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Um gosto de mel
Um gosto de mel

 

 

UM GOSTO DE MEL

 

Ó divino Éter, ventos de asas ligeiras,

Fontes dos rios, sorrisos incontáveis

Das ondas marinhas, invoco vosso testemunho.

(Prometeu acorrentado, de Ésquilo).

 

A sala estava quieta e não se ouvia barulho algum exceto o som de metais e vidros se chocando. Estávamos sentados em bancos altos junto às mesas de ladrilhos bancos do laboratório de Física da Escola Politécnica.

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Candice representava o ícone da mulher para toda uma juventude que se acostumou a ver naquela garota com nome de açúcar a tradução do ideal revolucionário. O primeiro filme de Candice surgira na primavera de 1968 e Candice era uma ex-aluna da Universidade de Vassar denunciando o tradicionalismo do ensino burguês em “O Grupo”.

Já em Vivre pour vivre (Viver por viver) era a americana,  amante de um jornalista francês, nada menos do que Ives Montand  o monstro sagrado de Costa Gravas que havia feito filmes documentos quase históricos como “Z”, A Confissão e o Estado de sítio; Detalhes de Vivre pour vivre eram discutidos e comentados. Tive até a trilha sonora em um vinil que estampava Candice, Montand e Annie Girardot na capa. Na história Montand perde-se nas mantas do Vietnam onde faz uma reportagem para um documentário. Perfeito, a contestação estava nas ruas.

Em “Quando os peixes saíram d’água”, por sinal um filme de pouca expressão a crítica é a preservação do meio ambiente e Candice é apenas uma figuração dourada e decorativa que mostra sensualidade e sexo. Novamente em Soldier Blue se vê novamente a crítica social e a autocrítica americana à violência e o desprezo contra seus ancestrais, os peles-vermelhas. Tudo numa época em que se começava a resgatar a figura de Sit-In Bull e era publicado “Enterrem meu coração na curva do rio”. Além do mais Marlon Brando mandava Pena Pintada receber o Oscar em seu nome.

Foi verdadeiramente em “A procura da verdade” agora como a estudante engajada de uma universidade americana que se dá a consagração. O namorado é Elliot Gould o companheiro rebelde do hippie Donald Sutherland em M.A.S.H. uma comédia e critica ao exército americano. A violência da repressão é retratada e o desprezo pela cultura burguesa são fiéis a década de contestação e ao levante estudantil contra a ditadura que assola todo o país.

Candice foi a Sandra Bullock dos anos 90 e a Cláudia Abreu dos anos 80. Carregou a bandeira de toda uma geração e junto com Montand, Gold e Sutherland retirou-se de cena na hora certa. Deixou-nos o gosto. O gosto de Candice. Um gosto de mel.

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As duas moças entraram juntas. Estavam visivelmente nervosas e torciam as mãos que não sabiam onde colocar. Vocês têm que nos ajudar. Verdadeira selvageria. A Maria Antônia, a nossa faculdade, está sendo destruída. Estamos no meio de uma verdadeira guerra. Se não pudermos reagir seremos esmagados.

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Assisti com o Mané a “2001, uma odisséia no espaço” numa sessão de cinerama no Cine Majestic na Rua Augusta. É realmente indescritível tentar trazer a tona as emoções que o gênio de Kubrick provocava na fertilidade cultural de dezenas de anos atrás. Tanto quanto descrever a reação das pessoas diante da inesperada narrativa.

 

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Descemos do 929-Jaçanã na Rua da Consolação. Estávamos próximos ao restaurante Sujinho e já escutávamos os gritos e inúmeras pessoas que corriam em todas as direções. Nossas calças jeans esfarrapadas e camisetas de algodão eram uma marca registrada de estudantes para as dezenas de unidades da PM e do Exercito que corriam pela avenida abaixo sem um destino definido. Braços armados de metralhadoras pendiam das janelas e nós seguíamos escondendo-nos nas poucas casas comerciais abertas. Éramos um grupo de 12 a 15 estudantes desarmados e desinformados.

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Arduíno Colassanti lembrava mais um playboy da turma de Copacabana com os cabelo longos e lisos, descoloridos pela água oxigenada, moda que foi adotada pelos surfistas. Não havia um surfista que não descolorisse o cabelo. No drama-documentário Garota de Ipanema era o namorado esnobado pela volúvel Márcia Rodrigues. Depois se tornou o Justiceiro, o herói inconseqüente que se apaixonava pela alienada Adriana Prieto. Finalmente seria um desbravador da era colonial em Como era gostoso o meu francês. Mas na vida cotidiana lá estava ele na passeata dos 100 000 tornando-se uma das bandeiras da juventude carioca.

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Todo o quarteirão Consolação, Maria Antônia e Higienópolis isolado. O cheiro de pólvora e a fumaça haviam transformado a área em uma praça de guerra. Os cordões de isolamento e as pontes com os carros pipas do corpo de bombeiros transmitiam a impressão de um violento incêndio. As rádios comerciais anunciavam que estava ocorrendo uma guerra naqueles exatos momentos na Rua Maria Antônia. Vimos o estudante Luiz Guimarães tombar ensanguentado na rua. A vítima foi cercada e as lideranças decidiram que o corpo seria levado para o CRUSP onde a população seria convocada para acompanhar o enterro e organizar um grande manifesto contra a ditadura assassina. Zé Dirceu o presidente da UEE seguia a frente de um enorme grupo carregando nas mãos a camisa ensangüentada do estudante. Eu e meus colegas aderimos ao grupo;

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Li  Debray quando seu nome sequer podia ser pronunciado, Guevara quando um simples decalque de seu rosto era passível de prisão, o compenetrado Lenine que nunca pregou a luta armada, o britânico Orwell  e o velhinho alemão que a ditadura ignorante  nunca percebeu ser mais perigoso que  as armas que eles usavam. Debray, Guevara e Orwell foram sinceros em sua luta e seu desejo de mudanças e saíram de suas pátrias para morrerem em uma guerra que não era deles. Alguém tinha que se sacrificar para que tudo pudesse vir depois. Para que a liberdade pudesse vir.

 

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O grupo passou pela Consolação em frente à loja dos gansos, o teatro de arena até o prédio da Biblioteca fronte ao “Estadão” com as portas de vidro estilhaçadas e fechadas. Entramos em táxis e seguimos a perua que se dirigia para o CRUSP deixando o inferno para trás; A guerra durou três horas e a tropa de choque conseguiu invadir a Faculdade de Filosofia que foi depredada. Nada restou e a USP transferiu os cursos para a Cidade Universitária.


 

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