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A inocente face do terror
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A inocente face do terror

 

Todas as tardes ela tomava o coletivo daquela linha de ônibus para retornar a casa. Não era uma linha muito concorrida e o carro às vezes ia até vazio. Isto lhe dava oportunidade de escolher um banco sossegado onde podia pensar sobre soluções para os problemas e as dificuldades da lida diária. Júlia também aproveitava para espiar da janela o movimento de pessoas que corriam pelas calçadas da praia exercitando os músculos e desejando estar entre eles, recebendo os raios do sol quente do verão que tirava aquelas pessoas de suas casas. Jovens como ela esparramavam-se em grupos que as sessões da tarde despejavam pelas calçadas. Provavelmente eram fitas de aventuras pois os rapazes tinham o peito inflado de um super herói qualquer e as moças aqueles olhares lânguidos sonhadores.

Vestia uma saia jeans curta um pouco acima dos joelhos. Não podia se consentir em mais. Achava que tinha as pernas muito brancas. A camiseta amarela, entretanto era justa e revelava seios salientes e bem formados. Os cabelos pretos e curtos suavizavam a expressão de um rosto maduro e esculpido nuns prováveis vinte e poucos anos, Os olhos eram claros e de um azul expressivo, daqueles que respondem com precisão às emoções e sentimentos.

O ponto do coletivo estava vazio. Agitou o braço para o ônibus branco e azul que se aproximava, Mais um pouco de tempo estaria chegando ao seu apartamento e ainda poderia ver aquele programa com mamãe.

O ônibus freou bruscamente depois do ponto. Sempre faziam isso. Desrespeito com os passageiros e uma desatenção inexplicável. Subiu rapidamente os degraus xingando mentalmente o mau motorista, Postou-se em frente à catraca e só então abriu a bolsa para procurar o cartão do vale transporte que infortunadamente se esquecera de pegar.

Tudo se passou muito rapidamente Ainda remexia a bolsa repleta, quando um homem subiu rápido pelos degraus e Júlia adivinhou mais do que viu a figura alta e musculosa atrás de si quase roçando seu corpo. O ônibus arrancou reiniciando a marcha e quase perdeu o equilíbrio deixando cair a bolsa. Enquanto tentava pegá-la sentiu que o homem a segurava no braço. Quando conseguiu equilibrar-se notou que o homem passara pela catraca e já ia para o meio do carro que estava vazio exceto pelo casal de velhinhos no primeiro banco dos assentos reservados aos idosos.

Mal educado pensou. Como se não bastasse o motorista, um homem mal educado. Achou finalmente o cartão e encostou-o no leitor liberando a catraca, Dirigiu-se para o meio do ônibus onde o rapaz negro de bermudas e camiseta sentara-se junto a uma janela. Numa atitude de desafio sentou-se na mesma direção e na janela oposta,

Olhou pela janela, Não iria permitir que aqueles incidentes a aborrecessem. Estava voltando para casa. Estava indo para seu conforto e descanso e não queria pensar em coisas irritantes que faziam parte do dia a dia.  Talvez fosse a um cinema no fim de semana. Talvez alguém lhe telefonasse. Que horas seriam? Faltava pouco para chegar e sonhar. Que horas eram?Consultou o relógio e estupefata conteve um grito abafado. O relógio! Estava sem o relógio!

Tinha certeza que estava com ele e não o tirara do pulso. Fora roubada. O rapaz a roubara quando passara na sua frente pela catraca. Como pudera ser tão idiota.

Olhou para ele de soslaio. Ele olhava para ela e pareceu distinguir um sorriso de deboche nos dentes brancos contra o rosto negro. A roupa gasta e desleixada parecia ser suja. Sentiu raiva ao pensar nele com o seu relógio.

O relógio que ganhara de sua mãe. Lembrava bem da mamãe quando voltara daquela viagem com o irmão. A mamãe tão contente e tão falante. Naquela primavera de dez anos atrás. Fora numa tarde de sábado e eles haviam chegado de uma viagem. Estavam todos sentados na mesa da cozinha e tomavam café enquanto mamãe contava as peripécias da viagem.  Sua mãe lhe falara então do relógio que comprara em uma grande relojoaria numa rua em que só havia relógios. Não lembrava o nome da loja, mas era em frente a um lago muito grande. Era um lugar muito chique e sofisticado. Bondes estreitos e compridos correndo nas ruas de paralelepípedos e aquela multidão em frente ao lago,

Entramos naquela loja nem sei por quê. Acho que foram os cucos pendurados no mostruário externo. Todos bonitos e não havia dois iguais. Foi quando o relógio chamou a minha atenção, todo dourado com os números em romano cada um sobre um quadrado preto. Parecia um daqueles cebolões antigos que seu avô usava, porém menor e mais decorado. Estava dentro de uma caixa vermelha, quadrada e pequena, cujo interior era forrado de um tecido branco e brilhante. Levei-o pensando em você disse ela com um meio sorriso.

O relógio tornara-se inestimável em seu apreço e nunca saia de sua bolsa. Júlia tirava-o do seu repositório às vezes mais para admirá-lo do que para saber as horas porque ele trazia-lhe a terna lembrança da mãe na distante suíça. Não era mais um relógio e sim um sacramento. Algo pessoal e significativo que lhe havia sido usurpado naquele momento por alguém que não tinha a menor ideia do que representava. Talvez trocasse por um pouco de droga em alguma boca de fumo.  Marginais, deserdados, excluídos pensou sentindo a raiva crescer em seu íntimo. Preciso defender-me dessa escória, isto não pode e nem ficará assim. Nossos direitos têm que serem defendidos custe o que custar.

Júlia sentiu que não era ela mesma que tomara subitamente uma decisão e levantara-se do banco segurando a bolsa aberta com a mão em seu interior. O pulso acelerou trazendo uma onda de calor que percorria o corpo porejava a pele e latejava a cabeça. Numa rapidez de que não sabia ser capaz pulou para o banco do negro, retirou da bolsa a escova de cabelo e encostou o cabo metálico e frio no estômago do homem que subitamente estremeceu. Parecendo encolher-se contra a parede da janela tinha a expressão zombeteira transformada pelo medo num semblante de puro pavor.  A voz de Júlia soou fria e áspera: ‘Olhe para frente e não se mexa vagabundo. Pegue o conteúdo do seu bolso e coloque dentro da minha bolsa. Se disser uma palavra eu te queimo. ’

Júlia teve um fremito de satisfação ao sentir o objeto pesado caindo dentro da bolsa aberta em seu colo. Segurou a bolsa fechada e falou com calma: ‘Vou levantar e sair. Não se mova, não fale e não olhe para trás se não quiser sair daqui carregado seu idiota. ’

Júlia levantou-se decidida, foi para o fundo do veículo quase no mesmo instante em que o ônibus parava e abria as portas. Desceu a escada precipitando-se para fora, vendo com o rabo dos olhos que o homem não se mexia.

Júlia desceu por uma rua e correu como nunca abraçada à bolsa. Quase não respirava, mas corria sem parar. Correu várias quadras inconsciente e indiferente as pessoas que paravam para olhá-la espantadas com aquele comportamento. Depois se cansou e andou rapidamente por algum tempo. Quando resolveu orientar-se viu que seus passos a haviam levado sem perceber ate perto de seu prédio.

Subiu no elevador até a segurança do seu apartamento. Tirou as chaves do bolso da saia e entrou fechando a porta com o trinco. Começou a sentir um tremor que não lhe permitia mais manipular a chave. Sentou-se no sofá e veio então o alívio.

A coragem incorporada subitamente deixou-a e ela sentiu o corpo leve fraquejando a tremular como folha ao vento. No abandono da sala vazia chegou-lhe um choro copioso e convulsivo que não podia conter no silencio opressivo. O cansaço venceu por fim a dureza do dia e ela adormeceu.

Júlia acordou após um tempo que lhe pareceu longo. Tudo estava às escuras exceto pela luz do corredor que devia ter esquecido acesa na pressa ao sair pela manhã. Sentia na vista aquele ponto de luz dourada que brilhava insistentemente nos olhos. O que era aquilo na mesa pensou, levantando-se num salto completamente acordada. Aproximou-se da mesa de madeira redonda, não querendo crer em seus olhos, agora bem acordados.

No centro da mesa o relógio suíço brilhava descuidado. O relógio dourado de suas recordações queridas.

Voltou-se para o sofá e agarrou a bolsa abrindo-a. No interior uma carteira masculina de couro recheada de notas de grande valor que segurou petrificada. Tornou a sentar-se arrasada pelo arrependimento e pela culpa que a faziam chorar agora outra vez.

 

 

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