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Vagas imagens de um retrato maior
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VAGAS IMAGENS DE UM RETRATO MAIOR

 

(Um conto sobre a passagem do tempo e seu registro.)

 

A

s cortinas pesadas do estúdio lembravam a M... o castanho escuro aveludado dos ursinhos de pelúcia num tom agradavelmente fosco, a guisa de fundo infinito, apenas interrompido por manchas luminosas que insistiam em refletir a luz do sol que jorrava da clarabóia do teto.

Sentada num tamborete de pano, os olhos  assustadiços e o peito a arfar pela corrida na rua Três Rios desde a Faculdade de Farmácia de São Paulo frente a Escola Politécnica, a figura esguia e frágil num vestido de soirée, em lamé de tons mousseline de seda  azul , os cabelos encaracolados por uma permanente plissée, habilmente colocados sob um chapéu cloche com toque em feltro preto toupé e incrustações no mesmo tom, M... aguardava o Sr. de cabelos grisalhos e colete verde e grandes suspensórios xadrez, que ajeitava uma chapa de vidro atras de uma câmara de madeira. A cena parecia ter saído de um conto de Dickens.

Uma pequena explosão, a fumaça branca do magnésio e aquela imagem imobilizou-se congelada numa chapa de vidro e no tempo daquela quarta-feira do mês de janeiro de 1927. A jovem farmacêutica esboçou um meio sorriso enquanto as mãos seguravam as luvas e a sombrinha.

Duas horas depois numa mesa de chá delicadamente ornamentada do Bar Viaduto sob a luz de um  grande lustre de cristal como o da Colombo, com uma pena muito fina embebida na tinta azul escura do  tinteiro Parker que o garçom prestativamente trouxera, escrevia as seguintes palavras atrás da foto sobre o papel cartonado de cor creme enquanto cantarolava baixinho a serenata de Toselli, sua predileção para tornar os momentos mais bonitos:

Para meu querido pai, no dia da minha formatura.Um beijo da sua M...

Carpem die, carpem die. Olho com certo respeito e um profunda ternura para o escritório de meu avô. Desde a mais tenra infância sua chegada a casa de minha mãe era acompanhada de um presente especial para S,,, sua neta querida.  Sentia-me feliz ao receber o seu abraço em que se misturavam a fragrância de uma loção de barbear e um perfume adocicado de chocolate do fumo cubano dos grandes charutos que ele fumava. A era castrista não se havia iniciado.

Aquela casa na rua Gaspar Ricardo próxima  a linha do trem era a casa de meu avô e sempre seria a casa de meu avô mesmo agora que ele se fora. Seu escritório de contabilidade com a velha Remington grande,pesada e negra de teclas redondas, o relógio de carrilhão, a rádio-vitrola acima da minha altura que sempre pedia uma agulha nova a cada poucas execuções e onde eram tocados aqueles discos pretos de 78 rpm e onde meu avô ouvia Maysa Matarazzo. É claro não faltava a cadeira de balanço de palha, uma mesa para vários comensais e a cristaleira é claro. A cristaleira era aquele móvel de madeira e vidro fino, as vezes bizotê, com prateleiras de vidro pelas quais se espalhavam e repousavam copos, jarras, caixas de vidro, compoteiras, taças e as vezes outras coisas. Quando menina minha severa avó com modos rudes mas um grande coração não me permitia tocar em nenhuma destas coisas o que eu adorava fazer.

A janela do escritório permitia ver o jardim da case e um grande trecho da linha férrea. Vovô adorava gatos e tinha um angorá branco de olhos verdes muito agarrado com ele. Bastava ouvir seu assobio o “Chinchão”, era assim que meu avô o chamava, corria de onde estivesse para vê-lo. O Chinchão ficava a solta pelos terrenos da vizinhança. O Chinchão foi pego pelo trem quando tentava saltar a linha e deixou o vovô mergulhado numa tristeza que eu nunca vira antes.

Procurei a escrivaninha de tampo de vidro onde vovô guardava seus tesouros particulares como um guardião perene e inabalável do castelo de Kafka. Um abridor de cartas de prata em forma de punhal ou espátula com flores esculpidas em relevo no cabo. Um caderno grosso com capa dura, onde eu sabia haver vários desenhos. Meu avô sempre soubera desenhar muito bem e contribuiu bastante para a ilustração dos meus cadernos escolares. Nunca esqueci desenhada neste caderno com um lápis preto e grosso uma orquídea com uma imensa quantidade de detalhes que me pareciam tão perfeitos como se fosse impressa.


Uma caixa de madeira continha várias moedas antigas que eu sempre pedia para que meu avô mostrasse e dissesse de onde elas eram. Tostões e réis que vinham de prenda no sabonete Carnaval. Efígies de Césares e cavaleiros das Cruzadas.

Uma caneta-tinteiro Parker 51, um tinteiro de vidro e um porta-retratos oval, antigo –não sei porque sempre acho que todo porta-retratos oval é antigo- com uma moça de cabelos encaracolados.

Quando pequena não fazia ideia de quem era a moça do retrato embora achasse seu rosto familiar e sentia ciúmes da atenção do vovô para com ela.

Nos sábados mamãe deixava-me na casa do vovô para fazer a feira que era montada ao lado da linha da máquina e lá ficava eu de trancinhas e meias soquetes a correr atrás da Georgina que fazia a limpeza semanal. Graças ao mau jeito de Georgina que derrubou o porta-retratos oval fazendo-o abrir-se inadvertidamente consegui ler a singela frase de letrinhas miúdas:

Para meu querido pai, no dia da minha formatura. Um beijo da sua M...

Então M.... isto é mamãe havia escrito aquilo, portanto ela era a moça do retrato ! Ora vejam só! Dizia para mim mesma boquiaberta pela minha descoberta. Lembrei de como havia lido as primeiras revistas do Capitão Marvel. Eu não conhecia então sua identidade secreta. Súbito em uma de suas aventuras. Com a boca vendada pelo Dr.Silvana seu arqui-inimigo. Billy Batson consegue tirar a mordaça e gritar SHAZAM e o raio dos deuses gregos o transforma no Capitão Marvel. Segurei a revista boquiaberta como se houvera descoberto um terrível segredo como acabara de faze-lo agora. Decidi uma coisa naquele instante. Decidi dar para meu pai um presente como aquele. Isto mostraria o quanto sua filha pequenina o amava.

Quando terminou a temporada de verão a oportunidade se apresentou. O movimento nas praias diminuíra e a brisa marítima já prenunciava o outono. Caminhei até o posto 3 onde em frente ao mar Dona. Vitoria costumava erguer sua barraca, um gigantesco chapéu de sol amarelo-vivo. Já a vira muitas vezes falando com meu pai, enquanto secava fotos e mais fotos pendurando-as nas varetas do guarda-sol.

Dona, Vitória colocou as mãos em meus ombros e conduziu-me aos jardins que um dia seriam tombados e apareceriam no Guiness. Com seu jeito bondoso pediu-me que subisse nas costas da leoa de pedra branca em meio ao passeio do jardim.

A saia azul pregueada, a blusa branca de linho e botões brancas e a gravata azul refletiam o sol daquela manhã de orla e Dona Vitória enquadrou o rosto infantil no visor da Kapsa e um clique ruidoso eternizou aquele momento de alegria. Dois dias, disse-me ela, dois dias e você levará a sua fotografia.

S... contemplou os dois porta-retratos sobre sua penteadeira. Um oval e outro retangular. Um sépia e outro preto e branco. Seu pai guardara cuidadosamente aquela foto. Justo ele que não se detinha em sentimentalidades e do qual em muitos anos não vira foto alguma além daquelas tradicionais 3 x  4 de terno e gravata que equalizam os traços da raça humana e é claro da tradicional foto de casamento feita pelo Paul Studio e ainda um ou outro acidente de percurso. Seu pai parecia ser imune a fotografias.

Lembrava-se bem de três fotografias em especial. Numa delas o papai e a mamãe abraçados em frente a farmácia. Meu pai, de avental comprido e branco dava um sorriso alegre e prolongado. Noutra o terno completo, colete e sem faltar a gravata e um chapéu da modernidade estilo Nick Holmes ainda ele e mamãe passeavam pela praia e haviam pousado fronte a beira de um dos canais. Os dois sorriam para o sol. Na terceira lá estava eu presente, de fraldas e sentada nos degraus de mármore branco da Farmácia São Geraldo, Muito embora os armários estivessem nas sombras era possível distinguir-se um rótulo do Biotonico F... . Esta fotografia gerou uma grande expectativa. Uma agência de publicidade quis compra-la por conta dos meus quilos adicionais bem localizados. Meu pai entretanto recusou-se terminantemente a ceder. Crianças não deviam ser envolvidas em publicidade dizia ele.

Farmácias sempre tinham sido uma referência em minha infância e minha adolescência . Tínhamos morado e brincado e trabalhado em mais de uma. Acostumei-me aqueles armários brancos com portas de vidro que iam até o teto.com frascos de remédio. Alguns tinham tampa de rolha de cortiça lacrada com  uma fita gomada, os de fabricação própria. Outros já os primeiros de algum fabricante tinham tampas de borracha recoberta com metal que era geralmente estanho brilhante. Havia também um grande balcão de madeira e vidro como o das casas de pães, onde o público era atendido pelos meus pais. Sobre o tampo ficavam os livros de registro e não faltava o jacarezinho de prata cuja boca tinha a finalidade de retirar as rolhas que teimassem em não sair dos frascos de remédio.


Atrás do balcão ao fundo isolado por duas portas de vai e vem de madeira, pintadas de branco, estava o laboratório de manipulação. Neste tempo toda farmácia tinha obrigatoriamente um laboratório e manipulava. Meu pai com a bata branca sobre a camisa e a gravata sentava-se em frente a uma mesa de mármore onde estavam balanças de precisão em campânulas, potes e pilões de porcelana e aparelhos de precisão para pesar e reagir os componentes de fabricação de cápsulas precursoras das pílulas industriais.

Admirava sua habilidade e seu conhecimento e desejava poder fazer algo assim algum dia. Os aparelhos e as drogas não se constituíam em objetos de curiosidade para mim e sim em objetos do meu universo cotidiano pelos quais passava sem sequer tentar tocar. Os rótulos redondos e com nomes complicados contribuíram para que eu lesse desde a infância quando outras crianças de minha idade sequer conheciam as letras ainda.

Agora contemplando o porta-retratos com aquela pose de dona do mundo sobre a leoa evocava e compreendia seu sentimento e sua ternura quando me carregava para toda parte e era um companheiro inseparável e apesar de nada dizer guardara meu retrato levando-o para um lugar tão querido como seu laboratório. No verso a letra perfeita de S... gravara :

“Papai, com todo amor da tua filha querida. Precisei de muita coragem para tirar esta foto que dedico a você. Beijos, S...

Depois que ele se fora como o vovô S... trouxera o retrato para guardar com ela e assumira sem um protesto a missão de ser a nova guardiã das fotos com a responsabilidade e o cuidado de um guarda suíço de S.Santidade.

Papai e eu  sempre tivemos uma cumplicidade e companheirismo que nos lançava na vivência de grandes descobertas para mim. Meu avô era ternura e meu pai era a segurança.

S... Contemplou novamente suas preciosidades, duas imagens, dois momentos inesquecíveis. Quanto tempo as separavam ? Trinta anos talvez ? Que importância tinha ? Sonhos, realizações, tristezas e alegrias eram a corrente que fluíam entre estes dois momentos e se eles não houvessem existido teriam sido criados.

O rosto de M... emergia meio a um tom sépia claro do porta-retratos oval como o rosto de Ana Karenina na bruma da estação. Factível ou não lembrei de que em uma determinada época num festival foi exibido Ana Karenina e M... até se animou com a possibilidade de vê-la, ela que há anos não frequentava uma sala de cinema.

Os meios tons cinza da vegetação do jardim e a leoa branca, salientavam o rosto da pequena S... naquela manhã de sol inesquecível. Dona Vitoria não conhecia a arte mas inconscientemente promovia a estrutura do espectador brincando com os tons e tornando as cores irrelevantes e dispensáveis. Creio ser muito improvável  achar um Santista que não tenha montado na leoa ou no leão existentes naquele trecho de jardim. Pensei nos leões que estavam na entrada da chácara Miramar no Boqueirão. Seria este um dos leões ? Acho que não. Não se viam pessoas pelo passeio da praia. Nem se entrevia a grande quantidade de banhistas que disputam o sol palmo a palmo.       

R...  saiu mais cedo da escolinha. A escolinha era distribuída entre algumas casas geminadas próxima a praia. O maternal ou a escolinha como era mais conhecida transformava-se no abrigo seguro das crianças enquanto seus pais utilizavam este tempo para suprir as necessidades familiares extras. Um sinal dos tempos.

Na entrada do Shopping existia uma, pensou ela e apressou o passo. Alcançou a alameda dos jardins frente a Caixa Econômica que ocupava um palacete de um velho clube fronte a orla e ao posto 3. O posto era uma Policlínica de atendimento público em meio a uma profusão de cabines da Telefônica, quiosques e carrinhos onde se oferecia uma profusão de comestíveis e bebidas, algumas de procedência dúbia que eram consumidas avidamente por banhistas molhados pelos jatos d’água dos chuveiros populares instalados na direção do leão e da leoa de pedra.


Num instante R... alcançou o Shopping onde na entrada estrategicamente colocada estava uma máquina de fotografia automatizada e colorida. Após alguns minutos um conjunto de quatro foros coloridas impressas por uma Polaroid saiu pela fresta e chegou-lhe as mãos. Era 27 de abril dia do seu aniversário e também dia da partida do seu avô. A vovó M... que lhe dissera pois era muito pequena e não se recordava de nada. As informações eram uma quantidade de bits cada vez maior num mesmo espaço-tempo. Era assim que dissera aquele homem na conferência que ouvira no colégio a semana passada falando daquele guru – um tal de Nicholas Negroponte. Será que tudo começou quando chegamos a lua em 68 ? Ou teria sido 69 ? Não foi 69, 26 de julho de 1969, quando já tinha 8 anos de idade. E quantas vezes fora isto ? Três, três vezes na lua.

Três fotos. Penso que falta a minha foto junto aquelas duas na penteadeira. Sinto que tenho um lugar reservado ao lado delas. Serei o terceiro patamar do sonho até a modernidade. Virando o fino papel já seco da química, escreveu com a ponta porosa da caneta hidrográfica:

“Com todo amor da vossa querida  R... 27 de abril de 19..

S... abriu como que adivinhando, mais do que vendo o  conteúdo. O rosto de R... premiou-a com um sorriso franco e largo. Uma lágrima discreta lhe caia pelo rosto enquanto na moldurinha de papelão em formato de um coração que o acompanhava ia encaixando o retrato de R... Feliz aniversário e que Deus te ilumine.

R... saiu caminhando pé ante pé e encostou a porta do quarto sem fazer barulho. Sua única filha entendia agora porque em determinadas noites ela fica olhando aquelas imagens como se esperasse algo. Elas entretanto a esperam todas as noites.

 

 

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