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Miltinho era de alguma maneira um primo nosso. Minha avó costumava visitar sua mãe de quando em quando. Dona Severina uma senhora humilde que nascera e fora criada pobre, analfabeta e sem recursos de qualquer espécie. O garoto, privilegiadamente bonito como deveria ter sido o pai que se fora sem deixar vestígios.

Existem coisas e acontecimentos que nós pensamos só existirem nas novelas. Mas a vida real supera em muito a ficção e a imaginação dos pobres cronistas e escritores. Creio que por isto não esqueci do Miltinho.

A pobreza fez com que Dona Severina redobrasse os seus esforços em torno do único filho adorado. Uma alma caridosa conseguiu uma colocação de faxineira para ela no Colégio Santo Agostinho. Ela aceitou como uma dádiva de Deus aquela oportunidade de trabalhar e encarou a faxina, um trabalho duro e pesado.

Saía de casa ma periferia de São Paulo e após longo trajeto e dois ônibus lotados chegava ao destino onde por várias horas manejava o esfregão e o balde limpando vários corredores em vários andares, curvada e até às vezes de joelhos no chão.

Foram anos a fio, Miltinho crescia e chegou a idade escolar. A Diretoria do colégio reconheceu seu esforço e concedeu a Severina uma extraordinária ajuda. Franqueou as portas do Colégio para que Miltinho ali fizesse seus estudos. Logo para Severina que nem alfabetizada era.

Miltinho estudou todo o ensino médio ali. Tinha bastante esperteza e sempre terminava o ano brilhantemente. Os colegas reconheciam sua sagacidade. Miltinho, entretanto carregava na bagagem um descontentamento profundo e uma grande vergonha. Era filho da velha faxineira que embranquecera os cabelos e sofria de varizes de tanto carregar o peso dos baldes e do esfregão.

Miltinho passou a ignorar a mãe e a esconder que era seu filho por ela adorado e motivo do maior [e único] orgulho.

Um professor do Colégio admirado do esforço do rapaz incentivou-o a estudar Direito. Lecionando há muitos anos na Universidade Mackenzie o Prof. Silvério não se enganara a respeito do pupilo. Pois foi assim. Miltinho passou muito bem nos exames e ingressou no curso de Direito. Alegando precisar estar mais perto da Faculdade, saiu da casa de Dona. Severina sem nem ao menos se despedir e mudou-se para um apartamento alugado no Centro de São Paulo. Passava meses sem visitar a mãe. Nem notícia mandava, pois não queria que o ligassem a velha faxineira.

Severina ficou sabendo onde Miltinho morava através do manobrista da garagem vizinha ao colégio. Havia muitos anos que todos os meses religiosamente ela deixava na portaria do prédio de Miltinho um envelope com quase todo dinheiro que ganhava com a recomendação para que o porteiro não revelasse jamais a origem do presente. No início Miltinho estranhou a inusitada doação. Porém prático como era passou a ignorar de onde vinha. Dinheiro é dinheiro dizia.

Um dia Miltinho conheceu Ana Maria. Uma jovem estudante loira de olhos verdes e linda como uma deusa. Ela que além de bela era rica e de tradicional família paulistana caiu de amores pelo Miltinho.  Ana Maria fez de Miltinho, O promissor advogado, seu par constante nos salões da mais refinada sociedade. Moça mimada que era também tinha excelentes qualidades e uma delas era reconhecer o valor das pessoas independente de sua condição social ou conta bancária. Pouco importava a ela que Miltinho fosse rico ou pobre. Ela o queria e pronto. Soubesse ela que ele era filho de Dona. Severina e teria tratado sua mãe como uma rainha. Entretanto a vergonha e o preconceito fizeram com que ele ocultasse sua origem humilde e se fez passar por um órfão sem família ou parentes.

Ana Maria fez com que o pai. Um milionário industrial, ligado aos Álvares Penteado montasse um escritório de primeira grandeza para o advogado neófito. Freqüentavam a sociedade e as corridas da hípica. Faziam piqueniques aos fins de semana e iam a salões de chás e saraus de música e poesia.

Após alguns meses ficaram noivos e a família anunciou o casamento que seria realizado na Igreja do Carmo seguido de uma festa insuperavel no salão Clube do Automóvel. Um dos padrinhos da moça era da casa Civil do Governador e esperava-se o comparecimento da nata paulistana.

Dona. Severina tomou conhecimento do casamento por inconfidências do porteiro do prédio e viu os proclamas no jornal. Miltinho desaparecera de sua vida. Nem o dinheiro havia ido buscar a vários meses. Tornara-se o cavalheiro que sempre almejara.

Dona.Severina assistiu ao casamento do filho sentada no fundo da igreja com o rosto coberto por um véu para que ele não a visse. Na passagem da noiva na saída não resistiu as lágrimas e a emoção e arrojou-se aos pés da moça beijando-lhe as mãos e desejando felicidades enquanto Miltinho aterrado e nervoso empurrava aquela louca desconhecida e a moça sem nada entender perguntava “quem é? Quem é?”; Entraram numa limusine de luxo e se foram. Esta foi a última vez que Miltinho viu Dona Severina com vida.

Alguns meses depois debilitada pelo sofrimento e sem recursos para tratar uma pneumonia Dona.Severina caiu na rua e foi levada por populares para um Pronto Socorro aonde veio a falecer. Ninguém reclamou o corpo e ela foi enterrada como indigente sem nenhuma identificação. Minha avó veio a saber mais tarde mas não conseguiu localiza-la e Miltinho sempre se recusou a receber qualquer um que fosse ligado ao seu passado. Espero, entretanto ainda encontra-lo algum dia.

 

  

 

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