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Vestígios de amores intocados
Vestígios de amores intocados




 

voce está ouvindo Santos de Francisco Ricardo Leão

 


R conheceu Lair quando contava vinte anos e quando esta era a única realidade da existência. Lair também havia encontrado o sabor de seus vinte anos e portava os elementos totalmente necessários ao despertar das paixões.

Os olhos castanhos e enormes transmitiam luzes de finais de semana e promessas nunca ditas. O rosto era perfeito e delicado sempre com a testa coberta pela teimosia de uma franjinha castanha.  O sorriso de Lair era entretanto mais-que-perfeito em qualquer verbo  e derrubaria qualquer tentativa de descreve-lo.

V falara inúmeras vezes do sorriso da normalista alta e que usava teimosas franjas sobre um rosto que fugia do sol e para o qual prometera pretensiosamente um belo poema.  Carregava a foto 3 x 4 que lhe traria a inspiração necessária e que recebera de Lair.

Moyses com vinte e sete anos era o modelo mais continente de bom mocismo da época.  Tendo concluído o curso médio e com uma vaga pretensão de estudar algo do padrão química industrial trabalhava numa equipe de turno de peões da Refinaria ou da Alba e era orgulho das mães de jovens casadoiras. O tempo era dividido entre o trabalho e o serão a noite na jovem noiva prometida Lair no conjunto residencial do BNH.

O pai de Lair era um professor de cursos técnicos na Escola de treinamento do Senac e lembrava muito James Bond pelos bigodes e cabelos pretos. Creio que tinha um grande apreço por R, mas com Moyses, sogro é sogro.

Havia muitas ocasiões que Lair e R se encontravam. Ele, tentando um vestibular numa Universidade gratuita, única saída para vencer a falta de recursos e ela aguardando o término da Escola Normal, quando casaria com Moysés.  Não era assim o destino das normalistas, passarem das mãos de Bond, digo do pai para quem já tinha rumos na vida ?

Lembro o desfile anual do dia da independência. R e Lair sentados no meio-fio da avenida e Lair nem protestou quando R lhe acariciava os cabelos indiferentes às bandas que desfilavam pela rua.

R costumava passar as tardes de sábado no apto. de Lair. Se Moyses se sentia cansado e ia ve-la só a noite era um problema dele. Aquelas tardes eram uma das coisas mais significativas que aconteciam para R. Lair era de uma conversa fácil e inteligente. R falaria horas a fio com ela se assim ocorresse. Muita vezes Lair tocava uma peça ao piano. Sim, ela fizera como toda jovem normalista o curso clássico no Conservatório. Dissera a ele uma vez que tinha vontade de fazer faculdade de música. Falava sempre em alguns amigos que acabaram tornando-se amigos de R, pois todos moravam na Rua do BNH.  

Sarito era como era conhecidi Cesario, o Espanhol. Inteligente e já formado no colegial espanhol, teve que refazer o curso no Brasil. Não tivemos mais notícias dele ao terminar o colégio e entrar na Escola Politécnica.

Renato Cardim queria estudar psicoçogia. Já no colégio mostrava uma sensibilidade e conhecimento grande do comportamento humano sem ser um psicólogo de almanaque. R costumava também conversar muito com Renato pois ele tocava sempre piano para os amigos. Sua música e canções eram o romantismo de Vinicius e a sonoridade do Zimbo pelas teclas. Renato tocava de ouvido. Gostava de festas e bebia muito. Ele estivera algum tempo no coração de Lair. Ouvir garôta de Ipanema, aqueles acordes iniciais que lembravam Bach, e que nos faziam acreditar que só Hamiltim Godoy era capaz de tocar, era um verdadeiro presente.

A amizade entre Renato e Chico Leão era coisa antiga. Leão era um compositor nato. Volta e meia surgia com uma música nova e sempre estava presente na casa de Cardim. O hino para  Santos [i] fora uma parceria dos dois. Leão já tivera lugar no coração de Lair, mas aprontara com ela. Vagamente a trocara por outra sem maiores explicações e R se questionava como poderia  ter feito tal coisa.

Girodo era quase um engenheiro formado e assim como o Nelson Granado um terceiro anista de engenharia eram amigos de Sarito e também de Cardim. O Girodo tocava muito um violão, já havia ido ao Rio conosco[ii] e já conhecera até Vinicius. Girodo e Nelso (que era conheo por Nelfo) eram vizinhos em duas casas da Rua Alexandre a pouca distancia do Conjunto habiitacional do IAPI. Do portão da casa de Nelfo podia-se ver a janela manchada e descascada de Lair. Na calçada em frente ao prédio gastp era a casa de Chico Leão. Enquanto Leão e Chico eram altos e magros, bem mais altos que Lair ,Nelfo era um rapaz baixinho e magrinho visivelmente amigo da malandragem.

Claro que Leão era malandro, mas era chegado mais a bebida e a cerveja. Talvez até alguma droga. A malandragem de Nelfo era mais inocente-temndia mais para a vagabundagem. Creio que se acomodou a não pegar nos livros e foi cruspiano. [iii] Chegou a ser jubilado da Escola Politécnica..

O Alcione era o colega certinho do  nelfo, tinha 23 anos e morava num chalé no estuário. Pobre e filho de um eletricista que o sustentava no Mackenze com certeza obteria em breve o diploma de engenheiro civil. Alcione tornou-se um amigo de R. Contou-lhe sobre a Joyce o amor frustrado de Nelfo, as frustrações de Leão e Renato e que seu interesse anunciado por Lair era de muita visibilidade.

As tardes de sábado no apartamento de Lair haviam se tornado um grande sarau vespertino de MPB. Haviam os músicos, os cantores, os compositores, os amigos, os amores frustrados, os revolucionário

s, os rebeldes, discutia-se o romântico, o cinema, Glauber Rocha e lá estava R preso aos olhos profundos, ao sorriso branco enquanto Lair descansava as mãos sobre a poltrona gasta. Ocupava sempre o lugar ao lado de R. Quando a execução do piano de Cardim era rômantica, o lugar e o momento eram abduzidos e entrelaçava suas mãos com as dela pois a ocasião fizera sua parte.  Momentos pulverizados e literalmente perdidos no espaço sem uma razão (precisava?) anunciada. Azereus Nuncius. Por vezes o olhar atento de James Bond pesava sobre a cena.

R lembrou do desfila das bandas e fanfarras. Nem lembrava porque fora assistir àquele desfile. Talvez porque a Escola Normal participava e com certeza Lair estaria lá. Sim, com efeito estava certo. Encontrara Lair sentada nas escadarias da avenida em frente ao Cinema Caiçara. Eles se sorriram um ao outro. Se fosse combinado não teria dado tão certo. R desembaraçou-lhe os cabelos um tanto esvoaçados pelo vento da manhã. Tudo parecia ter desaparecido.

R a encontrou no seu mais especial momento antes de terminar o ano. O baile de formatura das normalistas.

Foi no Clube de Regatas. Era um clube menos social e mais popular e esportivo, mas tinha um palco e as vinte novas normalistas se perfilaram para a grande quantidade de pessoas que se aglomeravam no salão. Sim, é claro que executaram Sonho de Amor, pois era uma despedida, o fachamento de uma etapa e lá se destacava Lair num vestido rodado e branco sobre altos saltos e a inseparável franjinha.  Não estavam nem os pais nem o estranho noivo Moysés.

O azar foi dele , pois após a abertura R custou a crer que estava com Lair em seus braços a poucos centímetros de seu sorriso e inundado por seus olhos. Faltava entretanto a alegria pelo que havia sido conquistado e a noite prosseguiu sem que abrissem seus corações. R retirou-se sem que houvesse terminado o único baile em que estiveram e nada fosse dito.

O último dia de seu convívio se avizinhava. Digamos que fosse um último dia anunciado, após o qual nada além pudesse ou precidasse ser dito. Esse dia está sempre reservado em qualquer convivência. Naquele final de verão as noites já não eram tão quentes e o Nelfo aguardava a volta às aulas da universidade em casa. Nelfo estava entristecido pois perdera o pai. A Vanda passava seus últimos dias de férias junto com a prima Lair. As duas eram como irmãs e as vezes Lair passava uma pequena temporada em Atibáia.

A vivenda dos Bresighelo em uma tranquila rua de Atibáia era uma típica casa italiana cheia de gente onde viviam Vilma e Vanda. A cidade tranquila que podia ser alcançada por trem. A telefonista conhecia todos os telefones de cor e ligava a pêga no 264 para falarem nos Bresighelo. Quando o amigo V perdeu precocemente o seu irmão mais velho fiz companhia a ele num Carnaval muito calmo, que nem parecia Carnaval. Passamos várias tardes na sala do casarão com a Vanda e a Vilma que alimentava um grande interesse por V.

Convidadas para sair e passear na praia aproveitando a noite de verão. Como num sonho de uma noite de verão, R, Nelfo,Vanda e Lair andavam a esmo pelo passeio do jardim Nelfo falava muito e os quatro ficaram muito tempo no banco de pedra sentindo a brisa do vento que chegava da praia escura e arrepiava os corpos. Lair pediu para olhar a fonte de perto e sentaram-se a sós a beira do espelho dagua. Eles se encontraram e reconheceram

-Não estou mais com Moyses, terminamos tudo, disse num fio de voz semi-serrando as pálpebras.

Espero que Lair possa ter perdoado quem nada tinha a dizer no momento errado   Um amor em sua vida certamente encontrou e viveu é o importante.

 

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[i] Veja um piano ao cair da tarde

 [ii][ii] Veja um clarão nas trevas

[iii]  Moradores do conjunto residencial da usp

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