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Acudam-me, balearam minha janela
Acudam-me, balearam minha janela

 

-Senhor, o inimigo tem tantas setas,

Que se atira-las todas poderá tapar  o  sol.

-Melhor soldado. Combateremos a  sombra.

  (Alexandre)

 

Acordei ouvindo os estampidos e os estalos da caixilharia de alumínio das janelas do CRUSP sendo arrancadas. As três camas eram dispostas sob a janela e eu estava só com todos os sentidos em alerta. Olhei no despertador sob a mesa estreita a guisa de escrivaninha sob a estante e constatei que eram três horas. Três horas de uma madrugada do início de conjunto residencial da uspDezembro. Não consegui de momento atinar com o que estava acontecendo, exceto que os vidros haviam sido estilhaçados e uma grande quantidade de cacos se espalhara pelo chão tal como meu sono profundo pelo cansaço da expectativa de uma prova decisiva de Resistência a ser feita dentro de poucas horas.

A folha de madeira em frente à janela que separava o quarto-sala da pia e do banheiro estava perfurada por vários buracos e então percebi que a janela do quarto fora baleada por varias vezes. Pensei que já havia começado a invasão. Era comentário geral que iríamos ser invadidos um dia mais cedo ou mais tarde. Pensei que o dia havia chegado e agarrando uma mochila precipite-me para o corredor, onde avistei varias pessoas correndo para as escadas e elevadores. Ocupando o quinto andar no apartamento 505 do Bloco E, o bloco verde, do Conjunto Residencial da USP Os podia me dirigir para baixo. Desci os 4 lances de escada que me separavam de uma portaria há muito abandonada. A multidão de jovens estudantes reunidas ao redor do caminho que interligava os blocos do conjunto apontava aterrorizada para um espetáculo sem igual.

A estradinha marginal interna formava um imenso balão que rodeava o CRUSP. O início do balão começava na Faculdade de Pedagogia em frente à Academia de Policia. Seguia-se numa reta até perto do conjunto e subia-se em curva para a esquerda por onde se passava em frente à História e Geografia. Depois era possível seguir o contorno da direita passando em frente à Reitoria da USP e novamente à direita paralelamente a raia olímpica alcançar os prédios do Conjunto pelo lado esquerdo oposto ao início. Não havia carros, pessoas ou luzes pelo caminho.

A multidão olhava com olhos atônitos a interminável fila de carros todos numa fila rigorosa em um grande número, com certeza mais de cinqüenta que como um cortejo percorria o caminho que rodeava o CRUSP. Clarões de quando em quando luziam junto com longos estampidos. A casa de tijolos que servia de central telefônica tinha alguém no teto que provavelmente portava uma submetralhadora. A longa fila de carros, a maioria importados não parava. Havia Jaguares, Thunderbirds principalmente Camaros.

Os estudantes gritavam raivosamente e jogavam pedras e tudo que estivesse ao alcance dasconjunto residencial da usp mãos naquela turba que segundo diziam era um grupo de extrema direita de várias siglas tais como CCC. MAC, FAC, etc, que orquestradamente haviam se reunido para aterrorizar o antro do comunismo e da subversão que era o CRUSP.

Corremos para o bloco E agora transformado em uma imensa praça de guerra. As portarias haviam sido tapadas com uma barricada de madeira feita com mesas e camas. Uni-me a um dos grupos de trabalho que subia e descia pelos elevadores e soube que era o núcleo de armamento. No terceiro andar em três dos apartamentos estava instalada a produção de bombas de fabricação caseira.

 O coquetel molotov foi uma invenção doméstica surgida durante a revolução de 1917. Numa garrafa de vidro é colocada uma mistura de  ¼ de querosene e ¾ de gasolina. Externamente é colada em volta da garrafa uma folha de papel molhada numa solução de açúcar. Atirada num alvo qualquer, ao bater incendeia-se e explode. No momento descia os elevadores levando caixas de coquetel num perigoso chacoalhar para as turmas que as distribuíam e esperavam na portaria do prédio. No elevador já se ouvia o ronco dos motores dos carros, tiros e várias explosões.

Um carro atingido rodou na pista e atirou o motorista que desapareceu fora da estrada. O tanque explodiu e a massa incendiou-se numa coluna de fumaça e fogo chocando-se com dois carros que vinham atrás. Ouvimos gritos e o disparo de várias rajadas de metralhadora. O Wang, o vietnamita e o Jeovah rolaram atingidos por balas nas pernas. Corremos sob as balas carregando uma maca improvisada pelo pessoal da Veterinária. No térreo do Bloco F próximo a raia dois alunos da medicina esperavam para extrair as balas. Nenhum hospital ou clínica faria isto sem avisar o DOPS.

A coluna de carros começou a se dirigir para a entrada da Cidade Universitária. Já haviam se divertido muito naquela noite assustando uma horda de subversivos comunistas. Se o carro estragou de manhã estariam com um novo. Pareceu=me ver de relance algumas veraneios pretas, carro freqüentemente usado pelos agentes da repressão. Olhei no relógio: eram  5:00 h da manhã. O dia era 7 de setembro, véspera de minha prova na Escola Politécnica. Em meio ao campus destroçado sentei num banco olhando para a destruição em meio ao cheiro acre de gasolina e pólvora. Muitas meninas choravam abraçadas. Finalmente adormeci vencido pelo cansaço. Terminara minha iniciação a democracia.


 

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