram também ali Caberiam talvez trezentas pessoas. Havia uma platéia dividida por um corredor largo. As poltronas eram de madeira (poltrona estofada era um luxo) como nos cinemas de bairro. Ao longo das paredes uma estreita faixa de circulação até a frente do palco ao qual se poderia ter acesso por uma escada de três ou quatro degraus. Havia cortinas pesadas de cor vermelha, spots de iluminação e até cenários corrediços. No palco já fora encenado Pluft o Fantasminha e o Circo de Bonecos de Oscar Von Pfhul. O GEVEC, o Grêmio Estudantil Vicente de Carvalho era atuante e muito politizado. No lado esquerdo do palco estava colocado o velho piano. O velho piano era também um piano velho daqueles literalmente quadrados. Creio que nem tinha 88 teclas.

Creio que a palestra era sobre música. Não consegui materializar o fato que escapuliu da memória. Foram feitas muitas considerações sobre a bossa nova e a MPB, o antigo e o novo. Sentado no chão do anfiteatro lotado bebia literalmente as palavras sopradas pelo conferencista. O maestro Aécio, uma respeitável figura de cabelos brancos como o guarda-pó que sempre usava não escondia a satisfação pelo que ouvia. Ali estava alguém de vanguarda. Lembrei meu velho maestro de canto orfeônico também de cabelos brancos e ondulados que jocosamente chamávamos, entre nós, de João Serenata, ao contrário do Aécio, era uma figura podadora e reacionária. Alguns colegas haviam subido ao palco e retiravam a parte da frente do piano e agora podíamos ver as cordas e os pequenos martelos enfileirados do instrumento de percussão que era. Logo alguns começaram a tocar e os acordes de "Chega de saudade" e "barquinho" suspenderam o auditório pelos ouvidos. Ao terminarem as notas de Paulino ao piano adicionei minha satisfação e meus gritos de aplauso aos da platéia que de pé delirava ao fazer aquela música. Foi quando atraído pelos gritos levantei do chão e olhei na direção esquerda onde as cabeças se voltavam. O rapaz alto magro a cabeça calva e uma gigantesca barba negra sobre a camisa vermelha relutava enquanto aos gritos de "sobe, sobe" era empurrado pelos estudantes afoitos para o palco em direção do piano. Era ele.

Sentei novamente no chão enquanto a turma da frente gritava "Pedro, Pedro".

Pedrinho Mattar sentou-se na banqueta redonda giratória e perguntou em uma voz grave e sonora

-O que vocês querem ouvir?

-Bach, Bach respondiam em coro os estudantes.

-Bach? Não acredito que vocês querem ouvir Bach!

E dali sentado ouvi dentro do silêncio do auditório Pedrinho Mattar tocar no velho piano a Ária em G a popular ária da Quinta Corda. Inestimável e inesquecível.

Anos mais tarde eu o escutaria novamente no conhecido João Sebastião Bar na esquina da Major Sertório com a Maria Antônia.Ostentava o nome mágico em um néon azul sobre um arco romano. Lá a elite intelectual junto com outra jovem e aventureira disputava um lugar próximo ao piano de cauda em meio aos tons vermelho e roxo das cortinas para ver Mattar tocar,

Próximo a Jaceguay na Brigadeiro Luiz Antônio no pequeno Teatro Paramount nasciam as forças vivas da MPB e os shows noturnos atraiam centenas de universitários que por um preço irrisório sentavam-se no chão dos corredores para ver o piano dedilhado por Adilson Godoy, O Zimbo Trio pairava na nuvem sobre a MPB. Sentado no corredor com meus companheiros escutávamos num silencio quase palpável  aqueles sons imemoráveis do tipo "calem-se, estamos aqui". Foi quando no meio da sessão irromperam gritos e aplausos e todas as cabeças se voltaram para a frisa à  direita em forma de balcão sustentado por colunas pequenas e torneadas. Foi então que eu a vi pela primeira vez. Era uma moça baixinha e no escuro destacavam-se os dentes muito brancos dentro de um sorriso largo. O movimento das mãos que batiam palmas freneticamente não desfazia um fio do cabelo penteado para o alto da cabeça refletindo mesmo a luz dos spots o brilho do laquê. A multidão repetia em coro Elis!, Elis! enquanto os mais próximos gritavam "Menino das laranjas".

Foi ali sentado que pela primeira vez que vi a gaúcha subir a um palco e com uma simplicidade a flor da pele entregar a sua voz e seu coração para aquelas pessoas.

Creio que quem já passou perdido em anos pelo Canal 1 bem na esquina com a Marechal deve lembrar daquela casa, muito grande quase um palacete. A casa pintada de branco com detalhes verdes era a própria essência do It Club. O nome creio que era uma reminiscência tardia dos anos 50.  Uma romancista norte-americana cujo nome não recordo escreveu um romance chamado "It" e o pronome inglês pegou, como uma designação de charme e sedução. Dizia-se que fulano tinha “ït". As domingueiras vespertinas do It atraiam os jovens colegiais  que se acotovelavam em mesas brancas e redondas num jardim que se espalhava ao redor de uma grande posta de danças frente a um enorme caramanchão de madeira branco que filtrava os raios do sol até a chegada da noite acolhedora. Ouvia-se música e dançava-se. A posta estava sempre repleta.

Foi numa destas tardes que reuniu uma grande quantidade de jovens acomodados sobre o gramado entre eles sentei com as pernas dobradas, a atenção posta na bateria e no piano. Ver e ouvir o que nós estávamos ouvindo era um privilégio único. Paulino, Serginho Mateus e finalmente ele no som lamentoso do saxofone nos mostrou um novo mundo que não havíamos escutado antes. Roberto Sion ergueu o sax que brilhava refletindo o sol que se punha. E nunca pude esquecer-me daquele concerto de jovens artistas que traziam a música no sangue. Ali sentado com tantos outros no gramado do It partilhamos uma emoção e um privilégio também único que não poderia jamais ser repetido daquela maneira. Ouvir o jovem Sion, os cabelos loiros suando debaixo do sol do verão que brilhava no sax lançando naquele ar o lamento inesquecível de Ela é carioca enquanto os aplausos explodiam e secávamos discretamente uma lágrima nos olhos, de indizível emoção.

 

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